Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!
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Capítulo 42. Hakon. Medo
Uma chuva fraca começou a cair dos céus, engrossando rápido a cada instante, como se o próprio Véu tivesse resolvido assistir de mais perto. Um dos seus aliados estava no chão, seco como carne de sal e envenenado, o outro havia virado uma escultura abstrata de espinhos, ferro e carne. O culpado estava quase alojado dentro da parede da arena, onde seu corpo batera com violência suficiente para abrir um buraco na pedra.
Hakon respirava pesado, ele estava com raiva, cansado e tomado por um sentimento diferente, um que ainda não sabia nomear, felizmente já tinha acabado, ou ao menos era isso que dizia a si mesmo. Seu pai provavelmente o repreenderia por perder dois voroirs, por pouco talentosos que fossem, ainda eram ativos caros, mas ja havia acabado, enfim.
O plebeu se mostrara poderoso, poderoso demais para o que seria sensato, e isso o irritava de um jeito que não queria aceitar, porque Hakon só tinha tanto poder devido a tudo que lhe fora dado, a cada privilégio digno de alguém como ele. Ele ignorou o sentimento e respirou fundo, endireitou o corpo o máximo que conseguiu e começou a andar em direção ao outro jovem, sacando uma adaga da cintura, e avançando com passos lentos, visão embaçada e determinação nos olhos.
Seu pai o observava, disso ele tinha certeza, e Hakon não iria decepcioná-lo, não por causa de uma mulher, sendo sua irmã ou não, a menos que fosse tocada pela Estrela e se tornasse algo além do que era, uma mulher continuava sendo uma mulher. O jovem voroir verde estava longe, mas não longe o bastante para lhe escapar, e Hakon apertou mais a adaga conforme se aproximava.
‘’Hrafn!!’’
‘’Hrafn!!’’
‘’Hrafn!!’’
A plateia gritava, mas o som chegava abafado nos seus ouvidos. A chuva continuava caindo, diluindo o sangue e espalhando ele pelo chão.
Ele estava com a visão ruim por conta dela e da exaustão, estava até mesmo vendo o corpo quebrado do outro se mover. Então resolveu tirar o capacete para ter certeza de que não era sua cabeça lhe pregando peças, e quando terminou de remover a peça viu que o inimigo estava fazendo o mesmo. Fumaça fina subia da armadura dele por causa das queimaduras, e ainda assim o maldito continuava se movendo. Hakon o observou levantar o único braço que tinha e começar a remover as tiras da armadura, uma a uma, devagar e aos poucos, como se cada gesto fosse um tormento, mas se recusando a parar. Até que por fim removeu a peça, segurando-a pelos chifres de carneiro, e a jogando de lado.
Hakon continuou andando, forçando o corpo exausto o máximo que podia antes que o inimigo recuperasse o fôlego. Hrafn estava empurrando as costas contra a parede com os pés, usando o apoio vertical para se inclinar para cima e se pôr de pé com dificuldade, quase caindo para o lado no processo, mas conseguindo no fim, até que deu um passo cambaleante para a frente e depois outro. Quando ergueu a cabeça e mostrou os olhos, Hakon quase interrompeu o próprio avanço. Um pensamento ridículo cruzou sua mente naquele instante, uma coisa tão absurda que o envergonhou por sequer tê-la sentido, ele cogitou render-se. Havia naqueles olhos negros uma calma que não deveria pertencer a um homem quase morto, uma confiança que ele mesmo não sabia se possuía, mesmo com a vantagem aparente.
Ele olhou para a arquibancada, para o ponto mais alto, onde o marquês observava em um assento mais nobre. Daquela distância não conseguia reconhecer com clareza a expressão do pai, mas via o bastante para entender que não lhe seria permitido perder, não em sua estreia, e menos ainda para um plebeu aleijado. Hakon parou e respirou fundo, reuniu em si toda a energia que ainda tinha e correu, correu cambaleando e errado, até mesmo rugindo no processo, como se o som da própria voz pudesse lhe dar mais um segundo de fôlego. Já Hrafn ficou parado, montou uma base e fechou os olhos.
