Capítulo 197 - Profundo II
Brigitte permaneceu alguns segundos na mesma posição, olhando para o ponto onde o homem havia estado, como se a conversa ainda não tivesse terminado na cabeça dela. Os dedos voltaram a se mover sobre a madeira, mais lentos agora, acompanhando algum ritmo interno que não tinha relação nenhuma com a música do bar nem com o fluxo das pessoas. O olhar, inevitavelmente, acabou deslizando para o lado, encontrando Evelyn pela primeira vez desde que tinham se sentado.
Novamente a elfa inclinou a garrafa em sua garganta. O líquido descia sem pausa. Não estava bebendo exatamente com pressa, mas sim constância, por impulso irracional.
Brigitte soltou o ar pelo nariz, desviando o olhar por um instante antes de voltar a encarar.
— Você já bebeu cinco canecas de chopp hoje de manhã e agora tá bebendo uma garrafa inteira de whisky? — disse, apoiando os braços na mesa, curvando a postura. — Se continuar assim, você vai ter uma ressaca pesada amanhã. Melhor parar de beber.
Evelyn não respondeu de imediato. Terminou o gole, abaixou a garrafa, limpou a boca com o dorso da mão e manteve o objeto apoiado contra o balcão por um segundo. O olhar não se moveu nem um milímetro para Brigitte, na verdade Evelyn virou os olhos para a direção oposta da garota.
— Não enche.
A resposta veio seca e curta, sem variação de tom. Não era exatamente irritação aberta — era rejeição. Simples e direta.
Brigitte inclinou levemente a cabeça, como se tivesse esperado algo próximo daquilo, mas não exatamente aquilo.
— Eu tô falando sério, Eve. Para de beber.
Apenas silêncio. Evelyn não deu nenhuma resposta, pretendendo encerrar a conversa por ali mesmo. Mesmo assim, Brigitte insistiu.
— Preciso repetir? Você já tava bebendo antes. Se continuar assim, vai-
— Não enche o saco.
Dessa vez a interrupção veio mais rápida, com menos espaço entre as palavras. Evelyn virou o rosto novamente, o suficiente para encarar Brigitte de lado, o olhar mais afiado do que antes, como se fosse um aviso silencioso. Brigitte não desviou.
— Eu só tô tentando-
— EU DISSE PRA ME DEIXAR EM PAZ, SUA HUMANA DESGRAÇADA!
O som da voz dela cortou o espaço entre as mesas como uma arma fora de controle. Algumas conversas próximas vacilaram por um instante, outras pararam por completo, focando na gritaria da elfa estrangeira.
Brigitte não recuou de imediato, mas o corpo perdeu um pouco da rigidez anterior. Não era medo — era surpresa. A expressão dela se fechou em um ponto neutro, tentando entender exatamente onde aquilo tinha mudado.
— Eve… — começou, mais baixo dessa vez.
— Não adianta você ficar me humilhando o DIA INTEIRO, me fazendo me sentir uma inútil, um peso morto, você ainda continua me irritando! Eu só quero que você me deixe em paz e pare de me irritar, nem que seja por um segundo!
A garrafa voltou à boca, mas dessa vez o movimento foi mais brusco. O líquido desceu rápido demais, como se ela estivesse tentando acompanhar a própria fala. Brigitte franziu levemente o cenho, não em reprovação, mas em confusão genuína.
— Mas eu não te humilhei…
Evelyn soltou uma grande quantidade de ar pelo nariz, como se estivesse chegando ao seu limite.
— Não?! E todas aquelas habilidades maravilhosas que você fez hoje, hein?! Você ter derrotado dezenas de pessoas, ter me salvado DUAS PORRAS DE VEZES! Eu nem consegui me defender sozinha, VOCÊ que teve que me salvar! — terminou, apontando para a garota, quase a encostando.
O dedo tremia. Não de fraqueza, mas de excesso — força, emoção, álcool, tudo misturado sem direção.
— Eu tava lá! — continuou, a voz falhando no meio do caminho, mas voltando mais alta logo depois. — Eu tava lá e não consegui fazer NADA! Fiquei parada e só consegui assistir! Só fiquei esperando alguém vir me salvar de novo! Alguém que não era eu!
A mão caiu de volta na garrafa. Ela a ergueu outra vez, mas parou no meio do movimento, os olhos desviando por um instante, como se alguma imagem tivesse atravessado o campo de visão dela.
— Nada mudou desde aquele dia… — a palavra saiu mais baixa, arrastada. — Aquele desgraçado…
— Ele arrancou minha prótese como se não fosse nada… — disse, olhando fixo pra madeira do balcão agora. — Como se eu fosse… descartável. Como se eu fosse…
A voz perdeu o volume, mas não a intensidade. Cada palavra parecia mais pesada do que a anterior.
