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Capítulo 45 - Hrafn - Não há descanso para os abençoados
Hrafn abriu os olhos devagar, e a primeira coisa que surgiu em sua visão foi o bom e velho Edvard, parado ao seu lado com a postura impecável de sempre. Virou a cabeça um pouco e viu também Grim, ajoelhado mais adiante, mãos rezando em silêncio ao lado da cama. O cheiro de incenso e comida o alcançou enquanto ele tentava se pôr sentado, mas foi bem mais difícil do que esperava. O corpo estava fraco e vazio de um jeito desagradável, e ele podia sentir que estava mais magro também, e a sensação lhe bastou para concluir que devia ter passado mais do que um ou dois dias desacordado.
“Quanto tempo desta vez, Ed?” perguntou, a voz saindo rouca, meio presa ainda no fundo da garganta.
“Hoje irá completar uma semana inteira, meu senhor,” respondeu o mordomo.
“Uma semana, hm?” disse Hrafn.
Era de se esperar, ele tinha quebrado boa parte das costelas na luta, sofrido várias escoriações e queimaduras, assim como trincado a mandíbula e a maior parte dos dentes. Esse último pensamento o levou a passar a língua por eles, apalpando o céu da boca, as gengivas e todo o interior com cautela. Ao que parecia, estava quase tudo bem, faltava-lhe apenas um dos dentes do fundo.
“Obrigado, Grim,” disse, aliviado. Boa parte dele durante a luta, começara a temer os danos permanentes que aquela batalha deixaria para trás. O voroir branco não respondeu, primeiro concluiu mais algumas frases da oração, então abriu os olhos e apoiou-se em um dos joelhos para se pôr de pé.
“Não foi nada,” respondeu ele. “Os dentes são fáceis de ajustar se não forem arrancados. Quanto ao resto, não pude fazer muito mais sobre as marcas de queimadura.”
Aquilo fez Hrafn levar a mão até a gola da camisa e puxá-la um pouco de lado. Na parte esquerda do pescoço e do peito havia manchas levemente mais escuras do que o resto da pele, mas esse resultado já era um alívio, uma pessoa comum sem o tratamento de um voroir branco teria ficado muito mais arruinada.
“Obrigado mesmo assim,” disse. “É sempre bom ter um amigo curandeiro.”
“Amigo?” indagou Grim, erguendo uma sobrancelha que deixava claro o quanto desconfiava daquela palavra vinda de Hrafn. “Você deveria agradecer mais a Leif do que a mim.”
“Faz sentido,” respondeu Hrafn. Voltou então o rosto para Edvard conforme sentia o cheiro da comida e das bebidas que haviam sido preparadas, a mesa ao lado da cama já o aguardava com tudo que um corpo fraco precisaria. “Vejo que tem me esperado preparado, Ed.”
Edvard inclinou levemente a cabeça em reconhecimento, e Hrafn começou a se ajeitar para comer, conforme pensava na aura opressora que o havia carregado para fora da arena e o impedido de ser esmagado pela presença do marquês. Nenhum voroir comum, e provavelmente nenhum vondorodr, seria capaz de ter tanta megin, e nenhum outro hersir saltaria na arena por ele por simples bondade.
“Imagino que não tenha sido de graça,” pontuou Hrafn, pegando a comida para si enquanto Edvard o servia com bebida.
“Imagino que não,” respondeu Grim. “Já que Leif me disse para informá-lo quando você acordasse.”
“Ele chegou a dizer o que pediria em troca?” perguntou Hrafn.
Grim sentou-se em uma cadeira próxima à janela e relaxou a postura, olhando por ela para o tempo lá fora antes de responder. “O inverno está chegando ao seu pico,” disse Grim. “Esta é sempre a pior parte do ano para a Hird. As noites são mais longas, assim como ficará difícil andar pelas estradas com o passar dos dias.”
“Acho que estou entendendo,” respondeu Hrafn.
