Notas de Aviso

    Contatos: https://linktr.ee/youkaimakai Doações pix: o.abismo.de.om@gmail.com

    Olgap sentiu-se no dever de explicar e convencer não apenas o cliente, mas a si mesmo, de que o sistema monetário era, segundo suas próprias palavras, inviolável.

    — Seguimos algumas etapas e garantimos total segurança em cada uma delas — argumentou o atendente.

    — E quais seriam? Quero acreditar que está certo — afirmou o escriba, enquanto sondava o átrio do salão de atendimento. Por sorte, nenhum outro cliente estava ali naquele instante.

    — Bem, como pode ver, eu sou responsável por compreender a demanda inicial de nossos clientes. A partir disso, os direciono para o setor adequado. Às minhas costas, como pode ver após o corredor, temos salas privadas onde a petição bancária é elaborada, atualizada ou encerrada. Cada atendente se reveza …

    — Eles são boas pessoas? O que eles fazem com a informação que coletam? — perguntou Benk, cortando a explicação.

    Olgap respirou.

    — São profissionais íntegros — disse o rapaz, controlando o melhor que podia a altura da voz. — As informações coletadas são apenas para que possam dar seguimento ao atendimento e ao cadastro do sistema ou para averiguar os dados já cadastrados.

    — E que dados coletam? — inquiriu o escriba, afoito.

    — Nome do progenitor, do requerente, endereço ou profissão, vínculo com guildas de ofício ou setores governamentais. E uma amostra de cabelo — concluiu ele. 

    Benk já sabia de todas essas informações; sua intenção não era entender os procedimentos, mas confirmá-los.

    — Que absurdo, como assim cabelo? Qual é o nome dos seus colegas? O que eles fazem com nosso cabelo? — perguntou o escriba, despejando questões sobre o trabalhador.

    — Calma — pediu o rapaz. — É um procedimento importante para proteger e garantir que apenas o proprietário possa manejar suas posses — explicou ele.

    — Deixe-me esclarecer — propôs Olgap.

    — Pois não — assentiu Benk.

    — Com os dados devidamente registrados, um de nossos colegas — Helga, Corfet, Tondor ou Korg — cadastra o formulário e ativa o selo no orbe. Essa etapa é importante, pois o selo se adapta à identidade do portador. Esse selo é então fixado no formulário de requisição e encaminhado para a Câmara Forte, onde os documentos de posse são confeccionados e ativados.

    — Não entendi o motivo de precisarem do cabelo! — pressionou Benk.

    — É para que o orbe reconheça o portador — tentou explicar Olgap. — Mas não precisa ser o cabelo; uma gota de sangue ou amostra de pele pode ser usada para isso.

    — Vocês usam nosso sangue? Em nome dos sagrados dragões, que ritual maligno é esse? — esbravejou Benk, dissimulando os sentimentos teatralmente.

    O escriba sabia que era de conhecimento comum que os adoradores do credo dracônico eram tidos, em geral, como pessoas desconfiadas e relativamente paranoicas com relação aos ritos mágicos.

    Compreendendo a situação, o atendente assumiu um semblante apaziguador.

    — Não se preocupe, não tem nada de maligno ou perigoso. É apenas o procedimento para que o documento de posse possa ser utilizado exclusivamente por seu dono legítimo.

    — Como assim? — perguntou Benk, ainda em tom alterado.

    Gesticulando, Olgap tentou acalmá-lo.

    — Assim que registramos os dados no nosso livro de arquivo e damos entrada, preenchemos o formulário e anexamos o selo de identidade. O portador, quando estiver com o seu documento em mãos, poderá acessar sua conta em qualquer Casa da Moeda do Reino Antigo e manejar seus recursos. Cada centro monetário está amparado com ao menos um orbe de cristal. Esse equipamento está conectado ao banco central, aferindo e atualizando todo o histórico e registro de posse de nosso cliente. Todas as trocas, retiradas ou depósitos podem ser concretizadas em nossas filiais, não importa em que estado o portador more ou esteja.

