Capítulo 145: Sonho cerimonial (1)
08 de junho de 2024, sábado.
Ao expandir a notificação, a qual ele pensou ter lido errado pela abreviação, se assustou. Mais de dez mil curtidas na foto que postou com Aki há algumas horas.
“Não me lembrava de ter tido tantas curtidas numa foto e tão rápido…”
Clicou na mensagem e abriu a postagem. Se perdeu por um instante lendo alguns comentários e uma sensação estranha lhe atingindo.
“Eu deveria ficar feliz com tamanha exposição repentina?”
Então, mergulhou num flashback dentro da sua cabeça, enquanto estava deitado no sofá, se perdendo em seus próprios pensamentos.
___
Victor trajava um terno slim de um tom cinza perfeitamente alinhado ao seu corpo, sapatos sociais pretos e uma gravata de um tom quase preto, combinando com a parte interna do paletó.
As mãos trêmulas, suor escorrendo em suas costas, um sorriso que não podia conter nos lábios, genuinamente feliz. O leve cheiro floral das rosas que faziam parte da decoração que enfeitava todo o local — uma espécie de sítio, espalhados pelo ar.
O gazebo tinha um enfeite mais delicado e simples, propositalmente pensado para que o destaque fosse a noiva. Os convidados estavam de pé, os pescoços virados acompanhando uma entrada deslumbrante.
Uma garota de pele parda caminhava lentamente, com um vestido branco perfeito, justo ao corpo e incrivelmente bonito. Detalhes de rendas deixavam ele com um ar leve e ao mesmo tempo passava uma presença marcante. Ao seu lado, um homem de pele mais escura, completamente careca e óculos, vestindo um terno preto.
O sorriso do homem era contagiante, como se aquilo fosse completamente natural para ele — e o da mulher ao lado, a noiva da vez, não era diferente. Era um grande destaque visual dela, sem dúvidas.
A banda tocava a “marcha nupcial” e o ambiente era preenchido pelo som rítmico. O sol se punha no horizonte, criando uma cena cinematográfica. Fotógrafos se posicionavam e trocavam de lugar procurando os melhores ângulos para captar cada detalhe daquele momento único.
Pouco a pouco, Fernanda estava à entrada do arco, não conseguindo se desfazer da felicidade estampada no rosto e os olhos ardendo, prontos para derramar rios de lágrimas de emoção. Victor deu dois passos e encurtou a distância entre os três.
Josefino soltou o braço da filha para apertar a mão de Victor, que havia acabado de estendê-la. O sogro, sempre mais animado, puxou o noivo para um abraço apertado.
— Deixo ela em suas mãos, Victor. — Por mais que tentasse soar firme, a voz saiu embargada.
— Eu cuidarei dela, eu prometo! — respondeu, na mesma situação.
Se afastaram e pela primeira vez naquele dia, ele pôde contemplar a sua noiva, pelo menos tão de perto. Uma maquiagem leve, mas que deixava os olhos intensos da mulher destacados. Uma sombra que combinava perfeitamente com o seu tom de pele, soando quase natural.
— Você está linda. — declarou, de forma que somente ela pudesse ouvi-lo.
Apenas com a troca de olhares que seguiu foi o suficiente para fazer o coração dele bater muito mais forte do que já estava — não sendo por menos para ela. Ao tomá-la pela mão, caminharam até o padre, que aguardava para celebrar o casamento.
Uma enxurrada de sensações tomou ambos, tanto pelo momento quanto pela ansiedade do que viria a seguir. Em poucos minutos seriam oficialmente marido e mulher.
O tempo parecia desacelerar cada vez mais conforme se aproximavam do líder religioso. Apesar disso, os corações de ambos pareciam acelerar cada vez mais, batendo cada vez mais forte. E o mundo exterior parecia estático, como se todas aquelas pessoas assistindo fossem apenas um quadro sem vida. O mundo dele se resumia a ela e o dela a ele.
O padre realizou a cerimônia e o casal fez todas as promessas da cerimônia.
— (…) até que a morte nos separe.
Declararam ambos em uníssono, selando o voto com um beijo simples, contudo, recheado de sentidos, sentimentos e emoções.
Os espectadores explodiram.
Palmas, gritos e comemorações se misturaram num som alto e repentino. Uma alegria indescritível tomando conta dos mais recém-casados, contagiados pela euforia coletiva.
Mas…
Tudo ao redor ruiu e se despedaçou como uma vidraça, espalhando fragmentos pequenos por todos os lados. Tudo girou enquanto se dissolvia, violentamente, repentinamente, até que…
…
Victor piscou algumas vezes após abrir os olhos, enquanto sua visão se acostumava ao ambiente. Colocou uma mão na testa e suspirou.
