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    07 de junho de 2024, sexta-feira.

    Sentindo-se levemente desconfortável, Victor abre os olhos e percebe que já havia amanhecido há pouco. Percebe Aki dormindo profundamente ao seu lado e a observa por alguns segundos, contemplando seu rosto tão inocente ali, desprotegida e vulnerável. Sorriu sozinho, de forma abobalhada. Talvez de quem se sente nas nuvens. 

    Quando percebeu, forçou um novo sorriso, de quem compreendeu o que estava acontecendo e se sentia “bobo”. Ele ajeitou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela para trás. 

    “Aki… novamente, obrigado por tudo.”

    Levantou-se então e fez sua rotina diária. Um alongamento matinal seguido por um banho relaxante e dirigiu-se até a cozinha para preparar um café da manhã. 

    Aproveitando o momento a sós consigo mesmo, pegou o seu telefone e enviou o link de sua entrevista para Jeanne.

    [Bom dia, Jeanne! Tudo bem? Espero que sim. Você já assistiu às novidades, querida sócia?]

    Respondeu ainda algumas mensagens pendentes, como Koda, Kazuya, Natsu e o próprio chefe Akashi. O que lhe surpreendeu foi uma mensagem de Marye, a Assistente Social da “Brilho Feliz”. Não era comum receber mensagens dela, nem de outras pessoas, mesmo que lideranças da associação, já que eles tinham bastante autonomia para manter a associação funcionando, sendo responsáveis, geralmente, apenas por enviar os relatórios mensais. 

    [Boa tarde, Victor (aliás, agora deve ser de madrugada aí, desculpe pelo horário)! 

    Mas acabei de receber uma proposta muito interessante do gabinete da prefeitura que irá trazer grandes benefícios para a “Brilho Feliz”. Como representante social da organização, acabei sendo procurada e nos ofereceram uma verba mensal para expandirmos o trabalho na área da educação, conforme anexo abaixo.

    Espero uma resposta do senhor de como proceder.]

    Os olhos momentaneamente arregalados do brasileiro denunciaram sua surpresa genuína ao ler a mensagem. 

    “A prefeitura ofereceu uma verba para o projeto? Duvido que seja algo 100% bom. Não preciso ler para saber disso. Mas vamos ver!”

    Cético quanto a essa bondade do órgão público, já conhecendo bem o sistema brasileiro, prosseguiu com a leitura.

    Alguns minutos se passaram e era como ele havia ponderado. Dentro do projeto, que incluía uma verba relativamente atraente para investimento na área de educação da associação, havia uma cláusula de filiação ao partido do prefeito (e que também era de pelo menos um terço dos vereadores da cidade). 

    Sentiu uma onda de indignação subindo ao seu peito. 

    “Mas que bando de covardes!”

    Completamente indignado pela situação, propôs em seu coração uma coisa: “não preciso do dinheiro público para fazer isso. Acabei de perceber, preciso me dedicar mais à “Brilho Feliz”. Vou criar um novo projeto para expandir nosso sonho.”

    Contudo, por ser uma decisão grande e de muita importância, decidiu que deveria conversar com Aki primeiro — além de demandar um bom planejamento para uma execução precisa. 

    Respondeu para a brasileira negando a proposta e explicando os pontos e como iria proceder. 

    Com isso parcialmente resolvido, notou que já era próximo das oito horas da manhã. Decidiu acordar Aki para o compromisso. Caminhou até o quarto e ela ainda dormia.

    Sua pele clara criava um contraste harmônico com os longos cabelos pretos depositados sobre o fundo branco dos lençóis. 

    “Tão linda… eu mereço realmente essa segunda chance? Acho que sim. Eu vou te proteger, Aki!” 

    Alguns pensamentos incômodos iam e vinham da mente dele, sempre o deixando pensativo. Só o fato de imaginar perdendo Aki, era o suficiente para sentir um calafrio na espinha. 

    “Isso não vai acontecer… não enquanto depender de mim…” 

    Refletia. 

    Por fim, se aproximou da namorada, o rosto muito próximo e chamando seu nome.

    — Aki. Aki. 

    Juntamente com um pequeno toque em seu ombro, tentando despertá-la. A garota abriu os olhos lentamente e logo abriu um sorriso ao ver o rosto dele tão próximo. 

    — Bom dia, Victor. — a voz rouca e arrastada.

    — Bom dia, “meu outono”. — respondeu, usando o jogo de palavras com o seu nome.

    Imediatamente as bochechas dela ficaram coradas, fazendo com quem puxasse o lençol até a cabeça. 

    — Logo cedo e você querendo me deixar com vergonha? Não é justo! 

    Victor riu, quando removeu os panos.

    — É o seu nome. 

    O sorriso em seu rosto denunciava suas intenções nitidamente: queria provocá-la. 

    — Vai jogar sujo?! — exclamou, aproveitando a guarda baixa dele e o agarrando num abraço e rolando para o lado com ele. 

    Os dois riram, quando ela lhe deu um beijo na bochecha. 

    — Bobo. Eu te amo. Já vou levantar. 

    Respondendo a declaração, Victor se levantou, explicando que esperaria na sala. 

    ***

    Passaram-se alguns minutos e a garota saiu pela porta do quarto, os cabelos ainda úmidos. 

    — Desculpa a demora. 

    — Você não demorou. Venha. 

    Enquanto comiam, Victor acabou explicando para ela sobre as novidades envolvendo a “Brilho Feliz”. Aki ficou realmente surpresa e empolgada. Pela diferença cultural, a japonesa não entendeu o motivo da ajuda política ser um problema. 

    — No Brasil é muito diferente de como é aqui, infelizmente. — confessou. 

    Mesmo que falar disso fosse, de certa forma, doloroso, não tinha o que fazer. Era a realidade. Após alguma explicação, finalizou, dizendo: 

    — Porém, no fim, acho que todo sistema tem as suas falhas. 

    Foi um choque cultural para ela as revelações de como funcionava a política no Brasil. Apesar disso, compreendeu que, se o estado fosse perfeito, independente do país ou região, não haveria tanta fome ou pessoas em necessidade. 

    “Essa conversa acabou virando uma grande reflexão…” 

    O tempo havia avançado significativamente nesse período, o suficiente para que seu cabelo já estivesse secado. Então se levantou e quando terminou de se arrumar, finalmente estavam prontos para sair de casa. 

    Antes de cruzarem a porta, porém, deram um beijinho de “bom dia” e trocaram um olhar cúmplice, prontos para encarar mais um dia, juntos. 

    ***

    — Eu não acredito! Que saudade estava de você, amiga! — Sayuri saltou nos braços de Aki, num abraço apertado. 

    Aki, levemente sem reação, tanto pela ação exagerada da amiga quanto pela conversa de Victor sobre seu posicionamento público, tentou manter a postura — embora não tenha chegado ao ponto de mudar suas essências, queria atender às expectativas. 

    Dessa forma, retribuiu o abraço. A verdade era que também sentia falta da sua colega de trabalho, que agora era uma amiga e quase a sua cunhada. 

    — A Yumi vai pirar quando te ver! — Sayuri declarou, empolgada. 

    — Duvido que ela supere você. — brincou, em resposta. Sayuri fez beicinho. 

    — Não sou tão dramática. 

    Aki riu e as duas seguiram conversando animadas no escritório. A outra amiga não havia chegado ainda na empresa, pois teve que resolver um imprevisto de seu setor em outro estabelecimento. 

    Victor estava na ala de infraestrutura dos eventos, conversando com Koda e Kazuya. Os três conversavam animados. 

    — Você desaparece por uns dias e ressurge como uma fênix escarlate emergindo de um vulcão… trazendo uma explosão de boas notícias. Você é algum ser mágico?! — indagou Koda, num tom leve, raro de se ver. 

    Kazuya deu um tapa no ombro de Victor.

    — Olha só… você fez até o Koda ficar em choque. Definitivamente você não é humano. 

    — O que quer dizer com isso, ruivinho?! — protestou o homem mais velho.

    — Olá. Eu sou o Koda Musashi. Sou o responsável pela infraestrutura de eventos da Elegance Affairs. — Kazuya falou de forma caricata e robótica, insinuando que o colega de trabalho era como uma máquina. 

    Victor caiu na risada, o que fez os dois ficaram boquiabertos. 

    — Quantas surpresas uma atrás da outra. O Victor também ri. Meu Deus! — Kazuya completou. 

    Foi quando a porta abriu e um rapaz alto e com cabelos anelados curtos entrou. Era Helsing. 

    — Eu nunca pensei que viveria para esse momento: o nosso Victor rindo? — Mesmo que fosse apenas o final da ação, não pôde deixar de sentir-se extremamente surpreso. 

    — Qual é pessoal. Não é para tanto. Podem perguntar para a Aki. Eu não sou essa máquina apática… quero dizer, não mais. 

    — Sabemos, Victor. Ela é justamente o motivo desse sorrisão, né? — Kazuya o cutucou, provocando. 

    Os quatro continuaram conversando e rindo, mas logo o horário de intervalo acabou e precisaram voltar às suas funções. 

    Exceto por Victor, que se dirigiu até a sala do chefe Akashi. Ele estava lá, naquela mesma sala bem organizada e com um ar intelectual contagiante. A mesma mesa de vidro e as mesmas cadeiras. O mesmo computador e os mesmos livros organizados na prateleira. 

    Quando cruzou o marco, Akashi se levantou, para recebê-lo. 

    — Olá, Victor! Que bom te ver aqui. — cumprimentou. Os olhos, mesmo que sérios, também carregavam um ar de acolhimento.

    — Senhor Akashi. É um prazer vê-lo. 

    Os dois se cumprimentaram num aperto de mão. 

    — Vamos, sente-se. — o chefe convidou. 

