Capítulo 99 - A Lâmina Se Torna Inutilizável
O impacto do choque entre a gosma roxa e a lâmina arrastou Anayê por quase quatro metros para longe de Kelsin. Ainda assim, ela não foi ferida.
Heitor e Fenrir ergueram os olhos ao mesmo tempo revelando os semblantes cheios de preocupação e ficaram aliviados ao perceberem que a ceifadora permanecia intacta.
Porém, Kelsin riu. Uma risada exagerada e debochada tal qual alguém que tinha perdido a mente.
Então Anayê viu. A lâmina da sua adaga estava preta como possuída por piche. Imediatamente, uma onda de forte inquietação tomou sua mente, trazendo à tona o medo que mantivera sob cativeiro dentro de si.
A ceifadora tentou invocar sua técnica, mas a adaga não respondeu. Nenhum brilho, nenhuma faísca, nenhuma ventania. Agitou a arma, o piche permaneceu. Passou a mão, o mesmo resultado. E conforme a conclusão se tornava óbvia, a testa se enchia de gotas de suor e o peito subia e descia mais rápido debaixo da camisa.
Kelsin gargalhou de novo. Seu rosto repleto de deboche e deleite.
— O que vai fazer agora sem a sua arma do qual depende todo o seu poder?
— Anayê, o que aconteceu? — Heitor falou e sentiu a gaiola se apertando outra vez.
Ela pareceu não ouvir. A voz dele estava distante e oculta, pois toda a sua atenção era a adaga. Havia destruído a lâmina? O presente do Deus sem face para ela estava realmente inválido? O que diria o inventor quando soubesse? Não! Se recusava a acreditar naquilo. Deveria haver um jeito, uma habilidade ou uma técnica capaz de desfazer a situação.
Um vento assoprou seus cabelos pretos enquanto seus olhos violeta focavam a lâmina e sua mente chegava a uma perturbadora conclusão.
Fenrir sentiu nausea. Ele sabia. Sim, sabia que aquilo aconteceria, que eles seriam incapazes de vencer a batalha contra o feiticeiro. Haviam vencido Elchor por sorte, apenas sorte, e agora morreriam.
— Vocês, ceifadores, são realmente divertidos — Kelsin disse.
— Cala a boca! — vociferou Heitor.
A gaiola se fechou outra vez e apertou a mão dele contra a perna numa posição desconfortável. Heitor sentiu a dor subindo pelo dedo mínimo, forçando, pressionando, mais e mais, até ouvir o barulho. Crack. Ele grunhiu, comprimindo os olhos. A dor do dedo quebrado percorreu o braço numa onda de aflição, mas ele resistiu com todo o vigor.
Anayê olhou para trás quando ouviu o som do dedo fraturado e viu Heitor ajoelhado com a gaiola tentando espremendo seu rosto e, ao lado dele, igualmente prostrado, estava Fenrir com a face carregada de medo.
— Anayê… — Heitor disse com esforço — Você precisa fugir.
Um assombro atravessou de relance pelo rosto dela ao se lembrar de Elchor. Rejeitava a ideia de passar pela mesma situação de novo. Devia haver uma maneira de burlar as limitações e encontrar um caminho para a vitória sem perder tanto.
Ela levantou a cabeça na direção do feiticeiro sorridente.
— Qual o plano agora, pequena? — ele questionou.
Anayê fechou os punhos. Eu me recuso, eu me recuso.
— Eu me recuso a desistir! — exclamou.
O grito assustou Fenrir e Heitor, e surpreendeu o feiticeiro.
E então avançou. A adaga em um punho e os dedos fechados em outro. O rosto transformado em uma encarnação de toda a sua determinação.
Animado, Kelsin abriu os braços, zombeteiro.
Anayê lançou a adaga e o feiticeiro rebateu com seu escudo de energia. Em seguida, próximo o bastante dele, girou os calcanhares, pegou a lâmina no ar e desferiu uma punhalada na lateral esquerda do pulmão do rival.