    Benk observou o atendente em seu esforço profissional. Parecia que nada havia mudado, refletiu o escriba.

    — E quanto custa abrir uma conta? Como posso registrar meu cavalo nessa folha que diz que recebo? — perguntou o escriba para confirmar uma última coisa.

    Retomando o ânimo, Olgap explicou:

    — O custo padrão é uma moeda de ouro do Estado de Palard — informou o rapaz.

    — Quanto ao animal que lhe pertence, um de nossos emissários irá pessoalmente até a sua residência para registrá-lo e firmar a sua propriedade. Um selo sobre a pele de seu cavalo irá marcar o vínculo dele como parte de seus recursos, estando então apto a trocá-lo, vendê-lo ou emprestá-lo, e isso será registrado imediatamente em seu documento de posse.

    — Está insinuando que meu cavalo vai ser marcado com magia?
    Olgap engoliu em seco.

    — É o procedimento padrão, senhor.

    O escriba encarou o atendente com um olhar de desprezo.

    — Inadmissível — contestou Benk. — Obrigado pelas informações e pela prestatividade.

    Com um aceno de cabeça, virou as costas e se retirou, ouvindo apenas a seguinte frase do pobre rapaz que cumpriu seu dever:
    — Eu que agradeço. Estamos sempre à sua disposição — respondeu o frustrado Olgap, ainda sem conseguir entender ao certo o que tinha acontecido.

    O relato de Benk em relação à Casa da Moeda deixou Pelk apreensivo.

    — É arriscado demais! Como pretende entrar no prédio com uma segurança tão pesada na região?

    O escriba não respondeu. Estava concentrado na elaboração das runas de mais um selo.

    — Benk! — exclamou Pelk, irritado, exigindo sua atenção.

    — Eu sei que consigo — respondeu ele, em tom baixo e calmo.

    — É melhor eu ir jun…

    — Não!

    Benk cortou a proposta de Pelk antes mesmo que ele a concluísse.

    O mago fechou o semblante e cerrou os punhos.

    — Mas…

    — Pelkdoc!

    A voz de Benk não transmitia raiva, apenas plena consideração estratégica.

    O silêncio preencheu o quarto enquanto ambos cultivavam o impasse da situação internamente.

    Depois de algumas ampulhetas, o escriba estendeu o pedaço retangular de papel em direção ao amigo.

    Pelk o recebeu, forçou os olhos frente à escuridão impeditiva, mas conseguiu ler o conteúdo.

    A intensidade que reverbera no impacto com o verso do inverso deve conter o que emana em som e tecer o que permanece em silêncio. O contato une o igual e com ele mantém harmonia. Que seja a paz que transcorre em serenidade e detenha a vibração que em nulo não faça alarde. Ausência presente, seja absoluta calmaria.  

    — O que é isso? — perguntou o mago, que, apesar de compreender o que leu, não entendeu o que significava.

    — Por enquanto, apenas palavras — respondeu o amigo, e após um breve suspiro, solicitou:

    — Ative o selo, Pelk, vamos ver se funciona — orientou Benk.

    Após preencher o papel adequadamente com mana, o mago devolveu-o.

    O escriba pegou os instrumentos metálicos utilizados para destrancar fechaduras, colocou-os sobre o papel, dobrou a ponta na borda e conectou a runa de ativação ao circuito rúnico principal. Apenas isso.

    Benk respirou fundo e soltou das mãos os objetos, que, obedecendo à lógica, caíram normalmente em direção ao chão, amparados apenas pelo fino pedaço de papel, e chocaram-se contra o assoalho como se ali sempre tivessem estado, sem emitir um único ruído sequer.

    — O que aconteceu? — perguntou Pelk, incrédulo.

    Benk relaxou os ombros sem desviar os olhos das hastes de metal no chão.

    — Acho que estou pegando o jeito — respondeu com alívio, permitindo que a satisfação percorresse discretamente através da convicção.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota