Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!
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Capítulo 44. Grim. Orações
“Caídos eles foram chamados, pois do abismo além do Véu eles vieram,” orava Grim, ajoelhado ao lado da cama de Hrafn, com as mãos cruzadas e a cabeça baixa. “E seu mal se espalhou pelo mundo, e seu sangue imundo contaminou a água, e sua presença nefasta adoeceu a terra.” Sua voz saía baixa e constante, enquanto o vento forçava as janelas da mansão do lado de fora. “Em meio à calamidade o senhor nasceu—”
“Ei, cachinhos dourados,” interrompeu Briorn. “Será que dá pra calar a boca?”
Grim não ergueu os olhos, pois não precisa ver o jovem para o entender, o rapaz sempre vazava tanto do seu espírito para o mundo que Grim o sentia mesmo sem estar conectado a ele, orgulho e arrogância eram a norma. Mas ele não respondeu de volta, porque por baixo de tudo, havia uma preocupação teimosa e sincera.
“Não ligue para ele, Grim,” disse Sigrid com sua voz gentil.
Ela era o oposto, sempre vazando gentileza e confiança, uma boa vontade quase dolorosa de sentir. Grim por vezes chegava a ter pena dela, este mundo não havia sido feito para pessoas assim, ao menos havia consolo no fato que ela parecia destinada a se tornar forte. “Eu deveria ter lutado,” continuou Sigrid.
“Não ia ter mudado porra nenhuma,” respondeu Briorn, e aquela era provavelmente sua forma mais sincera de confortar alguem. “O aleijado devia era ter se rendido. Sujeito arrogante.”
A última palavra fez tanto Grim quanto Sigrid olharem para ele por um instante.
“O quê?” Briorn rebateu, sem entender por que estava sendo encarado.
“Nada…” respondeu Grim, tornando a baixar a cabeça. “E o senhor então lutou contra a noite, e o senhor vencia quase toda batalha. Mas o mal era insidioso e mesquinho, sempre encontrando um jeito de voltar, mais forte e mais cruel do que já era.”
“Tsk,” soou Briorn, claramente irritado por ser obrigado a ouvir preces durante a visita.
“Não seja assim,” reclamou Sigrid. “As orações podem ajudar.”
“As orações para um senhor morto?” rebateu Briorn.
“O senhor não está morto,” introduziu Grim, optando por corrigir em vez de apontar a heresia gritante na frase do outro. “O senhor está acima de nós, pois de sua pele e espírito foi criado o Véu que nos guarda. O senhor nos protege, pois de seu coração e carne foi forjada a Estrela que ilumina o mundo. O senhor nos guia, pois foram seus ossos esmagados até o pó e jogados ao mar.”
“Sim, sim, claro, cachinhos dourados,” disse Briorn, levantando uma das mãos ao lado da cabeça e girando o dedo em círculos para indicar loucura. “Você fala disso como se tivesse visto.”
“Você os vê todos os dias,” respondeu Grim. “Foi agraciado por eles, e ainda assim recusa a divindade e a fé dos Três Milagres.”
“Eu só acho que as coisas são como são,” respondeu Briorn, mais grosso desta vez, já se irritando de verdade. “Eu volto amanhã.” concluiu. Levantando-se para ir embora.
O desgosto e a insatisfação do rapaz continuavam vazando dele enquanto se afastava, e mesmo assim Grim não conseguiu sentir raiva. Restava apenas balançar a cabeça, não havia como convencer um homem que não queria ser convencido. Mesmo se o próprio Senhor descesse do Véu diante de Briorn, Grim suspeitava que o pequeno bruto ainda daria um jeito de chamar aquilo de coincidência.
“Não ligue para ele,” disse Sigrid. “Ele não faz por mal.” Concluiu sorrindo. Com seu espírito carregado de conforto, e Grim sentiu um pequeno peso no peito por causa disso.
Pobre garota.
Um vento forte forçou a janela do quarto e a abriu com violência, deixando entrar o frio do inverno. Lá fora já nevava um pouco agora, os piores dias da estação estavam se aproximando, e este inverno parecia decidido a ser muito pior que o anterior. Sigrid levantou-se com pressa para fechar a janela, e Grim sentiu a preocupação sair dela, como se qualquer rajada fria capaz de tocar Hrafn pudesse piorar seu estado.
