Capítulo 163 - Salão de Vidro.
A quarta música da noite terminou sob aplausos educados.
Os músicos mal haviam começado a seguinte quando parte dos guardas próximos às portas principais mudou de posição ao mesmo tempo.
A maioria dos convidados não percebeu.
Maek percebeu imediatamente.
Lady Mirelle também.
— Ah, ótimo — murmurou uma das garotas enquanto terminava o vinho. — Mais soldados.
— Talvez estejam esperando outro ataque — respondeu outra em tom leve demais para esconder o desconforto.
— Nesse caso eu preferia menos informação visual sobre isso.
Uma dupla de criados passou recolhendo taças vazias enquanto novos convidados eram conduzidos para áreas mais próximas do centro do salão.
Aquilo chamou atenção de Mirelle antes mesmo dos guardas.
— Estão reorganizando as mesas.
— Hm?
— As laterais estão sendo esvaziadas.
As amigas olharam ao redor discretamente.
Ela tinha razão.
Sem anúncio algum, alguns comerciantes haviam sido conduzidos para regiões mais próximas da pista principal enquanto empregados fechavam certas áreas periféricas com naturalidade ensaiada demais.
— Isso é estranho — comentou uma delas.
— Isso é a cara do administrador do Leste — corrigiu Mirelle. — Não é Mael?
O comentário arrancou pequenos sorrisos cansados.
Mael que observava ao longe estendeu a taça em concordancia.
Todos em Elandor conheciam o mesmo fato:
quando Mael começava a mover pessoas sem explicar motivo, era melhor assumir que já havia entendido um problema antes do resto do reino.
Mais ao centro do salão, Lorde Seridan continuava falando alto demais.
— Estou dizendo apenas o óbvio. Cervalhion está desmoronando, Altheria está instável e nós estamos aqui fingindo que um baile resolve alguma coisa.
— Baile nenhum resolve problema — respondeu outro comerciante. — Serve só para descobrir quem vai sobreviver a ele.
— E já descobriu?
— Ainda estou vendo.
Pequenas risadas atravessaram o grupo.
Tensas.
Maek surgiu ao lado deles pouco depois com outra bandeja de vinho.
— Senhor.
Seridan pegou uma taça sem olhar para ele.
— Pelo menos alguém aqui ainda trabalha direito.
— Faço o possível para preservar o reino.
O comentário arrancou risos mais honestos dessa vez.
Até Seridan sorriu.
— Está vendo? — apontou ele para os outros. — O empregado entende humor político melhor que metade do conselho.
Maek abaixou levemente a cabeça em agradecimento enquanto se afastava.
Sem pressa.
No balcão superior, Mael acompanhou o movimento do salão mais uma vez.
Os guardas já haviam fechado três rotas laterais.
Os comerciantes mais influentes estavam centralizados.
Os músicos mantinham o volume alto o suficiente para mascarar movimentação militar.
Tudo funcionando exatamente como planejado.
Então o grande portão do salão abriu.
Não completamente.
Só o suficiente.
Mas foi bastante.
Porque metade do salão ficou em silêncio antes mesmo de entender o motivo.
O silêncio não veio inteiro.
Veio em ondas.
Primeiro perto da entrada.
Depois nas mesas laterais.
Então no centro do salão, onde as conversas começaram a morrer uma após outra conforme os olhares se voltavam para o portão principal.
Os músicos continuaram tocando por três segundos a mais antes de perceberem.
Foi tempo suficiente para deixar tudo estranho.
Lady Mirelle viu Lorde Seridan parar no meio de uma frase.
Viu um comerciante esconder rapidamente um documento dobrado dentro do casaco.
Viu duas damas se afastarem uma da outra como se a proximidade repentina pudesse virar fofoca perigosa.
Então Varyn entrou.
Sem anúncio.
Sem arauto.
Sem armadura.
Só acompanhado por dois guardas e usando o sobretudo escuro de viagem ainda marcado de poeira na barra.
O salão inteiro se reorganizou em segundos.
Posturas corrigidas.
Taças abaixadas.
Sorrisos refeitos depressa demais.
Maek atravessava a ala oeste naquele momento com uma bandeja nova quando viu os comerciantes mudarem completamente de tom antes mesmo do rei alcançar o centro do salão.
Impressionante.
— Majestade — Lorde Seridan foi o primeiro a recuperar a voz. — Não esperávamos seu retorno esta noite.
Mentira elegante.
Varyn apertou a mão dele brevemente.
— Percebi.
A resposta saiu calma.
Nem cordial.
Nem hostil.