— Acabei caindo no sono. — murmurou, então se levantou.
Conferiu o horário no telefone e foi até o banheiro lavar o rosto. Aquele último sonho foi aterrorizante de certa forma. O seu coração ficou inquieto e batia rápido, descompassado.
“Que momento para me lembrar disso…”
Quando voltou para a cama, sentou-se no colchão, ao lado da sua namorada, ainda a admirando dormir. Momentaneamente, imaginando-a vestida de noiva.
Seus pensamentos foram misturados e bagunçados. Ele tentou organizar sua mente, se acalmar.
O sonho ainda parecia vívido demais — quase como um flashback, como se estivesse revivendo o próprio passado, o seu antigo casamento.
Minutos antes disso, porém, ao acordar para ir ao banheiro, estava completamente tomado pela felicidade. Havia sonhado, mais uma vez, que estava no altar com Aki. E aquilo vinha se repetindo nos últimos dias. Já não era algo inédito.
Seu coração pulsava com um desejo ardente: ele queria, mais do que tudo, se casar com ela. De verdade. Sentia que isso seria um próximo passo importante para blindar ainda mais o relacionamento deles.
Às vezes, memórias de momentos desagradáveis que a fama proporcionava batiam à porta de seus sentimentos e ele entendia que poderia fazer mal para Aki — e se preocupava em como poupá-la disso.
Ao mesmo passo em que ele tinha medo de ser petulante, de estar indo rápido demais. Estava buscando um equilíbrio que parecia não chegar. As lembranças dolorosas de sua falecida esposa e filha também desequilibravam seu emocional em certos momentos.
“Talvez eu devesse procurar um psicólogo?”
Ponderou em certo momento, respirando fundo.
Deu uma última olhada na garota dormindo, tentando acalmar seu coração. Alguns minutos depois já estava dormindo novamente.
***
Victor estava em um templo. Alguns enfeites florais decoravam o interior. Próximo dele uma mesa com alguns papéis. Ao redor, alguns funcionários da Elegance Affairs, alguns funcionários e amigos que viajaram do Brasil para o Japão. Ele percebeu no meio do grupo o rosto de Matheus e de João Baptista.
Luzes frias iluminavam o ambiente, com um toque acolhedor. Todos olharam para trás quando o som de marcha nupcial começou a tocar. Diferente de antes, o som parecia distante e por vezes ecoava quase em silêncio. No momento em que ele olhou ao fundo, seu coração faltou explodir.
Aki entrava pelo caminho marcado, sozinha, trajando um vestido branco perolado. Os olhos âmbar se destacando em meio ao ornamento claro. O sorriso em seu rosto parecia guiar os sentimentos de Victor.
A cada passo, um sentimento inexplicável crescia no peito do brasileiro. Todas seus sentidos estavam diferentes, mais aguçados. Era como se conseguisse ouvir os sussurros de Aki, mesmo longe. Sentia o cheiro dela mesmo daquela distância. Seu corpo estava arrepiado ao sentir a leve brisa. Sua boca com um gosto que lembrava o morango. Tudo isso estava confuso demais para ele processar.
E, de repente, Aki parecia se afastar, por mais que desse passos em sua direção. Um frio atravessou sua espinha e ele tentou chamá-la, em vão. Tudo ao redor parecia estar se distorcendo, se esticando, como um túnel e a garota se distanciava. Tentou gritar o nome da japonesa novamente, mas não saiu som algum.
A brisa refrescante se tornou quente e os convidados já haviam desaparecido num borrão irreconhecível e distorcido. Vozes misturadas em sua cabeça falavam sem parar, impossível de discernir. Seu corpo tremia e suava como uma mina d’água.
Sentia-se como no centro de um redemoinho, com a visão turva e apenas um som agudo em seu ouvido, chiando, parecendo afundar cada vez mais. Ele estendeu a mão, tentando tocar uma Aki muito distante, até que…
Sentou-se abruptamente na cama, num salto assustado. Seu coração batia muito rápido e forte, fora de ritmo. Suas mãos encharcadas de suor.
“Que droga foi essa?!”
Pensou.
Olhou para a namorada, que dormia profundamente. Seu coração aquietou após alguns segundos admirando a garota e finalmente seu cérebro entendendo que estava tudo bem. Era um sonho.
“Depois de um sonho lindo com a Aki, sonho com a Fernanda… e agora sonho isso… minha cabeça está uma bagunça.”
Foi até a cozinha e bebeu um copo de água. Lavou o rosto também e foi até a janela e a abriu. Respirou um ar fresco da madrugada por alguns segundos e observou: o dia já estava quase amanhecendo.
Passou alguns minutos ali, pensando em muitas coisas, de uns meses para cá. Mais especificamente…
BAM!
