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    08 de junho de 2024, sábado.

    Um lindo lugar, como um grande parque de cerejeiras, com as pétalas voando de um lado para o outro, como se dançassem ao vento. O sol brilhava no céu, apesar da temperatura estar agradável. A brisa soprava, trazendo o aroma das flores e um frescor adicional. 

    Um altar improvisado, numa espécie de pequeno palanque, ao centro do parque, estava adornado por uma decoração de tons claros e bem discretos. Aki, olhava ao redor, admirando isso tudo, quando viu vários rostos familiares: Akashi, Yumi, Sayuri, Helsing, Natsu, Fuyu, Haru, e vários outros. Amigos, familiares e parceiros de negócios mais chegados. 

    — Aki? 

    Uma voz muito familiar a chamou, fazendo-a sentir seu corpo quase travando. Virando-se, contemplou Victor ali. Ficou alguns segundos reparando cada detalhe. Trajava um terno de tom escuro, algo como um azul. Um sorriso raro estava estampado em seus lábios. 

    Foi então que percebeu como estava vestida: um vestido branco perolado e com um penteado lindo. Não teve tempo de processar todas essas informações, pois o casamenteiro começou a cerimônia. Palavras ditas que pareciam ficar carimbadas em seu coração, batendo tão rápido quanto ela pensava que podia. 

    Com cada palavra, frase e sentença ditas, sentia como se seu estômago fosse explodir. As famosas borboletas no estômago pareciam já não caber dentro de um espaço tão pequeno, segundo o que ela imaginava metaforicamente. 

    O pacto final foi dito e a resposta final…

    — Sim. Aceito!

    A euforia preencheu todo o lugar, numa explosão de gritos e aplausos. Uma chuva de arroz caiu sobre eles, com sorrisos inesquecíveis e incomparáveis sendo mostrados. As pernas pareciam não obedecer conscientemente enquanto uma sensação gélida e reconfortante atravessava a barriga. 

    Victor então a pegou no colo, fazendo uma nova onda de euforia explodir e mais arroz. O cheiro do perfume amadeirado do noivo fazendo seu corpo se encher de uma sensação familiar, porém exponencialmente mais intensa. 

    Tudo pareceu estar girando, de repente, e estavam agora numa sacada de um hotel à beira-mar. O azul profundo do céu misturando ao tom azulado do mar que se perdia no horizonte, se misturando aos tons celestes. O ar parecia salgado e úmido. 

    Olhou dentro dos olhos de Victor, que pareciam estar passando um filme. Então ele dizia juras de amor e um beijo intenso firmava aquelas promessas. Porém, repentinamente, agora estavam num parque. Uma criança corria até ela.

    — Mamãe! Quero ir ali!

    Ela não reconhecia o rosto da pequena, mas sabia tudo sobre ela ao mesmo tempo. Uma sensação estranha em sua mente. 

    — Vamos, filha! 

    A resposta veio automaticamente e então, na direção escolhida, pôde encontrar um Victor com uma aparência um pouco diferente do que estava lembrando. Entretanto, parecia extremamente normal para as duas. Estava com o cabelo mais curto e bem penteado para trás e uma barba aparada. 

    Ele se aproximou e abraçou ambas, dizendo “eu amo vocês”. 

    Tudo começou a se mover muito rapidamente, como um time-lapse. Aki via aquela garotinha crescendo de forma muito rápida, até se tornar uma mocinha. Trajando o uniforme da escola que ia mudando do primário ao fundamental e as sutis mudanças em sua feição, embora o rosto ainda fosse, de certa forma, indistinguível. 

    Sentia tudo tão agradável, tudo perfeito. Era como se nada tivesse faltado, nunca. Uma harmonia de sentimentos prazerosos e reconfortantes. 

    “Era tudo que eu sempre quis!” 

    Ela repetia mentalmente, ao lado de Victor. Ambos olhando o horizonte com o sol se pondo. 

    Contudo, esse momento mágico foi arrancado dela de forma imprevisível e cruel, quando tudo simplesmente começou a perder a cor. O som foi se perdendo, como um eco que se alongava, reverberando quase infinitamente enquanto diminuía gradualmente o volume. Tudo foi se apagando, desmanchando, até que…

    Ela abriu os olhos subitamente, o corpo tenso demais para quem acaba de acordar. Assim que sua mente estava voltando à realidade, processando que tudo tinha sido um sonho, sentiu seu coração quase explodir no peito de susto. 

    A primeira coisa que encontrou foram um par de olhos pretos que olhavam para ela. Com o momento, ela soltou um grito rápido. 

    — Victor, que susto! — exclamou, com a voz ainda embargada pela sonolência. 

    Os dois começaram a rir com a situação. Com o brasileiro não foi diferente, embora o seu susto tenha sido mais pelo grito em si. 

    — Me desculpa, Aki. 

    Victor pediu, sinceramente. Não era a sua intenção que isso ocorresse. 

    Alguns minutos passaram e tudo foi explicado e esclarecido, de ambos os lados — com exceção do segundo sonho de Victor, que ele não entrou em detalhes. Aquele sonho com a Fernanda. Fazia parte dele, entretanto, era uma parte que deveria ficar apenas guardada no fundo de sua alma, pelo menos, assim que ele pensava. 