“Em tempos assim,” continuou Grim, “cada cidade-estado fica quase que por conta própria, ao menos durante o próximo mês, e este inverno promete ser pior do que a média.” Fez uma pequena pausa, com o barulho da própria barriga o traindo. “Acho que aceitarei aquelas bebidas e comidas agora,”.
Edvard foi rápido em servi-lo, e Hrafn continuou a falar entre uma mordida e outra. “Você acha que Leif vai pedir para que eu vá para outra cidade? Antes que o inverno fique forte o bastante para fechar as estradas?”
“É o que imagino,” respondeu Grim, soprando o café antes de tomá-lo. Fechou os olhos por um instante e então acrescentou: “Está muito bom.” E Edvard apenas assentiu de novo.
“Há uma cidade que tem relatado desaparecimentos recentemente,” continuou Grim. “É um lugar muito corrupto, na verdade, então não é levado muito a sério, e a alta ordem da Hird não quer liberar muita mão de obra para ajudá-los.”
“E quanto à Coroa?” perguntou Hrafn, embora já suspeitasse da resposta.
“A Coroa preza ajudar aliados políticos,” respondeu Grim. “Aqueles mais dispostos a pagar impostos e a bajular. Claro que cumprem seus deveres, por mais que de forma mínima e apenas o bastante para ainda estarem dentro da lei.” Ele pausou e olhou para a janela novamente, com um semblante de mau presságio no rosto. “Mas Leif acredita que há algo a mais em Vardheim. Ele diz que se medidas não forem tomadas, não haverá mais uma cidade ali depois deste inverno.”
“E eu imagino, que será para essa cidade supostamente condenada que ele quer que eu vá,” disse Hrafn.
“Provavelmente, sim,” respondeu Grim. “O inverno é sempre um tempo de desgraça para o reino. A Hird tem mais voroirs e guerreiros no geral, mas está sempre ocupada, e vai enviar muito poucos para lá.” Pousou o café ao lado antes de continuar. “Mas você está mais livre que os demais, e se mostrou mais poderoso do que seus pares.”
Hrafn comeu mais um pouco, mastigando em silêncio enquanto pensava na ironia cruel da situação. Mal acordara e já havia trabalho esperando, se mostrou forte só para ter tarefas piores. “E quanto a Brinegard?” perguntou depois de um momento. Parte dele já sabia que não havia muito a se apegar ali, mas ainda era onde nascera e crescera, sua velha casa estava lá também, assim como os túmulos da sua família. Havia também a pequena biblioteca de Nanna, e ele pretendia voltar um dia, para abrir de novo aqueles livros e descobrir até onde ela estava certa sobre velhas histórias.
“Não há muito com o que se preocupar,” respondeu Grim. “Ela foi fundada colada ao mar, como as antigas cidades. Há poucos lugares tão seguros no reino.”
“Que bom,” respondeu Hrafn.
“E como você se sente?” perguntou Grim. “Como está seu corpo? Tudo certo e no lugar?”
“Eu me sinto um saco de bosta,” respondeu Hrafn. “Mas fora isso, estou excelente. Por quê?”
“Não é nada, apenas preocupação médica,” respondeu Grim.
“Se você diz,” murmurou Hrafn, sem se preocupar muito com isso. Grim tinha aquele jeito de saber mais do que falava, mas quase todo curandeiro branco parecia assim de algum modo. Hrafn terminou de comer mais um pouco e então se apoiou melhor na cama. “Bom, acho que tenho de levantar e recuperar algum músculo antes de ser mandado para outro canto do reino.”
‘’E não havia descanso para o senhor’’ disse Grim. ‘’E nem para os abençoados. Capítulo cinco, versículo 12 do livro do novo começo “, concluiu.
Hrafn então olhou para ele por um tempo, Grim o olhou de volta com seriedade, e então os dois caíram na gargalhada.

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