Só cansada o suficiente para deixar metade do salão desconfortável imediatamente.
Lady Mirelle observou um comerciante esconder a própria taça ao perceber tarde demais que havia sido um dos que riram mais alto poucos minutos antes.
Covarde.
— Soube que o baile estava agradável — continuou Varyn enquanto os olhos percorriam o salão. — Seria deselegante não comparecer.
Algumas pessoas riram.
Mael desceu do balcão superior nesse momento.
Sem pressa.
Como se a chegada surpresa não tivesse alterado absolutamente nada da programação da noite.
— Majestade.
Varyn voltou os olhos para ele.
E por um segundo muito breve os dois pareceram ter uma conversa inteira sem dizer nada.
Mirelle percebeu.
Outras pessoas também.
Mael inclinou levemente a cabeça.
— O salão é seu.
— Tecnicamente ele já era.
— Hoje mais do que o habitual.
Uma resposta estranha.
Sutil demais para a maioria notar.
Mas Varyn notou.
Maek também.
O rei caminhou devagar pelo salão enquanto os convidados abriam espaço automaticamente.
E conforme passava, alguns abaixavam a cabeça, outros sorriam demais e alguns evitavam olhar diretamente para ele.
Varyn parecia registrar tudo.
Um comerciante tentou aproveitar a aproximação.
— Majestade, talvez essa seja uma boa oportunidade para discutirmos as perdas nas rotas do—
— Amanhã.
A palavra veio limpa.
Sem aumento de voz.
Sem irritação.
Mas encerrou a tentativa imediatamente.
O homem recuou no mesmo instante.
Lady Mirelle observou aquilo com interesse genuíno pela primeira vez na noite.
Porque Varyn não parecia um homem voltando derrotado.
Parecia alguém que havia chegado a uma conclusão desagradável no caminho de volta.
Mais ao fundo do salão, Maek reduziu levemente o ritmo quando viu dois guardas fecharem discretamente uma das portas laterais.
Então outra.
Ah.
Agora entendi.
Os acessos estavam sendo limitados.
Não para impedir entrada.
Para controlar saída.
Varyn parou próximo ao centro do salão enquanto os músicos diminuíam naturalmente o volume outra vez.
Não precisou pedir silêncio.
O salão já estava ouvindo.
— Sei que muitos aqui esperavam respostas esta noite.
A voz dele atravessou o ambiente sem esforço.
Calma.
Controlada.
— E também sei que rumores costumam viajar mais rápido que caravanas ultimamente.
Pequenos sorrisos apareceram aqui e ali.
Cuidadosos.
— Então vou evitar que precisem especular por mais algumas horas.
Isso chamou atenção imediatamente.
Até os comerciantes mais tensos ficaram quietos.
Varyn apoiou uma das mãos nas costas da cadeira vazia mais próxima.
— Os administradores regionais e representantes comerciais me acompanhem até a sala de conferências. Agora.
Sem aumento de voz.
Sem anúncio formal.
Mas o salão inteiro mudou de densidade no mesmo instante.
Porque aquilo não era mais um baile.
Lady Mirelle viu Lorde Seridan praticamente terminar o vinho inteiro de uma vez antes de entregar a taça para um criado.
Outro comerciante começou a ajustar o próprio casaco rápido demais.
Uma mulher puxou o marido pelo braço antes que ele tentasse sair falando sozinho.
Mael observou as reações com interesse moderado.
Melhor assim.
Ansiedade controlada produzia honestidade mais rápido que ameaça direta.
Os guardas próximos às laterais começaram a se mover quase imediatamente, conduzindo discretamente os convidados selecionados para os fundos do Salão de Vidro, onde corredores menores levavam às salas administrativas internas do palácio.
E ali o ambiente mudou outra vez.
Menos música.
Menos luz.
Menos espetáculo.
Mais guardas.
Maek observou tudo enquanto recolhia taças vazias próximas das colunas centrais.
Então é aqui.
Os convidados comuns começaram a ficar para trás enquanto comerciantes, administradores e nobres importantes eram conduzidos corredor adentro.
Um dos guardas da entrada secundária já verificava nomes.
Outro observava rostos.
Mais rígido agora.
Sem o teatro elegante do salão principal.
Maek mudou discretamente a trajetória antes mesmo de chegar perto o suficiente para ser barrado.
Não hesitou.
Hesitação chamava atenção.
Uma criada passou por ele carregando uma bandeja vazia.
Do outro lado do corredor, duas jovens nobres saíram da ala principal ainda rindo de alguma coisa dita no salão.