    O desejo em seu coração agora ardia somente pela Aki. Tudo que ele já sentiu no passado, embora verdadeiro, era diferente do que sentia agora pela japonesa. Ambos eram desejos intensos e inquebráveis de proteger, cuidar e amar. Todo esse sentimento havia sido selado no altar diante de Deus, de um magistrado e de várias pessoas. 

    Porém… havia uma única regra que legalizava quebrar um elo selado no altar…

    A morte.

    Não o tempo. Não a distância. Não a dor… apenas ela.

    Silenciosa quando queria… mas, quando vinha, era absoluta. Imparável. Inevitável. 

    E ela veio… 

    Imprevisível. Violenta. Irreversível.

    Não pediu permissão. Não deu tempo para despedidas. Não respeitou promessas, votos ou futuros.

    Apenas tomou…

    E, naquele instante, tudo aquilo que havia sido jurado — diante da autoridade, de Deus, de testemunhas e de um futuro inteiro — foi despedaçado sem que ele pudesse fazer absolutamente nada.

    Não por escolha ou por fraqueza. Simplesmente porque havia forças neste mundo que não podiam ser enfrentadas, remediadas ou evitadas. 

    E foi assim que aquele elo… deixou de existir. Despedaçado como uma taça delicada, cristalina e elegante que cai ao chão e se torna como mil pedaços irreparáveis.

    E não havia nada que pudesse ser feito…

    O que restou foi apenas a saudade, a escuridão e a solidão que o luto trazia consigo, como um arauto do vazio e da tristeza. 

    “Até que a morte nos separe…” 

    Era isso. Ela separou. 

    […]

    O sonho ainda ecoava em sua mente. Imagens fragmentadas quase palpáveis. Não era como uma lembrança antiga, mas como uma ferida que, mesmo cicatrizada, ainda doía de certa forma. 

    Após relembrar seu passado como um vídeo passando em sua mente, algo dentro dele reagiu. Não medo. Não dor.

    Era um impulso bruto, visceral e, de certa forma, instintivo. Um desejo ardente de jamais permitir que aquilo se repetisse. 

    De nunca mais ficar impotente diante da perda. De proteger. Proteger com tudo o que tinha. Com tudo o que era. E tudo que lhe restava. 

    Balançando a cabeça para afastar esses pensamentos e forçando a si mesmo a pensar somente em coisas positivas, ele deu um sorriso sincero para Aki, ainda deitados de frente um para o outro. 

    Sua mão acariciou seu rosto delicadamente, por baixo de uma mecha de cabelo. O toque quente e macio de sua pele era reconfortante. Como uma âncora emocional para lhe trazer de volta à realidade. 

    Ela sorriu em resposta, sentindo que aquele gesto era intenso. Seu coração batia rápido e seus olhos brilhavam como duas pedras preciosas emolduradas num quadro raro e perfeito. 

    A japonesa não fazia ideia daquela torrente de emoções e pensamentos intensos — bons e ruins — que passavam pela cabeça do brasileiro naqueles momentos ali. Embora percebesse uma vaga diferença em seu olhar, Victor havia aprendido algo, que fazia muito bem: não demonstrar seus sentimentos de forma explícita. 

    — Eu te amo. 

    Ambos disseram, cada um no seu tempo. Foi o suficiente. A garota se aninhou entre os braços dele, sentindo toda a proteção que o corpo dele podia proporcionar. Sentindo o seu perfume, igual aquele que sentiu durante o sonho, seu coração bateu muito forte. Ela temeu que ele pudesse ouvi-lo. 

    Mas sinceramente feliz, agradecida e sentindo-se amada e protegida. 

    Ele, no entanto, sentiu-se como uma grande muralha que protegia uma cidade. O calor e o perfume floral dela lhe enchia de uma energia poderosa, dando-lhe a sensação que poderia enfrentar o mundo por ela. 

    “É… eu vou te proteger, Aki!” 

    Depois que amanheceu, Victor fez toda sua rotina diária. Aki não demorou a se levantar. Eles comeram juntos e, durante uma conversa casual, acabaram entrando no assunto dos sonhos. 

    Isso desencadeou outro assunto: o casamento deles. 

    Quando seria? Onde? Como seria a cerimônia? 

    Demoraram mais do que perceberam, enquanto analisavam supostas datas e a situação atual deles. 

    — Eu… acho que… poderíamos nos casar durante o outono… 

    Sua voz saiu quase falha, apesar de verdadeiramente feliz. 

    Victor sorriu. 

    — Uma ótima ideia! 

    Após anotar algo no celular, continuou: 

    — Então vamos ter que esperar até o próximo outono? — perguntou, com um tom de provocação. 

    Ela corou. 

    — Eu me casaria com você até hoje mesmo. — deixou escapar, de certa forma intencionalmente. Mas o rubor era visível nas suas bochechas. 

    — Você quer? 

    Victor segurou as mãos delas e a encarou nos olhos, com um tom completamente provocador. 

    — Q-quero. Eu quero sim. — respondeu, após engolir em seco. — Se pudéssemos, sim. Nós ainda nem nos noivamos. 

    Sua voz com certa melancolia. 

    Ele coçou a nuca, explicando algo que ambos já sabiam. Infelizmente, não era o momento certo… ainda. Diferentemente do desejo que o casal compartilhava, que ardiam como espadas numa forja. Esse dia ainda iria chegar, é claro… era o que eles queriam. E Victor, sinceramente, não pretendia prolongar por tanto tempo… não mais…

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