No momento em que Hakon chegou sobre ele, a adaga foi lançada em direção ao pescoço. O jovem voroir desviou no meio, num movimento limpo demais para alguém naquele estado, e pegou o golpe numa sequência que Hakon só entendeu tarde demais. Não pegou a adaga, nem parou o braço dele, mas foi para os dedos. Hrafn agarrou seus dedos com a única mão e os puxou para a direção contrária de onde ele havia dado o golpe, e um estalo abafado ecoou, o dedo de Hakon quebrou, torcido em um ângulo grotesco, com o osso saindo para fora. Antes mesmo que pudesse reconhecer direito a dor, veio uma cotovelada e um chute baixo, tudo tão bem conectado que Hakon chegou a pensar que estava apanhando de pessoas diferentes. O cotovelo lhe quebrou o nariz, o chute quase lhe arrancou o chão sob os pés, e por um momento o mundo inteiro pareceu inclinar.
Mas ele se manteve de pé, engoliu a dor com os olhos lacrimejando e fez o pouco de energia que ainda tinha estalar raios outra vez. O golpe desequilibrou o jovem verde, fazendo seus dentes baterem e seu corpo ser empurrado para trás. Hakon então seguiu com um soco da mão boa, espalhando baba e sangue pelo ar, forçou então a mão quebrada a mover também, ignorando a dor, e a arremessou meio fechada e meio aberta para outro ‘’soco’’.
Mas Hrafn reagiu a tempo e abaixou a cabeça com uma precisão sublime, desviando por quase nada com o rosto virado para cima, a mão já quebrada de Hakon passando a um dedo de distância da sua boca. Quando Hakon foi puxá-la de volta para preparar outro golpe, Hrafn mordeu sua manopla, com um verde escuro do próprio milagre concentrado nos dentes, conforme soltava um rugido abafado enquanto colocava neles toda a pressão que conseguia, trincando boa parte deles no processo, assim como amassando e quebrando a mão de Hakon dentro da manopla. O jovem azul respondeu com uma cotovelada do outro braço, soltando a própria mão antes que sofresse um dano permanente, se é que já não sofrera.
“Cão sujo e imundo,” ele xingou, com a mão tremendo e enviando espasmos de dor dela até o ombro e a nuca.
“Nunca fui fresco com comida,” respondeu Hrafn, com um sorriso sangrento nos lábios e as íris cheias de veias vermelhas.
“Você sabe o que é feito com cães loucos?” perguntou Hakon, e dessa vez a frase saiu mais fraca do que devia. A pose ainda era boa, mas ele não se sentia nada bem, algo estranho o apertava por dentro conforme olhava para o outro rapaz. O homem diante dele parecia disposto a tudo para vencer, era como se a honra de um voroir e a nobreza de uma batalha fossem conceitos distantes para ele.
Como se para provar esse ponto, o jovem não respondeu, e em vez disso, riu. Um riso estranho e meio maníaco, que acabou em tosses de sangue antes que ele se jogasse para cima de Hakon com ainda mais voracidade. A chuva agora tornava manter uma base mais difícil, e junto do estado em que os dois estavam, o que se seguiu pareceu mais uma luta de taverna do que uma batalha nobre entre voroirs. Socos foram lançados, chutes baixos e feios, Hrafn até tentou mordê-lo de novo, quebrar seus dedos, furar seus olhos e encontrar pontos de dor de todas as formas mesquinhas que podia.
E não importava o que Hakon fizesse, o outro sempre parecia entender melhor e saber primeiro. Tomava apenas os golpes que podia suportar e devolvia coisas piores, sempre desviava por quase nada o tempo todo, até mesmo de ataques que vinham de pontos cegos, como se o corpo inteiro soubesse antes da mente o que precisava fazer. Hakon começou a entender o que era o sentimento crescendo dentro dele havia já algum tempo, conforme a chuva caía e fazia o sangue na boca de Hrafn escorrer, conforme aqueles olhos negros como carvão apagado olhavam para ele, enquanto o corpo do outro se mexia de jeitos errados, levava golpes e se recusava a ceder, sempre devolvendo mais dor e tormento, cada vez mais sujos, práticos e desonestos
‘’Hrafn!!’’
‘’Hrafn!!’’.
Hakon estava sentindo pela primeira vez na vida, medo. Não o medo pequeno de falar com o pai, menos ainda o medo de fracassar, era um tipo mais carnal de medo, um que entrava nos ossos e pesava atrás dos olhos.
Era o medo de estar diante de um predador faminto.

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