Kelsin ergueu uma sobrancelha, curioso e abismado. Fenrir segurou a respiração por um momento enquanto Heitor mantinha a face possuída de aflição.
— Era isso?
Então, uma lança de energia emergiu na mão dele e acertou a ceifadora em cheio.
Anayê saiu rolando pelo chão, mas deu um salto e pousou de pé. Levou uma das mãos à barriga enquanto um hematoma surgia em sua fronte.
Porém, ela atacou de novo.
Dessa vez, entretanto, Kelsin não ficou parado. Invocou duas lanças de energia que voaram na direção da ceifadora, mas ela se esquivou facilmente, saltou no ar e desferiu um chute que foi defendido pelo escudo do feiticeiro.
Ela não parou.
Executou outra manobra seguida de mais chutes, socos e tentativas de atingir a garganta do rival com a adaga. Kelsin, por outro lado, também agredia, empenhado em obter êxito com as lanças, golpeando e se aproximando, golpeando e se aproximando até se impôr. A ceifadora passou a esquivar e defender por um tempo muito curto, e então foi atingida por uma porrada no rosto que fez o ar fugir dos pulmões. Logo depois, a lança de energia de Kelsin bateu em seu peito e a mandou pelos ares para atingir o chão a alguns metros.
Heitor estremeceu e sentiu a esperança ruindo com a certeza de que a luta já tinha sido decidida.
Anayê sentiu o gosto de sangue subir pela garganta e limpou os lábios com a mão.
O feiticeiro fez um gesto, chamando-a.
— Não, Anayê — Heitor resmungou.
— Fica quieto, velho beberrão — ela retrucou se levantando. — Eu já te disse, ceifadores não fogem.
A resposta trouxe silêncio e culpa ao coração do ceifador.
Anayê ficou um pouco surpresa quando reparou que a túnica de Kelsin estava molhada de sangue no local onde atingira. Entretanto, o feiticeiro não demonstrava dor e nem incômodo. Esse homem… não sente dor? Que tipo de feiticeiro ele é? Cuspiu um punhado de sangue, segurou a adaga com firmeza e investiu mais uma vez.
Kelsin flexionou os ombros, animado. E a sequência de golpes recomeçou. Porém, quando a adaga raspou a sua bochecha, ele percebeu que a ceifadora tinha ficado mais feroz e seus ataques estavam se tornando mais eficazes e menos arremetidas sem sentido, portanto, resolveu colocar um fim na batalha.
Assim que a ceifadora desferiu um chute, ele agarrou o seu pé e a arremessou contra o chão com muita força. No instante seguinte, invocou sua lança e disparou. Contudo, a ceifadora conseguiu mover o corpo com agilidade, escapou do golpe e se afastou, mancando.
Kelsin não parou. Golpeou novamente e se aproximou, como fizera anteriormente, enquanto Anayê se esquivava de maneira desajeitada.
A ceifadora tropeçou nos pés e caiu de novo. Ergueu a adaga por instinto outra vez e a lança de Kelsin a acertou, enviando ambos para trás por conta de uma poderosa onda de choque.
Anayê estava cheia de feridas. Um corte na fronte e nos lábios, uma parte da manga da camisa rasgada, a calça suja de poeira e os cabelos embaralhados.
Seus olhos passaram de relance pela adaga e se admiraram. O piche estava derretendo pela lâmina aos poucos. A visão encheu seu peito de coragem.
— Ora, ora — Kelsin aplaudiu. — Impressionante.
E, imediatamente, o rosto dele se transformou em uma seriedade impassível e amedrontadora.
— Pena que eu me cansei — disse.
Ele reuniu energia roxa em suas mãos por um momento fazendo crescer do tamanho de uma melancia e depois engoliu tudo. Seu corpo sofreu alguns espasmos e seu rosto ficou vermelho, mas somente por um instante e, então, direcionou o olhar para a ceifadora.
Anayê focou na adaga e ficou preocupada. O piche se dissolvia muito lentamente e, daquela forma, não teria tempo de esperar.
Duas lanças de energia apareceram nas mãos de Kelsin e o feiticeiro avançou.

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