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    A camada externa tremeu.

    A mana cinza se contraiu violentamente, tentando escapar da mente de Maelis no instante em que percebeu a inversão completa das camadas.

    A tentativa foi brutal.

    A fumaça se dividiu em dezenas de correntes finas, avançando contra as bordas da estrutura mental por todos os ângulos possíveis.

    Nenhuma respondeu.

    A pulseira no pulso de Maelis brilhou no núcleo distante.

    Mesmo separado por camadas, Ian sentiu a reação do artefato.

    O selo não apenas impedia a saída do mago mental.

    Ele oferecia controle parcial sobre qual memória seria aberta primeiro.

    A vantagem perfeita para a situação.

    A fumaça colidiu contra a barreira e ricocheteou de volta.

    Quando retomou forma, a hostilidade já não era disfarçada.

    — O que você fez?

    Ian manteve a mana firme.

    — Fechei a porta.

    O vazio vibrou.

    A memória começou a nascer.

    Não como as de Maelis.

    Ali não havia emoção vazando pelas bordas.

    Tudo se organizava como estrutura.

    Primeiro vieram linhas de luz cinza, subindo no nada como esboços geométricos.

    Depois elas engrossaram, ganharam forma, profundidade, superfície.

    O chão surgiu sob os pés de Ian.

    Pedra escura, lisa como vidro polido, cortada por veios translúcidos onde mana líquida corria em pulsos suaves de luz azulada.

    Ao redor, a cidade se ergueu.

    Ian ficou imóvel por um segundo.

    Torres.

    Não simples edifícios altos.

    Torres maciças de cristal fosco e pedra branca, algumas circulares, outras facetadas em ângulos impossíveis, subindo centenas de metros até desaparecerem entre névoa e luz.

    As superfícies refletiam tons azulados e prateados, como se o próprio material respirasse mana.

    Entre elas, passarelas suspensas ligavam estruturas em diferentes alturas, algumas abertas, outras fechadas por paredes de vidro cristalino onde pequenos fluxos de energia corriam como rios luminosos.

    Mais acima, algo chamou a atenção dele.

    Uma torre mais fina e absurdamente alta se erguia acima de todas as outras.

    A estrutura lembrava uma agulha gigantesca cravada no centro da cidade, feita de anéis metálicos flutuantes que giravam lentamente ao redor de um cristal central vertical.

    De tempos em tempos, ondas de luz azul-violeta percorriam a extensão da torre, espalhando-se para estruturas menores ao redor.

    Ian não sabia o que aquilo era.

    Mas a sensação era clara.

    Distribuição.

    Controle.

    Talvez comunicação.

    Talvez energia.

    Talvez os dois.

    No nível das ruas elevadas, plataformas sem rodas deslizavam silenciosamente em trilhos de luz, levando pessoas entre diferentes setores.

    Pontes curvas atravessavam vazios imensos entre torres.

    Em níveis inferiores, canais estreitos de água corriam suspensos no ar, contidos por magia em trajetos precisos entre prédios.

    Tudo parecia refinado demais.

    Como se cada pedra tivesse sido colocada para provar superioridade.

    A memória puxou o foco.

    O cenário deslizou por entre as torres até parar diante de uma residência elevada no setor central.

    A casa ocupava dois andares.

    A base era de pedra branca lisa, com colunas estreitas sustentando uma varanda frontal protegida por grades ornamentadas em metal escuro.

    As paredes superiores eram feitas de madeira negra polida, intercaladas com grandes painéis de cristal translúcido que deixavam a luz azul externa invadir o interior.

    O segundo andar se projetava levemente sobre a entrada principal, criando sombra sobre a porta dupla ornamentada por runas gravadas em prata.

    O interior tomou forma logo em seguida.

    Piso de madeira escura.

    Tábuas largas, bem cuidadas, refletindo a luz suave de cristais encaixados nas paredes.

    Uma mesa longa ocupava o centro da sala principal, coberta por pergaminhos organizados, pequenas peças metálicas, fragmentos de cristal e estruturas rúnicas parcialmente desmontadas.

    Aquilo não parecia decoração.

    Ao fundo, uma escadaria de madeira subia para o piso superior em curva suave, protegida por corrimão entalhado com padrões geométricos extremamente precisos.

    Prateleiras cobriam uma parede inteira.

    Livros.

    Tubos de cristal.

    Artefatos.

    Peças anatômicas artificiais.

    Pequenos braceletes metálicos.

    Fragmentos que lembravam ossos cristalizados.

    Ian observou tudo em silêncio.

    Sem entender completamente.

    Mas não precisava de muito para saber que havia algo profundamente errado naquele nível de sofisticação.

