Capítulo 215 - Penúltimo Passo
O silêncio permaneceu suspenso na sala por alguns segundos. Brigitte observou os dois homens sem responder de imediato. O dirigente mais velho continuava com a mão dentro do bolso do casaco. Robert permanecia imóvel ao lado dele. Os dois pareciam tensos pela primeira vez desde que ela tinha entrado naquele prédio.
Aquela situação era para ser desesperadora para qualquer pessoa. Mas para Brigitte aquilo era quase… um alívio. A garota soltou lentamente o ar pelo nariz. Então fechou o que faltava da pasta, colocando-a sobre a estante de metal.
— Até que enfim.
Os dois homens piscaram uma vez, ainda mais atentos do que antes.
Brigitte levou a mão até a gravata e afrouxou o nó com um movimento rápido. A sensação de liberdade foi a mais prazerosa possível. Logo depois abriu os botões do paletó e o retirou dos ombros, passando cuidadosamente sobre o braço enfaixado. O segurou por alguns segundos antes de largá-lo ao lado da pasta de arquivos.
— Eu não aguentava mais esse teatro…
Ela esfregou a mão sobre o pescoço. O cabelo preso puxava de um jeito estranho fazia quase uma hora. Logo retirou o elástico que prendia os cachos, balançando os volumosos cabelos logo depois.
— E essa roupa pinica muito também.
Sem nem mesmo esperar pelo próximo movimento, o dirigente mais velho retirou a mão do bolso. Uma pistola estava entre seus punhos — Brigitte não sabia qual era o modelo ou empresa de fabricação, mas isso não faria muita diferença. Robert fez exatamente a mesma coisa no mesmo instante, a arma era igual.
O movimento sincronizado chamou a atenção de Brigitte imediatamente. Até aquele momento os dois tinham parecido apenas trabalhadores simples, homens que passavam o dia enterrados sob formulários e reclamações sindicais.
Mas o jeito como sacaram as armas contava uma história diferente. Não houve hesitação. Não houve pânico. Não houve aquela atrapalhação comum de quem segura uma arma apenas para intimidar a pessoa à frente. Os dois já tinham feito aquilo antes. Várias vezes.
A sala de arquivamento ficou completamente silenciosa. O dirigente mais velho manteve a arma apontada diretamente para o peito dela. O rosto continuava calmo, como se estivesse encerrando um problema administrativo particularmente irritante.
— Você fez muitas perguntas erradas hoje, senhorita Aster.
Robert tentou copiar a mesma tranquilidade do dirigente velho, mas não conseguiu completamente. Brigitte percebeu a tensão escondida nos ombros e no jeito que os dedos apertavam a coronha.
— E a gente foi muito paciente respondendo. — acrescentou ele. — Mais paciente do que devia, sua desgraçada!
O homem mais velho assentiu devagar. A arma continuava imóvel na direção dela. Não houve nem mesmo um centímetro de tremor.
— Então vamos resolver isso de forma simples. — disse. — Se você cooperar, talvez a gente até pegue mais leve.
Brigitte observou os dois por alguns segundos. Eles ainda continuavam surpreendentemente calmos. Aquilo era curioso. A maioria das pessoas imaginava que combate era sobre velocidade ou força. Na verdade, era sobre ritmo. Quem controlava o ritmo controlava quase tudo. E naquele momento os dois homens acreditavam que estavam controlando a situação. O que significava que estavam relaxando.
A luminar pensou em simplesmente derrubá-los. Seria fácil, claro. Os dois estavam armados, mas a distância era curta demais para aquilo realmente importar. Antes mesmo que terminassem de apertar os gatilhos ela já estaria atrás deles. Mas então uma ideia melhor apareceu. Brigitte levantou lentamente as mãos.
— Tá bom. — respondeu. — Vocês me pegaram.
Virou um pouco o rosto para o lado e fechou os olhos. A expressão assumiu um ar derrotado tão exagerado que quase parecia uma caricatura.
— Eu admito. Fui descuidada. Vocês me pegaram direitinho. Me leram como um livro aberto.
Por um instante, apenas um instante, Robert pareceu satisfeito. A sensação durou menos de um segundo, porque logo depois a desconfiança voltou com força total.
