Capítulo 36: Missão Real
Os meses que se sucederam não tiveram nada de especial.
A rotina na Academia seguia como uma engrenagem que não sabia parar. As salas de treino abriam cedo, fechavam tarde, e o som constante de energia sendo testada e rejeitada preenchia os corredores como um ruído de fundo permanente. Vance já não chamava atenção nem quando errava. No começo, ainda havia aquele tipo de curiosidade desconfortável ao redor dele, como se as pessoas esperassem entender onde estava o “defeito”. Com o tempo, isso desapareceu também. O erro repetido deixa de ser interessante quando não muda de forma.
Ele percebia isso nas pequenas coisas.
No intervalo entre aulas, quando escolhia um lugar para se sentar, havia sempre um ajuste sutil nos grupos próximos. Não era uma recusa explícita, ninguém o mandava sair. Mas as conversas baixavam meio tom, os corpos mudavam de posição, e o espaço ao redor dele ficava ligeiramente mais vazio do que deveria ser. Até o ar parecia mais organizado para os outros do que para ele.
Nas práticas, o padrão se repetia.
Enquanto os alunos treinavam a conversão de energia biológica em matéria — moldando resistência, ajustando fluxo, estabilizando construções simples — Vance ficava um passo atrás de tudo isso, como se estivesse sempre chegando depois do momento certo. Ele tentava acompanhar as instruções com precisão, repetia os movimentos, ajustava a postura, mas havia uma falha constante na transição entre intenção e resultado. O Fluxor não respondia como deveria. Não falhava de forma dramática. Apenas… não se alinhava.
E o mais estranho era a ausência de explicação.
Era como segurar algo que simplesmente não existia da mesma forma que para os outros.
Com o tempo, isso começou a ser tratado como um fato silencioso.
Os professores já não insistiam tanto. As correções vinham mais curtas. Às vezes, apenas um olhar e um “tente novamente” dito sem expectativa real de mudança. Vance aprendia a reconhecer esse tom. Era o tipo de instrução que não espera resultado, apenas cumprimento.
Blaidd ainda aparecia.
Nem sempre constante, nem sempre leve como antes.
Ele ficava ao lado de Vance durante os treinos, observando sem comentar por longos períodos, como se estivesse tentando encaixar algo que não se resolvia pela lógica comum. Outras vezes fazia piadas curtas, quase automáticas, mas até elas pareciam perder um pouco da espontaneidade com o tempo, como se o ambiente estivesse desgastando até o jeito dele falar.
— Você tá tentando brigar com a energia ou só ofendendo ela mesmo?
Vance nunca tinha resposta.
…
O silêncio não veio de uma vez.
Ele começou como uma perda gradual de ruído.
As conversas ainda existiam quando Marcus Mori entrou no salão de treinamento, mas já não tinham a mesma consistência de antes. Eram frases soltas, risos curtos, pequenos ajustes de equipamento entre um exercício e outro. O tipo de som que não chama atenção até parar de repente. Marcus atravessou o espaço como se não precisasse abrir caminho; ninguém se moveu para dar passagem, mas também ninguém permaneceu exatamente igual quando ele passou. Havia uma diferença sutil no ar, como se o ambiente estivesse reconhecendo algo antes da própria turma.
Ele não parou no centro.
Não pediu atenção.
Apenas ficou onde já estava, e isso foi suficiente.
A pasta sob o braço foi aberta com um movimento simples, quase administrativo. Algumas páginas foram viradas sem pressa, como se o conteúdo já tivesse sido revisado muitas vezes antes de chegar ali. Quando Marcus finalmente falou, não houve preparação, nem introdução.
— O ano letivo está acabando, o treinamento chegou ao fim.
As palavras não foram altas, mas atravessaram o salão com facilidade. Um ou dois alunos ainda mantiveram o movimento por instinto, terminando um gesto, ajustando uma postura, como se o corpo demorasse a aceitar que aquilo não era mais uma prática comum. Aos poucos, esses movimentos também cessaram, não por ordem, mas por ajuste coletivo. O ambiente inteiro parecia encontrar um novo ritmo ao mesmo tempo.
Marcus virou uma página.
— A partir de agora, vocês serão deslocados para uma missão real.
Isso chamou a atenção de todos.
— Atenção, essa é a última prova de vocês. A performance será analisada individualmente.
O silêncio que se seguiu não foi imediato — ele demorou alguns instantes para se formar, como se a frase precisasse atravessar diferentes camadas de compreensão antes de realmente se fixar. Primeiro vieram os olhares rápidos entre os alunos, depois os pequenos ajustes de postura, e só então o entendimento completo da palavra “real” começou a pesar no ambiente. Não era mais prática. Não era simulação. Era o tipo de missão que não voltava igual.
Marcus esperou esse processo acontecer sem pressa.
Ele fechou a pasta com um som seco, controlado, e por um momento pareceu apenas observar a sala como um todo, sem escolher ninguém em específico.
— Basicamente vamos evacuar civis.
A tela atrás dele se acendeu sozinha, projetando uma estrutura de organização simples.
Marcus continuou.
— A missão ocorrerá quase fora do perímetro urbano. Bairro de Urio, a divisa entre a cidade e todo o resto.
Marcus não levantou a voz, mas a sala pareceu se inclinar na direção dele mesmo assim.
— O local foi identificado como primeiro ponto de contato de uma horda de criaturas de fora dos perímetros humanos.
Marcus observou a reação sem comentar. Alguns alunos reagiram de imediato — tensão nos ombros, olhares mais rápidos, mãos ajustando equipamentos inexistentes por hábito. Outros demoraram mais, como se o significado estivesse chegando em partes, recusando-se a se formar de uma vez só.
— Relaxem, na verdade elas nem chegarão lá. Nossa missão é para que se caso algo atrase, os civis já estejam seguros.
A tela atrás dele mudou de novo.
Agora mostrava uma imagem ampliada da borda do bairro de Urio. A vegetação mais densa ali parecia quase encostar nas casas, como se a cidade tivesse sido desenhada e depois esquecida no limite de algo maior. Pequenos pontos de alerta piscavam em locais específicos da imagem, mas sem explicação detalhada.
— Até então todas as criaturas identificadas estão presentes no livro de biologia extra-humana. Não há motivo pelo qual se preocupar.
Marcus fez uma pausa.
— Quero vocês aqui amanhã às 7. A academia fornecerá tudo que for necessário. Desejo uma boa noite de sono hoje.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.