    No centro do cômodo, um garoto de dezesseis anos ajustava as mangas de um uniforme escuro diante de um espelho de cristal preso à parede.

    Postura ereta.

    Movimentos contidos.

    Frieza no olhar.

    A voz feminina veio do andar superior.

    Vaelion.

    O nome ecoou pela memória.

    Passos suaves desceram a escada.

    A mulher surgiu logo depois.

    Elegante.

    O vestido cinza-prateado deslizou junto à madeira escura, refletindo a luz azul suave dos cristais presos às paredes.

    Vaelion permanecia diante do espelho de cristal, ajustando a manga do uniforme pela terceira vez.

    Ela parou atrás dele.

    Observou o reflexo por um instante.

    Então ergueu as mãos e corrigiu a gola com movimentos precisos.

    — Vai acabar desgastando o tecido antes do rito começar.

    Vaelion soltou um sopro curto pelo nariz.

    — Está torto.

    Ela inclinou levemente a cabeça, analisando o reflexo.

    — Não está.

    A mão dela permaneceu na gola por um segundo a mais antes de recuar.

    — Você está.

    O jovem encarou o próprio reflexo.

    Os dedos ainda presos ao punho da manga.

    — Passei anos esperando por isso.

    A resposta veio sem que ele tirasse os olhos do espelho.

    — E agora parece… perto demais.

    A mulher pousou a mão no ombro dele.

    Leve.

    Firme.

    — Ótimo.

    Ele finalmente virou um pouco o rosto.

    — Ótimo?

    — Significa que você entende o peso do dia.

    Ela ajeitou uma dobra invisível na manga.

    — Seu pai estava assim na manhã do rito dele.

    O nome trouxe um pequeno silêncio para a sala.

    Vaelion respirou fundo.

    — Acha que posso fazer o mesmo?

    — Se acho?

    A resposta veio imediata.

    Natural.

    Como se o resultado jamais tivesse sido dúvida.

    Ela deu um passo para o lado, permitindo que ele visse a própria imagem inteira no espelho.

    — Eu sei.

    O jovem soltou uma risada curta.

    Sem humor.

    — Você fala como se não existissem outros candidatos.

    A mãe sustentou o olhar pelo reflexo.

    — Existem.

    Uma pausa.

    — Mas nenhum foi criado nesta casa.

    O silêncio se estendeu.

    Do lado de fora, a luz azul da cidade pulsou através dos painéis de cristal.

    Vaelion desviou o olhar para a mesa central, onde pequenas estruturas metálicas e cristais desmontados permaneciam espalhados entre pergaminhos.

    A ponta dos dedos tocou uma peça circular com runas gravadas.

    — Então não termine em segundo.

    A frase saiu macia.

    Quase como um conselho qualquer.

    Vaelion soltou ar pelo nariz outra vez, dessa vez num quase sorriso.

    — Você realmente acha que eu preciso ouvir isso hoje?

    Ela se aproximou da porta da varanda e a abriu.

    A luz azul invadiu a sala.

    Ao longe, um fluxo constante de pessoas caminhavam em uma única direção entre torres e passarelas suspensas.

    Cristais enormes lançavam feixes de luz ao céu.

    Gritos ao longe de euforia já podiam ser ouvidos.

    A mãe olhou para a arena.

    Depois para ele.

    — Não.

    Uma pausa.

    — Mas gosto de ver você dizer em voz alta.

    Vaelion acompanhou a visão da arena.

    A mão apertou a pequena peça metálica uma última vez antes de colocá-la de volta sobre a mesa.

    — Eu vou ficar em primeiro.

    A resposta saiu sem hesitação.

    Ela assentiu como se apenas confirmasse algo óbvio.

    — Eu sei.

    Então avançou até a porta.

    Parou ao lado dele.

    — Venha.

    O olhar dela foi para a torre mais alta ao centro da cidade, onde os anéis luminosos giravam em torno do cristal vertical.

    Vaelion passou por ela e saiu para a varanda, os olhos presos na arena e nas torres além.

    Ian observou em silêncio.

    A casa.

    A mãe.

    A cidade.

    O garoto.

    Tudo naquela memória parecia construído para apontar uma única direção.

    E era exatamente isso que tornava o presente tão distorcido.

    A memória se abriu além da porta da frente.

    Da varanda, a cidade inteira podia ser vista.

    E, ao centro dela, a arena.

    Colossal.

    Circular.

    Construída em vários níveis de arquibancadas suspensas, conectadas por torres menores e pontes laterais.

    Cristais enormes brilhavam ao redor da estrutura, lançando feixes de luz ao céu escuro.

    O rito estava prestes a começar.

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