— Certo. — respondeu. — Agora fala.
Brigitte abriu um dos olhos.
— Falar o quê?
— Falar quem é você! Anda, desembucha.
Ela piscou. Depois ficou em silêncio… Pensando… Ou pelo menos fingindo pensar. Na verdade, aquela pergunta era mais complicada do que deveria.
— Uhm…
Os dois homens esperaram. A arma do mais velho continuava perfeitamente imóvel. Robert já parecia irritado só de assistir.
— Não sei.
O silêncio que se seguiu foi tão completo que Brigitte quase ouviu o zumbido das luminárias no teto. Robert piscou, uma vez e depois outra, raciocinando.
— Como assim não sabe?!
— Não sei mesmo.
— Como alguém não sabe quem é?!
— Eu sei quem eu sou.
— ENTÃO RESPONDE!
— Mas você perguntou quem eu sou.
— EXATAMENTE!
Brigitte franziu levemente a testa. Aquilo parecia um problema legítimo de comunicação.
— É que depende.
Robert fez uma expressão que parecia fisicamente dolorosa.
— Depende do quê?
Ela pensou por alguns segundos. Pensou de verdade.
— Do… contexto?
O homem mais velho finalmente entrou na conversa.
— Você é polícia?
Brigitte inclinou levemente a cabeça. Considerando a pergunta com uma sinceridade desconfortável.
— Não.
— Da inteligência ferroviária?
— Também não.
— Alguma facção rival?
— Não que eu saiba.
Robert encarou o parceiro. Depois encarou Brigitte. Depois voltou para o parceiro. Como alguém procurando desesperadamente uma terceira pessoa mais inteligente para assumir a conversa — não encontrou.
— Então o que você é?
Brigitte olhou para o teto. Os dois homens continuaram encarando-a. Esperando pelas respostas que dessem qualquer tipo de satisfação. Brigitte continuou pensando.
— Talvez eu seja uma mercenária?
Robert arregalou os olhos.
— Talvez?!
— É uma profissão meio flexível.
A veia próxima da testa dele pareceu pulsar.
— Para de brincar!
— Eu não tô brincando.
— Então responde direito!
— Mas eu tô respondendo direito, tio. — disse ela com um meio sorrio no rosto.
A sinceridade na voz dela só piorou tudo. Porque realmente era verdade. Brigitte não fazia ideia de qual seria a resposta correta para aquela pergunta. Mercenária? Investigadora? Policial? Faccionada? Membro da Trupe dos Cervídeos? Nenhuma delas parecia completamente certa.
O homem mais velho respirou fundo. Aquele tipo de respiração de alguém tentando manter a paciência e não estrangular outra pessoa.
— Você apareceu aqui com documento falso.
— Sim.
— Invadiu uma investigação interna.
— Sim.
— Descobriu uma operação que deveria permanecer secreta.
— Sim.
— E não sabe quem é?
— Exatamente.
Robert virou os olhos para cima por meio segundo e soltou um som estrangulado. Algo entre um rosnado e um gemido.
— Eu odeio ela.
— Eu também estou começando a odiá-la. — admitiu o mais velho.
Brigitte sorriu. Um sorriso pequeno. Quase simpático. Seu plano mirabolante de irritar aqueles homens e fazê-los perderem tempo e ganharem altos níveis de cortisol estava feito.
— Nossa, mas já me odeiam assim tão rápido? Assim vocês vão me fazer chorar.
Nenhum deles respondeu. Os rostos continuavam os mesmos. Aquilo finalmente pareceu encerrar qualquer possibilidade de conversa civilizada. O homem gordo virou o rosto para o parceiro. O olhar dizia tudo. “Chega.” O mais velho respondeu com um pequeno movimento de cabeça, concordando.
Brigitte observou a troca silenciosa enquanto mantinha as mãos erguidas. Eles tinham decidido, a fase das perguntas pacíficas tinha acabado, agora vinha a fase da violência. Robert avançou um passo, a madeira rangendo sob a sola da bota. O homem mais velho fez exatamente o mesmo movimento ao mesmo tempo. Apenas um passo.

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