Capítulo 171 | Um Lobo
— Rompa o selo.
A câmara estava em silêncio. O pedestal vazio, os fragmentos da espada bastarda ainda no chão ao redor, a erva-da-lua de Sophia com o brilho que havia diminuído mas não cessado. Licaão ficou de pé diante de Teseu com os ombros acima e os olhos que esperavam.
— Rompa agora.
Teseu não disse nada. Fechou os olhos e abriu o punho. A luz esverdeada escapou entre seus dedos, fluiu em direção ao rei e o envolveu. A aura vermelha dos lobos da visão ressurgiu, violenta, brutal e selvage. Lutou contra a restrição do campeão da floresta.
Teseu rangeu os dentes. A mesma intenção que movia as raízes e as vinhas, a mesma energia que a Dríade havia concedido a ele. Os lobos vermelhos foram se misturando à energia, e adotaram um tom castanho. Então, Licaão rugiu.
Licaão se contorceu e rugiu. Não se importou com a dor. A aura ao redor dele retornou à pele e o envolveu. Pelos cresciam, estalos ósseos surgiam, a pele rasgava.
Já estava em movimento antes de terminar a transformação — a pelagem cresceu enquanto corria, a estrutura óssea se reorganizou sem que o passo vacilasse, o tronco alargou e as pernas se alongaram até a criatura que cruzou o corredor e subiu os degraus não ter mais a proporção de nenhum homem. Teseu, Sophia e Plutarco tentaram acompanhar, cada um no seu limite, mas ficaram para trás no primeiro corredor.
Quando chegaram ao topo e saíram pelo pátio do palacete, Licaão já estava na borda da encosta. As costas largas, a escala monstruosa e o corpo envolto em pelos negros.
— Licaão! — Teseu gritou.
O lobo negro ficou parado no alto por uma fração de segundo — a escala errada para qualquer criatura, os olhos amarelos voltados para o campo de batalha lá embaixo, dois mil côvados de rocha entre os pés e o chão do assentamento.
Saltou. Os três arregalaram os olhos e correram para a borda.
Assistiram em silêncio do alto da encosta, o baque abaixo, silencioso, o som demorava a chegar, mas uma nuvem subia com o impacto. Então, um estrondo de um meteoro ergueu uma tempestade de poeira, pedras e mármore.
Durante três segundos, houve silêncio.
Em meio à poeira, o lobo negro se ergueu, incólume, e avançou para a frente de batalha sem desvio, sem hesitação, sem olhar para nada que não fosse o que havia à frente.
Sophia olhava para baixo com a mão levantada à altura do rosto.
— Ele simplesmente… — ela começou.
— Sim. — Teseu disse.
— De dois mil côvados.
— Sim.
— E saiu andando.
— Correndo. — Plutarco corrigiu, com a precisão do cronista. Já havia apanhado a tabuleta e o estilete. — Ele saiu correndo.
A descida pela encosta foi mais rápida do que a subida pois os degraus de raízes que Teseu havia aberto ainda existiam, de modo que não precisavam parar para criar um novo a cada passo. Sophia foi na frente com a erva-da-lua, Plutarco no meio, Teseu por último com os olhos no campo de batalha que se abria à medida que a altura diminuía.
Uma luz estranha e azulada permitia a visão mesmo daquela distância.
Quando finalmente chegaram à base da montanha, Sophia parou para iluminar os pés do que vinham atrás. Então, enquanto eles se concentravam em descer os últimos degraus, ela viu.
Os olhos se apertaram em direção ao interior do assentamento.
— Teseu.
Ele chegou ao nível dela e olhou.
As sombras. Um grupo de vultos avançava pelas ruas internas numa única direção.
— Os abrigos. — Plutarco murmurou, aterrorizado.
— Eu sei. — Sophia já dava os primeiros passos. — Eles vão encontrar os outros civis…
— Plutarco. — Teseu levou a mão à xiphos na cintura. — Mostre o caminho.
Plutarco assentiu.
— Sophia, você pode encontrar um…
A garota encarou o jovem herói com um olhar fulminante que o calou.
— Nem pense em me dizer para ficar para trás.
Ele ponderou, de boca aberta, e assentiu.
Correram.
A luz das flores permeava o campo de batalha.
As sombras tinham contorno agora, massa visível, bordas que os olhos conseguiam seguir pelo menos por um segundo antes que se dissolvessem e reconstituíssem em outro ponto. Um segundo era suficiente para Theo.
Ele avançou sobre a sombra mais próxima com a espada em arco diagonal. A lâmina atravessou o centro da forma — e a forma cedeu, se abriu ao redor do corte, mas não se desfez. Quando o aço saiu do outro lado, a sombra já se reorganizava, o rasgo no centro fechava lentamente.
— Maldição. — Theo recuou um passo e olhou para a espada na mão.
— Essas coisas não morrem! — Um dos escudeiros gritou da linha.
— Eu percebi! — Theo respondeu. — Continue golpeando assim mesmo! Vamos mantê-las paradas mesmo que não as mate!
Calixto disparou duas flechas em rápida sucessão na sombra que avançava pelo flanco esquerdo. As pontas passaram pela forma e cravaram no chão. A sombra não parou, mas desviou — um desvio mínimo, involuntário. Ela disparou duas vezes mais, na mesma sombra, no mesmo ponto, forçando o desvio na direção que queria. A sombra acabou recuada para a parede e dois soldados a prensaram com os escudos.
— Isso! — Calixto gritou. — Usem os escudos! Não deixem espaço entre vocês!
A linha cedeu e fechou e cedeu de novo. Avançavam um metro e perdiam dois, fechavam um buraco e abriam outro.
No flanco direito, um dos centauros menores havia encurralado três soldados contra o muro interno do assentamento. Os três seguravam os escudos à frente mas recuavam a cada impacto — o centauro atacava em sequência, um golpe no escudo central, um no da esquerda, um no da direita. A cada golpe uma gargalhada.
— Isso vermes! Recuem! Gritem! Chorem! — Ralhava entre dentes, sem cessar os ataques.
Theo viu. Trocou com Calixto um olhar de meio segundo e foi.
Chegou pelo lado onde o terceiro golpe deixara o flanco exposto por uma fração. Investiu com o ombro, o peso todo do corpo concentrado num único ponto, e o centauro girou para absorver o impacto, surpreso.
— AGORA! — Theo rugiu.
Os três soldados aproveitaram a abertura. As lanças entraram ao mesmo tempo, duas no pescoço, uma no flanco.
— Malditos! Como ou… — O centauro berrou, grunhiu.
Caiu para o lado, os cascos bateram no chão em movimentos desordenados. Theo ficou de pé acima dele com a espada levantada para o golpe final. Calixto chegou pela direita, a flecha já na corda e direcionada ao centro da testa da criatura.
O centauro no chão arregalou os olhos e ergueu uma das mãos humanas para se proteger, vulnerável.
Um casco acertou Theo nas costas antes da espada descer.