Uma trombada acidental com uma garota na rua — era Aki.
Dali em diante, sua vida mudou completamente. Esse pequeno incidente foi um gatilho essencial para que os dois se aproximassem como colegas de trabalho, tornando-se amigos e namorados. Pensando melhor, era a mulher que ele precisava para estar ao seu lado ao resto da vida.
Pensamentos mistos, algo como: “então a Fernanda nunca foi nada?” passaram por sua mente, lhe dando um gosto amargo na boca. Victor, entretanto, agora resiliente e tentando encontrar uma nova forma de ver as coisas, logo encontrou uma resposta.
“Não! Não é isso. Eu queria ficar ao lado dela até o fim… e o fim chegou, infelizmente. A promessa era “até que a morte nos separe” e… aconteceu. Não há como mudar o passado.”
Observando as redondezas, pôde espairecer um pouco, quando determinou:
— É isso… a Aki agora é a mulher que eu amo e que eu quero ficar até o fim. Obrigado, Deus, destino, ou seja lá quem for o responsável, por me dar essa nova chance… a chance de ter minha nova vida no Japão. — falou, quase como se estivesse pensando alto.
Após comentar isso baixinho, imagens, como um filme, começaram a passar pela sua mente. Desde aquele esbarrão até os dias atuais, os principais momentos ao lado da garota.
O dia da chuva… onde ele a acompanhou até a casa dela e se resfriou depois de molhar-se um pouco, priorizando proteger ela das gotas geladas que caíam do céu. A sensação fria do vento forte batendo contra sua roupa e pele molhada era arrepiante. Contudo, isso gerou um momento importante: a primeira vez que ela foi até a casa dele — e até preparou um chá para ele.
Outras imagens passavam de momentos aleatórios até que… estavam em Nagano, naquela mini férias que o chefe Akashi lhes deu.
Momentos como a adega com o senhor Shouto até a madrugada na varanda com ela, onde viram a estrela-cadente. Além disso, passearam no parque e tiveram momentos muito divertidos juntos, onde Victor começou ver ela um pouco diferente — mesmo que inconscientemente. Até o momento em que Haru lhe deu aquele presente.
Nesse momento ele sai do pequeno transe e encara o próprio pulso: uma pulseira com desenhos de flores de cerejeiras e uma de miçangas azul e preta. Com isso, as imagens dele ganhando o presente e daquele primeiro abraço deles — o cheiro, o toque e a temperatura corporal dela. Tudo veio à tona e ele sorriu.
Logo, esqueceu disso, quando uma frase veio à sua mente: “doces ou travessuras?”. Sentiu que um rubor tinha subido ao seu rosto, lembrando-se da sua atuação nesse dia para entregar o presente.
“Onde eu estava com a cabeça”
Riu sozinho, mas feliz com o resultado final.
Um vento mais forte soprou e bateu em seu rosto e ele piscou algumas vezes. Mas aquele vento lhe trouxe uma nova lembrança:
A viagem ao Brasil com ela. Na primeira vez fizeram vários passeios, além dela ter conhecido seus amigos e seu irmão, além de funcionários da Pacca Consortium. Na segunda vez ainda, conheceu o Rio de Janeiro, puderam ir à praia juntos e… aquele momento deles.
“Victor… Eu acho que, eu estou pronta…”
A voz dela reverberou em sua mente e seu corpo arrepiou.
Isso foi um gatilho para lembrar-se do primeiro beijo que deram, quando os sentimentos de ambos irromperam veementemente declararam-se ambos um ao outro sob a luz do luar numa noite fria e cheia de emoções explosivas. O beijo, o toque dela, a sensação de seus lábios e o calor… ainda sentia isso nitidamente.
Foi quando percebeu algo: Aki e ele tiveram muitos momentos juntos, graças ao chefe Akashi. Brasil, França, Espanha, várias cidades e eventos dentro do Japão, inclusive Nagano… e então se lembrou da Jeanne, como a encontraram lá. Tal surpresa gerou uma série de desentendimentos e consequências, e a principal delas foi Victor perceber que precisava proteger seu relacionamento com Aki de forma definitiva e se mostrar ao mundo novamente.
Pensar em tudo isso levou alguns bons minutos e quando Victor percebeu, o sol já estava começando a raiar no horizonte.
Depois de analisar tudo isso que aconteceu, lembrar-se de tantos momentos com a garota, ele chegou a uma conclusão:
— É… eu preciso me casar com você, Aki. — murmurou, enquanto o sorriso bobo insistia em permanecer no seu rosto.
Voltou ao quarto e deitou, virando-se para ela e a abraçando, com o rosto colado ao dela.
— Eu te amo… — sussurrou.
Porém, o que sucedeu, o fez sentir que seu coração parou por um segundo…

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