E uma delas ergueu a mão imediatamente ao vê-lo.
— Você. Maek, certo?
Ah.
Não agora.
— O vinho acabou na nossa mesa faz cinco minutos — continuou ela sem perceber o impacto que causava. — Isso por acaso é abandono de serviço?
A amiga riu alto.
Maek abriu um sorriso leve quase instantaneamente.
— Dependendo da quantidade consumida pelas senhoritas, talvez preservação do estoque nacional.
As duas riram outra vez.
Atrás delas os últimos comerciantes atravessavam a entrada da sala de conferências enquanto os guardas começavam a restringir passagem.
A janela estava fechando.
E pior:
ele não podia forçar aproximação agora sem quebrar completamente o personagem.
Então adaptou.
Como sempre.
— Vocês vão mesmo me fazer atende-las exclusivamente? — perguntou enquanto pegava uma bandeja nova com outro criado passando ao lado. — Com minha cabeça a premio com o rei no recinto?
— Isso foi um pedido de ajuda?
— Foi um pedido de misericórdia.
As jovens imediatamente puxaram ele para perto da mesa outra vez entre risadas baixas e comentários rápidos sobre comerciantes desesperados, vestidos caros e homens velhos tentando parecer importantes demais.
E enquanto respondia tudo naturalmente, Maek observava o corredor dos fundos pelo reflexo das janelas altas do salão.
Calculando outra rota.
Porque sempre existia outra rota.
O olhar dele subiu instintivamente pelo salão.
Varandas.
Colunas.
Rotas elevadas.
Pontos cegos.
E foi então que percebeu algo estranho.
Uma ausência.
Havia uma linha de visão perfeita para o centro do salão nas estruturas superiores acima do lustre principal.
Boa demais para continuar vazia.
— Está procurando rota de fuga, Maek? — perguntou Lady Mirelle casualmente.
Boa pergunta.
Melhor percepção do que ele esperava.
O sorriso dele veio fácil.
— Estou avaliando minhas chances caso algum comerciante descubra o preço real desse vinho.
A amiga dela riu alto.
— Então você realmente quer fugir.
— Quero sobreviver ao turno. Ambição modesta.
Mirelle continuou olhando ele por um segundo a mais.
Não pelo comentário.
Pelo tempo da resposta.
Rápido.
Como se estivesse acostumado a improvisar.
Ao fundo do salão, Mael foi o ultimo a entrar no local da reunião, fechando a porta atrás dele.
A primeira fase havia funcionado.
Os comerciantes importantes estavam isolados.
Os guardas posicionados.
As saídas controladas.
E nenhum incidente até agora.
Quase decepcionante.
Mael acompanhou os movimentos por um instante antes de perder interesse outra vez.
Sem erro ainda.
Então realmente não era dali.
A conclusão veio simples.
Se existia infiltração no baile, estava vindo de outro ponto.
E quase no mesmo instante, Maek desapareceu do salão principal.
Não abruptamente.
Só deixou de estar onde estava antes.
Uma troca natural entre criados.
Uma bandeja entregue.
Outro garçom ocupando espaço.
E então ele já estava atravessando o corredor lateral de serviço com passos silenciosos enquanto o som da música diminuía gradualmente atrás dele.
Mais à frente, uma pequena porta de manutenção permanecia entreaberta perto das escadas internas dos lustres.
Sem guarda.
Porque ninguém razoável subiria por ali usando roupa de empregado.
Maek abriu a porta devagar.
Estrutura estreita.
Cheiro de poeira e madeira antiga.
Muito melhor.
Ele subiu rápido.
Usando corrimões e vigas estreitas com leveza.
Quando alcançou a parte superior do Salão de Vidro, o som da reunião abaixo começou a atravessar as grades ornamentais do teto.
Boa acústica.
Excelente linha de visão.
Ele avançou mais um passo.
Então parou.
Alguém já estava ali.
A mulher levou um dedo aos lábios.
Silêncio.
O gesto foi pequeno.
Abaixo deles, a voz de Varyn atravessou parcialmente a estrutura metálica.
— …Senhores… espero que estejam todos bem, já que precisaremos decidir algumas coisas essa noite.
Ela não desviou os olhos de Maek.
Mas também não chamou guardas.
Interessante.
Ele sustentou o olhar por um instante.
Então se acomodou lentamente no lado oposto do parapeito, apoiando o braço na estrutura estreita sem produzir ruído.
A mulher voltou a atenção para a reunião abaixo como se a presença dele tivesse deixado de importar imediatamente.
Aquilo era ainda mais estranho.

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