— Ele sentiu nojo de mim… — um riso curto, quebrado e sem sorriso, escapou. — Ele disse que eu tava quebrada, que não servia pra nada…
A garrafa finalmente encostou na boca de novo. Dessa vez, o gole foi longo demais. Quando desceu, ela não afastou imediatamente — ficou ali por um segundo, parada, como se não tivesse terminado ainda, mesmo sem beber.
— E eu… — a voz veio abafada, quase presa na garganta. — Eu ainda… eu ainda…
A mão que segurava a garrafa desceu de repente. O fundo bateu na mesa com um som seco, mais alto do que o necessário.
— Eu ainda caí na merda do joguinho sentimental dele! — o punho livre veio logo em seguida, batendo na madeira. — DESGRAÇADO!
Algumas pessoas olharam dessa vez. Não por muito tempo, mas o suficiente para que entendessem que aquilo não era uma situação que deveriam se meter. Evelyn respirava mais rápido agora, irregular. Os olhos brilhavam, marejados, mas ela não piscava.
— Eu só queria ser mais útil… — disse, mais baixo, mas sem perder a tensão. — Não quero depender dos outros… não quero ficar chorando por gente que morre na minha frente como se eu não pudesse fazer nada…
A última palavra saiu quase como um sopro. Duas gotas de choro fugiram dos seus olhos.
— Eu quero ser forte…
O silêncio que veio depois não era completo — o bar continuava ali, vivo e barulhento após os gritos da elfa — mas entre elas, havia um espaço vazio. Um daqueles que não se preenche rápido.
Brigitte não respondeu imediatamente. O olhar dela ficou fixo em Evelyn por alguns segundos, como se estivesse reorganizando tudo o que tinha ouvido. Então se moveu. A mão dela avançou sem pressa e segurou o pulso de Evelyn — firme o suficiente pra impedir outro gole, mas sem força desnecessária.
— Então para. — disse, simples.
Evelyn franziu o cenho, puxando levemente o braço por instinto.
— Para de agir como se isso fosse te deixar mais forte. — continuou Brigitte, sem alterar o tom. — Porque não vai.
O olhar dela não tinha julgamento. Nem pena. Só uma linha direta entre o que via e o que dizia.
— Você quer ser forte? Então começa parando de se destruir no meio do caminho. Para de ficar se remoendo pelo que você poderia ser e começa a se orgulhar daquilo que você já é, Evelyn!
Evelyn manteve o olhar nela por alguns segundos. A respiração ainda irregular, os olhos ainda carregados. A resistência veio primeiro — no maxilar, no braço tentando puxar de volta, no silêncio que parecia querer virar outra explosão. Mas não virou.
— Afinal, você fez coisas incríveis como mercenária, não? Outra, quem salvou o Niko todas as vezes que vocês lutaram? Foi você, Evelyn. Isso já mostra que você é forte, sim!
A tensão finalmente começou a ceder. Não de uma vez. Foi em pequenos pedaços. Por fim, ela desviou o olhar.
— …Tsc.
A mão dela relaxou. Brigitte soltou o pulso de Evelyn logo em seguida, sem prolongar o contato. Em seguida, puxou levemente a garrafa na direção de si, girando-a só um pouco sobre a mesa.
— Quer dividir?
Evelyn olhou pra garrafa. Depois pra Brigitte. Depois desviou de novo. Por um instante, pareceu que ia recusar. Mas não recusou. Sorriu. Um sorriso sincero e satisfatório.
— Você é uma ótima amiga, Brigitte. — disse, deixando a luminar pegar a garrafa.
Brigitte soltou um pequeno sopro pelo nariz, inclinou o whisky na própria boca, dando um gole generoso no álcool. Quando terminou de beber, colocou a garrafa ao lado da amiga.
— Só gosto de fazer as pessoas sorrirem. — ela posou, apontando para Evelyn com as duas mãos. E parece que eu te fiz sorrir.
O sorriso de Evelyn não diminuiu — pelo contrário, cresceu ainda mais, mais solto agora, menos preso ao que veio antes. Não era um sorriso forçado, nem irônico.
Brigitte retribuiu com um olhar rápido, quase imperceptível, antes de erguer a garrafa novamente. Dessa vez, quando bebeu, não foi com pressa. Evelyn pegou de volta logo em seguida, repetindo o gesto em silêncio. O ritmo se estabeleceu sozinho — um gole, uma pausa, um deslizar da garrafa pela madeira.

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