“Droga…” Victor resmungou enquanto desviava de inúmeras almas que investiam contra sua vida.

    O número de almas que Orson havia liberado era extremamente alto, na casa das centenas. Almas também possuíam ranks e podiam ser classificadas do 1 ao 9. Uma fera mágica de rank 1 teria uma alma de rank 1, um artista marcial de rank 3 teria uma alma de rank 3, e assim por diante. As almas liberadas para enfrentar Victor e Alexander eram, em sua maioria, de rank baixo, embora algumas poucas chegassem ao rank 3. Portanto, com tempo suficiente, os executores reais conseguiriam lidar com elas. Ainda assim, precisavam ser cuidadosos. Mesmo o ataque de uma alma de baixo rank ainda seria um golpe pesado.

    O necromante também parecia possuir algum tipo de magia ou técnica que lhe permitia se camuflar entre as almas e desferir ataques surpresa. Seu alvo, até aquele momento, era Victor. Orson já havia tentado vários golpes com a [Lâmina das Sombras], mas Victor conseguira evitar todos. Ainda assim, isso colocava uma pressão ainda maior sobre ele, que precisava prestar atenção tanto aos possíveis ataques do necromante quanto às investidas das almas.

    Alexander continuava desferindo golpes carregados de aura, mas eles não eram especialmente eficientes na limpeza dos lacaios do necromante. Tanto ele quanto Victor ainda não haviam demonstrado todo o seu poder, justamente porque estavam cautelosos com Orson.

    Orson, por sua vez, também não havia conjurado magias acima do 3º ciclo. Ele parecia estar testando os limites dos executores reais.

    “Devemos acelerar o processo? Posso usar algumas técnicas.” Alexander perguntou a Victor. Assim como magos dominavam feitiços, artistas marciais possuíam técnicas cultivadas ao longo da vida, e cada uma delas consumia uma quantidade de aura correspondente ao seu poder.

    Diferentemente dos magos, artistas marciais não podiam aprender um número muito grande de técnicas, já que algumas entravam em conflito entre si. A mana era uma energia muito mais maleável do que a aura, mas a aura era mais viva e bruta, apropriada para o combate. Artistas marciais tendiam a se especializar em luta, enquanto um mago podia possuir inúmeras especialidades. Alguns, inclusive, jamais entrariam em combate ao longo da vida.

    “Ainda não. Espere mais um pouco. Não podemos ser descuidados.” Victor aconselhou Alexander, e assim foi feito.

    Os dois continuaram engajados contra as almas sem utilizar todo o seu poder, justamente para se manterem atentos a qualquer esquema que o necromante pudesse estar preparando.

    Orson observava os executores enfrentarem, sem grande dificuldade, as almas que havia libertado. Eles claramente estavam cautelosos com qualquer truque que ele pudesse tentar.

    “As almas devem mantê-los ocupados por algum tempo. Preciso encontrar o garoto para transmitir minha pesquisa. Acredito que minha vida acabará em breve, mas meu trabalho não pode morrer.” Um leve sorriso se formou no rosto de Orson, e ele partiu imediatamente na direção de Oliver, deixando os executores reais para trás.

    Victor e Alexander continuaram cautelosos, sem perceber a ausência do necromante.

    Erina observava a confusão pela janela do primeiro andar do bordel. Corval não era grande e, por isso, ela conseguia ver a comoção se espalhando pelo outro lado da cidade.

    “Isso… tem relação com Eliandris?” Erina estremeceu diante da possibilidade de sua amiga estar envolvida.

    Archibald se aproximou e a abraçou por trás.

    “Eles não foram para aquele lado. A esta altura, já deveriam estar fora da cidade. Talvez essa confusão não tenha relação alguma com eles, talvez só tenham preferido se manter seguros.” Archibald tentou consolar Erina.

    Nesse meio-tempo, Erina havia explicado a situação a Archibald. Agora, ele estava por dentro do assunto.

    A porta do quarto de Erina se abriu, e Eliandris e Oliver entraram.

    “O quê?” Erina e Archibald perguntaram em uníssono.

    “A situação é mais perigosa do que eu antecipava. Vocês dois vêm embora com a gente.” Eliandris disse sem cerimônia, dirigindo-se aos dois.

    “O que está acontecendo exatamente?” Archibald perguntou.

    “Eu também não sei, mas imagino que você ainda não tenha percebido. Estamos dentro de uma barreira.” Eliandris apontou para o céu através da janela.

    Archibald cerrou os olhos e se concentrou. Só então conseguiu ver a realidade. Toda a vila de Corval estava encerrada dentro de uma barreira que impedia qualquer um de entrar ou sair.

    “E como exatamente pretende ir embora daqui? Vai destruir a barreira?” Archibald perguntou, erguendo levemente uma sobrancelha. Ainda que a elfa parecesse confiante, ele desconfiava dos métodos que uma cortesã poderia ter à disposição.

    Eliandris remexeu a bolsa e tirou um pergaminho, colocando-o nas mãos de Archibald.

    “I-isso não pode ser o que eu estou pensando, certo?” Archibald quase se engasgou ao ver o pergaminho. Ele o reconheceu na hora.

    “Exatamente. É assim que vamos embora.” Eliandris sorriu. “Você sabe usar?”

    “C-claro que sei. Eu sou um mago de 3º ciclo!” Archibald esticou o pergaminho e começou a ler o conteúdo.

    As letras antigas e densas inscritas no pergaminho brilharam em um tom ciano suave.

    Enquanto Archibald tentava ativá-lo, um fenômeno estranho aconteceu ao mesmo tempo.

    Oliver começou a emitir um brilho amarelado. Era como um chafariz de luz, que rapidamente aumentou de tamanho.

    “O que é isso?” Oliver olhou para si mesmo, sem entender o que estava acontecendo.

    “É um sinalizador. Um feitiço de 3º ciclo.” Archibald reconheceu a origem daquilo no mesmo instante.

    A ativação do pergaminho foi interrompida.

    Passos soaram do lado de fora, e a porta se abriu.

    Orson entrou no quarto e parou diante de todos.

    “Tio Orson?” Oliver olhou para o homem, incrédulo.

    Todos na sala conheciam o mendigo.

    Orson havia chegado à vila havia pouco tempo, e muitas pessoas se compadeceram de sua situação, ajudando-o com comida e abrigo.

    Também não era segredo para ninguém que Oliver era próximo do mendigo, visitando-o várias vezes para conversar e afagar o cachorro Caramelo.

    Naquele momento, porém, a aparição de Orson era estranha demais e acendeu o alerta de todos.

    Ele entrou no quarto e avançou em direção a Oliver, ignorando completamente as demais pessoas ao redor.

    “Garoto, preciso te passar minha pesquisa. Não se preocupe, não vai doer tanto.” Orson se aproximou e estendeu a mão em direção a Oliver, prestes a tocar sua testa.

    Eliandris se interpôs entre o mendigo e o filho, impedindo que ele se aproximasse mais.

    “Afaste-se.”

    Seus sentidos de elfo da alma gritaram para que agisse. Eliandris liberou sua aura, preenchendo o quarto com calor.

    Os olhos de todos se arregalaram.

    “Artista marcial de rank 4?”

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