Havia também algo mais fundo e muito abafado, algo que ela mesma parecia ter enterrado sob camadas de negação. “Você gosta dele?” Grim perguntou.
Sigrid parou no meio do movimento, e seu corpo congelou por um instante como o tempo lá fora, depois virou a cabeça devagar e olhou para ele. “Claro que gosto,” disse ela, sorrindo sem graça. “Ele é meu amigo de infância.”
“Entendo,” respondeu Grim. Decidindo não quis cavar o assunto, pois não cabia a ele fazer isso, e talvez fosse melhor assim. Se tivesse que comparar o espírito de Sigrid com água, que seria algo limpo, transparente e fluido, então o de Hrafn seria óleo, não que isso o tornasse mau. Havia coisas em Hrafn que não queriam ser vistas nem nomeadas, e ainda assim cresciam dentro do seu espírito.
“Já passaram quatro dias,” disse Grim, jogando os pensamentos sobre amores alheios para longe. “Ele deverá acordar em breve.”
“Ele já não deveria estar acordado?” perguntou Sigrid. “Digo, eu o vi lutar, um voroir como ele não deveria…”
“Sim, não deveria,” respondeu Grim. “Mas sinto que ele pode estár passando por algo além da simples recuperação da carne.”
Ele olhou para Hrafn enquanto dizia isso, o rapaz dormia fundo, e o sono em torno dele não tinha aparência comum de exaustão. Havia algo de estranho ali, em algum lugar que Grim não conseguia alcançar. “Mesmo sua ligação está em repouso,” concluiu.
Sigrid voltou o olhar para a pequena mandrágora enroscada ao lado de Hrafn. Liv também permanecia imóvel, como se acompanhasse o sono dele. O movimento era tão discreto que quase parecia ser uma raiz comum se alguém olhasse rápido demais.
“Eu entendo,” respondeu Sigrid, desanimada.
Grim sentiu um pouco de pena, mas não havia muito mais que pudesse dizer para animá-la. Restava esperar que Hrafn acordasse e descobrisse por si mesmo o que quer que estivesse lhe acontecendo.
“Acho que nos vemos amanhã então, irmão Grim,” disse ela. Curvando-se de leve antes de sair do quarto. O silêncio ficou mais pesado depois que Sigrid partiu, Grim continuou onde estava voltando a rezar, ouvindo o vento bater na vidraça mal fechada e o som abafado da neve tocando pedra e telha lá fora.
Alguns momentos depois Edvard entrou, o mordomo curvou-se para Grim e foi até o lado da cama. De dentro de uma pequena caixa ele retirou um incenso fino, acendeu-o e o colocou perto da cabeceira, e o aroma se espalhou lentamente, conforme ele próprio fazia algumas preces com a mão, antes de virar para Grim. “Imagino que você esteja com fome, elevado voroir,” disse Edvard.
“Estou satisfeito por hora,” respondeu Grim educadamente.
O mordomo apenas assentiu, como se essa resposta bastasse, e se retirou tão silencioso quanto entrara, deixando o curandeiro, o doente e a pequena criatura em paz. Grim olhou para Hrafn por mais um momento, depois para Liv. “E o senhor despertou cedo e cresceu mais forte do que seus pares, pois o senhor era amado pelo mundo e por sua megin, assim como era amado por todos os seres que habitam nele…”
Enquanto as palavras saíam, algo mudou, vindo de Hrafn como um eco distante, passando por Grim antes que pudesse ser nomeado, fazendo o curandeiro ficar imóvel. Grim então levantou-se devagar e se aproximou da cama, ergueu a mão e encostou dois dedos na testa dele. A conexão se formou e veio com ela um mundo de dor e cansaço, costurados com pensamentos dispersos, mas por trás disso havia mais, uma percepção tão vasta e indiferente que ele pensou estar conectado ao próprio mundo por um instante. Grim puxou a mão de volta na mesma hora, o coração batendo rápido e um medo profundo nos olhos.
“O que está acontecendo com você?” murmurou. E então voltou a ajoelhar-se, mas agora sua oração tinha mais seriedade. A neve continuou caindo do lado de fora, o incênço queimava devagar e Hrafn permanecia imovel. Mas Grim já tinha certeza de que ele não apenas dormia.

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