“A-artista marcial de rank 4?” Garet ficou em choque ao perceber a realidade.

    Eliandris nunca fora fraca, apenas fingira ser. Seu objetivo em Corval sempre foi simples: criar Oliver longe de quaisquer problemas ligados à sua família. O plano inicial era esperar cerca de 15 anos para ensinar artes marciais ao filho e, depois disso, partir em busca de um lugar melhor. Oliver acabou recebendo lições de magia de Archibald e já não podia mais se tornar um artista marcial, mas o plano de Eliandris continuava quase o mesmo. Depois de mais alguns anos, eles deixariam a vila.

    Até mesmo seu trabalho como dama da noite fora escolhido para atrair o mínimo possível de atenção. Eliandris não hesitara em fazer tudo o que estivesse a seu alcance para proporcionar uma infância segura a Oliver. Agora que a segurança dos dois podia estar ameaçada, ela já não precisava mais se esconder.

    Oliver olhou para a mãe, incrédulo. Aos seus olhos, Eliandris sempre foi uma pessoa comum. Ele jamais vira o menor indício de que ela era uma artista marcial. E não qualquer artista marcial, mas uma de rank 4. Oliver ainda se lembrava do terror que fora enfrentar um artista marcial recém-ascendido ao rank 1. Quão absurdamente poderosa sua mãe era?

    “M-mãe, o que é isso?” Oliver tentou arrancar alguma explicação.

    “Conversamos depois, Oliver.” Eliandris deu um passo à frente e entrou na casa dos Venn.

    Garet se moveu involuntariamente para fora de seu caminho. O medo natural de ficar diante de uma artista marcial de rank elevado fez com que seu instinto de sobrevivência o impedisse de antagonizá-la.

    A casa dos Venn era ampla e luxuosa. Não chegava a ser uma mansão, mas era o tipo de residência onde o conforto aparecia em cada detalhe: tapeçarias limpas, móveis caros e um piso de carvalho polido que rangia sob os passos firmes de Eliandris. Oliver seguiu logo atrás.

    Eliandris subiu ao primeiro andar, em direção ao escritório de Balthazar.

    Ao ouvir a comoção, um garoto loiro e gordo saiu do quarto. Naturalmente, era Jonathan.

    Jonathan viu Eliandris e Oliver subindo as escadas e ficou em choque. Eliandris não fez questão de esconder sua aura. A simples manifestação daquela energia já bastava para intimidar qualquer um de rank inferior. Jonathan tremeu e saiu do caminho assim que ela passou por ele no corredor.

    “Gordo, estamos procurando o Sr. Grim. Sabe onde ele costuma ficar?” Oliver perguntou, tirando o garoto do estupor.

    “E-ele fica no escritório do meu pai.” Jonathan respondeu prontamente, apontando para uma sala no fim do corredor.

    Eliandris e Oliver caminharam até lá. A porta estava aberta, então os dois entraram.

    O escritório de Balthazar era espaçoso. Havia estantes escuras, uma mesa larga de madeira nobre e o cheiro persistente de charuto caro pairando no ar. O homem estava sentado ao centro daquele ambiente e não tremeu ao ver Eliandris.

    “Veio procurar Grim? Ele acabou de sair. Foi investigar a situação estranha na vila.” A voz de Balthazar soou direta e controlada. Ele não parecia amedrontado, ao contrário, parecia já ter ouvido Oliver perguntar a Jonathan no corredor pela localização do caçador.

    Sua alma, porém, não mentia. Oliver lançou um olhar discreto ao homem e viu tons de roxo. Balthazar estava com medo, mas era um ator excelente. Não deixou nada transparecer.

    “É um comerciante experiente, sem dúvida. Se não fosse pela alma, eu jamais diria que ele está com medo.” Oliver admirou o quão bem Balthazar sabia fingir.

    Eliandris sentou-se na cadeira diante da mesa. Oliver seguiu o exemplo e ocupou um sofá próximo. Agora, os três estavam sentados.

    “Gostaria de saber o que uma artista marcial de rank 4 faz em uma vila tão pacata quanto Corval. E imagino que ainda tenha algum assunto a tratar comigo, Srta. Eliandris?” Balthazar perguntou com um leve sorriso no rosto.

    “Por favor, corte o papo furado. Eu vejo sua alma e sinto o cheiro do seu medo. Mesmo que não demonstre, eu sei muito bem em que situação você está. Pensei em devolver o favor que me fez algum tempo atrás.” O semblante de Eliandris mudou completamente. Seu olhar ficou frio e ameaçador.

    Oliver nunca tinha visto aquele lado da mãe. Até ele tremeu ao presenciar Eliandris ameaçando Balthazar.

    “C-claro, tudo isso não passou de um grande mal-entendido. De que maneira eu ofenderia uma artista marcial tão poderosa? Eu não sou tolo, hahahaha. Posso oferecer uma compensação.” A atuação de Balthazar começou a demonstrar sinais de colapso. Suor frio escorria por sua testa.

    Eliandris permaneceu em silêncio, encarando Balthazar.

    O homem se levantou, abriu uma gaveta do armário atrás da mesa e, depois de desativar algumas trancas mágicas, abriu um cofre e retirou de lá um saco de couro negro.

    Ele o colocou delicadamente diante de Eliandris. Enquanto ela o encarava com um olhar profundo e ameaçador, em nenhum momento conteve sua aura. A temperatura da sala parecia ter subido alguns graus, e Balthazar controlava cada gesto com cuidado, como se até respirar errado perto dela pudesse levá-lo à morte.

    Eliandris olhou para o conteúdo do saco e imediatamente dispersou sua aura.

    “Ótimo, isso vai servir. Você realmente é bem-educado. Espero que também consiga educar seu filho, porque eu sei educar o meu.” O semblante ameaçador de Eliandris desapareceu, e então ela e Oliver deixaram a casa dos Venn.

    Balthazar suspirou, e todos os músculos de seu corpo relaxaram ao perceber que Eliandris havia saído dali.

    “Maldita! Como uma prostituta pode ser uma artista marcial de rank 4? Vou pedir para Grim recuperar o dinheiro que ela levou.” Pensamentos de vingança passaram imediatamente pela mente de Balthazar. Ele sentia que saiu no prejuízo naquela troca. Eliandris viera procurar Grim, mas, como ele não estava, acabou ameaçando Balthazar e levando dinheiro consigo.

    Balthazar não sabia da relação entre Eliandris e Grim. Cerca de 8 anos atrás, quando Eliandris fugiu de Sylvaris, o país dos elfos, Grim era um mercenário famoso na região. Fora ele quem a guiara pelas perigosas montanhas que separavam Sylvaris de Osteria.

    Juntos, enfrentaram inúmeras feras mágicas, monstros e até bandidos. Conseguiram chegar inteiros a Osteria e, depois, a Corval graças ao bom trabalho em equipe. É claro que Grim foi pago em dinheiro. A maior parte das economias de Eliandris, na época, foi destinada ao pagamento do homem, e ela chegou até mesmo a se desfazer de alguns itens para completar a quantia.

    Assim que saíram da casa dos Venn, um estrondo pôde ser ouvido vindo da periferia da cidade. Algo grande estava acontecendo.

    “Isso está ficando fora de controle. Vamos levar Erina e Archibald embora com a gente.” Eliandris declarou e seguiu de volta para o bordel. Oliver a acompanhou.

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