Nesso. O centauro-líder havia atravessado o campo numa investida que o terreno destruído do assentamento não havia conseguido desacelerar. O casco da pata dianteira acertou Theo no centro da escápula com a força de um touro.
Theo voou.
Deixou o chão em um giro por dois metros antes de aterrissar e rolar mais três. O metal do peitoral estava amassado para dentro no ponto do impacto. Uma pessoa comum teria morrido.
Calixto disparou três flechas em Nesso.
Todas acertaram. Ombro, flanco, pescoço. Nesso virou a cabeça na direção dela com a lentidão de alguém que recebeu cócegas, e sorriu.
— Boa pontaria. — Virou-se lentamente em sua direção. — Poderia ter feito alguma coisa, se tivesse uma arma de verdade.
A Hefos subiu em direção ao céu, e o ar ao redor da lâmina tremulou num tom vermelho e doentio. Calixto correu sem hesitar, abrigou-se atrás de uma construção em um instante.
O arco da espada foi horizontal, largo, e quando a lâmina alcançou a fachada do prédio mais próximo — um galpão de pedra que havia servido de depósito nos primeiros meses de Nova Arcádia — a pedra cedeu com o estrondo do impacto de um ariete. A parede frontal desabou para dentro. O teto seguiu. A poeira ocupou o espaço onde o galpão havia estado por um instante antes de se dissipar no ar frio da madrugada.
Calixto ressurgiu de trás dos destroços, respirando profusamente e encarando a destruição. Havia escapado por pouco.
“Deuses… Que força é…”
Nesso olhou para a destruição com olhar avaliador, acenou com o lábio erguido, como que insatisfeito. Depois olhou para os escudeiros que restavam na linha, para os rostos que o encaravam na penumbra das flores-da-lua, para a mulher com o arco e flecha e avançou com passo deliberado.
A sombra de Nesso cobriu o corpo da comandante.
Calixto sentiu um frio percorrer sua espinha e recuou um passo com os olhos se arregalando pouco a pouco. Os escudeiros à sua esquerda urraram e tomaram a frente da capitão em uníssono.
— OMBRO A OMBRO! — Gritaram.
Calixto, sobressaltada, estendeu a mão em direção a eles para ordenar que saíssem da frente. Tarde demais.
Theo se colocou na frente. Mancava, um braço segurava o outro e o ajudava a manter a espada erguida. Sua testa estava rasgada e o sangue banhava todo o rosto.
Havia levantado do chão em algum ponto durante a destruição do galpão, os joelhos tremiam levemente, mas seus pés estavam firmes no chão. Ficou entre Nesso e os escudeiros com o cenho franzido e os dentes à mostra.
— Pelo menos é honesto. — Nesso parou a quatro metros. Inclinou levemente o tronco para frente com curiosidade. — A maioria foge quando chego perto. Você fica mesmo frente à morte iminente. Por quê?
— Porque é o meu povo que está atrás de mim. — Theo soava mais funda do que de hábito, mas não tremia. — E enquanto eu estiver à frente, nada os atingirá!
— Nobre. — Nesso levantou a espada. — Inútil, mas nobre.
A espada subiu outra vez. O ar tremulou, os olhos se apertaram contra a luz vermelha da lâmina demoníaca. Nesso riu com o poder em seus braços.

Então, um vulto negro e volumoso cruzou a linha de defesa por cima. O deslocamento de ar foi o suficiente para fazer os escudos desentrelaçarem. Theo, firme até então, se viu de joelhos.
A sombra avançou sobre Nesso.
Todos arregalaram os olhos.
— É… É um lobo?!

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