    Com ambos acomodados, Akashi iniciou uma conversa inicialmente casual, mas, em determinado momento, o tom mudou: 

    — Eu… sinceramente… não sei se existem palavras suficientes para expressar o quanto sou grato a você.

    Victor arqueou as sobrancelhas, perguntando instintivamente: “Por que?”

    — O que você fez pela Elegance Affairs… não foi apenas trabalho. — Ele balançou a cabeça, em negação. — Foi cuidado. Foi respeito. Foi… carinho. 

    O silêncio que se seguiu não era desconfortável — era como se fosse denso.

    — Você tratou essa empresa como se fosse sua. Toda sua dedicação e compromisso, além dos contratos e parcerias… não sei se é algo que um funcionário faria. 

    Victor desviou o olhar brevemente pela janela enquanto ele falava, lisonjeado pelas palavras. Entretanto, não poderia dizer que era mentira. 

    — Esse foi um dos pontos chaves para o nosso crescimento exponencial nos últimos meses. — finalizou.

    Os olhares se cruzaram e Victor sentiu o peso daquelas palavras. Akashi era um homem sério e atento a detalhes. Um suspiro escapou, antes de responder, sinceramente. 

    — Sinto que não mereço tamanha admiração. — confessou. — Se eu pudesse resumir em uma palavra todo o meu trabalho seria: retribuição. 

    Agora foi a vez do homem mais velho não entender, arqueando uma das sobrancelhas. 

    — Quando eu cheguei aqui… eu não estava no meu melhor momento. — sua voz era calma, mas carregava um peso. — Na verdade, eu estava bem longe disso.

    Ele levou a mão ao bolso, de forma discreta, como quem busca estabilidade.

    — E ainda assim… o senhor abriu as portas para mim. Não sei se foi por consideração ao meu pai, ou à Pacca Consortium, ou se mesmo foi consideração ou apenas um palpite profissional… mas…

    Akashi permaneceu em silêncio, atento à cada palavra. 

    — Me deu uma oportunidade. Independente do motivo. Confiou em mim… quando eu mesmo não conseguia fazer isso.

    Victor buscou olhar para fora momentaneamente, como se buscasse um respiro, antes de finalizar: 

    — Então… se hoje eu consegui fazer algo pela empresa… — ele balançou a cabeça, de leve. — ainda assim, sinto que estou em dívida. 

    — Dívida? — Akashi repetiu, com um leve tom bem humorado. Victor não entendeu. O chefe cruzou os braços. 

    — Colocando numa balança todas as suas contribuições e essa “dívida”, acredito que ainda ficaríamos no vermelho. — explicou, levantando-se e dirigindo-se até ele e colocou uma das mãos sobre o ombro do brasileiro. — Posso afirmar, Victor, que uma das minhas melhores decisões foi ter te dado essa oportunidade. 

    Trocaram mais duas ou três frases, antes de anunciar que precisava sair. Akashi se despediu do funcionário, alegando que o esperaria na segunda-feira com uma boa notícia pelo seu ressurgimento oficial. 

    ***

    Assim como havia previsto, quando Yumi viu Aki, correu e a abraçou, tão empolgada quanto Sayuri. Elas conversaram durante todo o intervalo do almoço, quando precisaram se despedir para cumprir alguns compromissos ao término. 

    O casal estaria de volta à empresa na segunda-feira e despediram dos colegas, afinal, ainda iam em outro local. Antes de saírem das dependências da Elegance Affairs, Victor recebeu uma resposta de Jeanne: 

    [Sócia é o cacete! Não me chame assim! Isso é patético! E sim, eu vi alguns trechos! Não precisa esfregar na minha cara!]

    Ele respondeu: 

    [Logo cedo e tão mal humorada? Relaxa. Isso vai ser benéfico para ambos. E não se esqueça, eu te devo uma. Precisando, estou à disposição!]

    Depois de receber uma resposta seca com “cínico”, Victor e Aki finalmente pegaram um táxi e foram direto para o shopping de Tóquio. 

    Fizeram uma pequena compra de algumas coisas que estavam precisando em casa e, na volta, ainda passaram no mercado. Durante o trajeto, combinaram quem iria cozinhar naquele dia. Ainda planejaram alguns próximos passos em relação à exposição de suas redes sociais, com ele aproveitando para tirar uma selfie e postar no seu perfil. 

    ***

    Victor acordou de madrugada para ir ao banheiro. Seu coração batia fora de ritmo e uma felicidade no peito. 

    — É sério isso?! — murmurou, surpreso, quase pensando alto demais. — Que sonho incrível. 

    Ao se levantar, ainda avoado pelo que havia acabado de sonhar, pegou o telefone para olhar as horas, mas a primeira notificação na tela fez seus dedos congelarem sobre a tela: 

    — O que é isso…?!

    Olá, boa noite! Primeiramente, queria agradecer a todos que estão acompanhando a história. E, depois, desculpem o atraso desta semana. Estou sem computador e não consigo postar direito pelo celular. Hoje peguei o notebook da minha irmã emprestado. kk Vou tentar programar o máximo de capítulos possíveis.

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