Notas de Aviso
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Capítulo 35. Dedos Dourados 13
Olgap sentiu-se no dever de explicar e convencer não apenas o cliente, mas a si mesmo, de que o sistema monetário era, segundo suas próprias palavras, inviolável.
— Seguimos algumas etapas e garantimos total segurança em cada uma delas — argumentou o atendente.
— E quais seriam? Quero acreditar que está certo — afirmou o escriba, enquanto sondava o átrio do salão de atendimento. Por sorte, nenhum outro cliente estava ali naquele instante.
— Bem, como pode ver, eu sou responsável por compreender a demanda inicial de nossos clientes. A partir disso, os direciono para o setor adequado. Às minhas costas, como pode ver após o corredor, temos salas privadas onde a petição bancária é elaborada, atualizada ou encerrada. Cada atendente se reveza …
— Eles são boas pessoas? O que eles fazem com a informação que coletam? — perguntou Benk, cortando a explicação.
Olgap respirou.
— São profissionais íntegros — disse o rapaz, controlando o melhor que podia a altura da voz. — As informações coletadas são apenas para que possam dar seguimento ao atendimento e ao cadastro do sistema ou para averiguar os dados já cadastrados.
— E que dados coletam? — inquiriu o escriba, afoito.
— Nome do progenitor, do requerente, endereço ou profissão, vínculo com guildas de ofício ou setores governamentais. E uma amostra de cabelo — concluiu ele.
Benk já sabia de todas essas informações; sua intenção não era entender os procedimentos, mas confirmá-los.
— Que absurdo, como assim cabelo? Qual é o nome dos seus colegas? O que eles fazem com nosso cabelo? — perguntou o escriba, despejando questões sobre o trabalhador.
— Calma — pediu o rapaz. — É um procedimento importante para proteger e garantir que apenas o proprietário possa manejar suas posses — explicou ele.
— Deixe-me esclarecer — propôs Olgap.
— Pois não — assentiu Benk.
— Com os dados devidamente registrados, um de nossos colegas — Helga, Corfet, Tondor ou Korg — cadastra o formulário e ativa o selo no orbe. Essa etapa é importante, pois o selo se adapta à identidade do portador. Esse selo é então fixado no formulário de requisição e encaminhado para a Câmara Forte, onde os documentos de posse são confeccionados e ativados.
— Não entendi o motivo de precisarem do cabelo! — pressionou Benk.
— É para que o orbe reconheça o portador — tentou explicar Olgap. — Mas não precisa ser o cabelo; uma gota de sangue ou amostra de pele pode ser usada para isso.
— Vocês usam nosso sangue? Em nome dos sagrados dragões, que ritual maligno é esse? — esbravejou Benk, dissimulando os sentimentos teatralmente.
O escriba sabia que era de conhecimento comum que os adoradores do credo dracônico eram tidos, em geral, como pessoas desconfiadas e relativamente paranoicas com relação aos ritos mágicos.
Compreendendo a situação, o atendente assumiu um semblante apaziguador.
— Não se preocupe, não tem nada de maligno ou perigoso. É apenas o procedimento para que o documento de posse possa ser utilizado exclusivamente por seu dono legítimo.
— Como assim? — perguntou Benk, ainda em tom alterado.
Gesticulando, Olgap tentou acalmá-lo.
— Assim que registramos os dados no nosso livro de arquivo e damos entrada, preenchemos o formulário e anexamos o selo de identidade. O portador, quando estiver com o seu documento em mãos, poderá acessar sua conta em qualquer Casa da Moeda do Reino Antigo e manejar seus recursos. Cada centro monetário está amparado com ao menos um orbe de cristal. Esse equipamento está conectado ao banco central, aferindo e atualizando todo o histórico e registro de posse de nosso cliente. Todas as trocas, retiradas ou depósitos podem ser concretizadas em nossas filiais, não importa em que estado o portador more ou esteja.
Benk observou o atendente em seu esforço profissional. Parecia que nada havia mudado, refletiu o escriba.
— E quanto custa abrir uma conta? Como posso registrar meu cavalo nessa folha que diz que recebo? — perguntou o escriba para confirmar uma última coisa.
Retomando o ânimo, Olgap explicou:
— O custo padrão é uma moeda de ouro do Estado de Palard — informou o rapaz.
— Quanto ao animal que lhe pertence, um de nossos emissários irá pessoalmente até a sua residência para registrá-lo e firmar a sua propriedade. Um selo sobre a pele de seu cavalo irá marcar o vínculo dele como parte de seus recursos, estando então apto a trocá-lo, vendê-lo ou emprestá-lo, e isso será registrado imediatamente em seu documento de posse.
— Está insinuando que meu cavalo vai ser marcado com magia?
Olgap engoliu em seco.
— É o procedimento padrão, senhor.
O escriba encarou o atendente com um olhar de desprezo.
— Inadmissível — contestou Benk. — Obrigado pelas informações e pela prestatividade.
Com um aceno de cabeça, virou as costas e se retirou, ouvindo apenas a seguinte frase do pobre rapaz que cumpriu seu dever:
— Eu que agradeço. Estamos sempre à sua disposição — respondeu o frustrado Olgap, ainda sem conseguir entender ao certo o que tinha acontecido.
…
O relato de Benk em relação à Casa da Moeda deixou Pelk apreensivo.
— É arriscado demais! Como pretende entrar no prédio com uma segurança tão pesada na região?
O escriba não respondeu. Estava concentrado na elaboração das runas de mais um selo.
— Benk! — exclamou Pelk, irritado, exigindo sua atenção.
— Eu sei que consigo — respondeu ele, em tom baixo e calmo.
— É melhor eu ir jun…
— Não!
Benk cortou a proposta de Pelk antes mesmo que ele a concluísse.
O mago fechou o semblante e cerrou os punhos.
— Mas…
— Pelkdoc!
A voz de Benk não transmitia raiva, apenas plena consideração estratégica.
O silêncio preencheu o quarto enquanto ambos cultivavam o impasse da situação internamente.
Depois de algumas ampulhetas, o escriba estendeu o pedaço retangular de papel em direção ao amigo.
Pelk o recebeu, forçou os olhos frente à escuridão impeditiva, mas conseguiu ler o conteúdo.
A intensidade que reverbera no impacto com o verso do inverso deve conter o que emana em som e tecer o que permanece em silêncio. O contato une o igual e com ele mantém harmonia. Que seja a paz que transcorre em serenidade e detenha a vibração que em nulo não faça alarde. Ausência presente, seja absoluta calmaria.
— O que é isso? — perguntou o mago, que, apesar de compreender o que leu, não entendeu o que significava.
— Por enquanto, apenas palavras — respondeu o amigo, e após um breve suspiro, solicitou:
— Ative o selo, Pelk, vamos ver se funciona — orientou Benk.
Após preencher o papel adequadamente com mana, o mago devolveu-o.
O escriba pegou os instrumentos metálicos utilizados para destrancar fechaduras, colocou-os sobre o papel, dobrou a ponta na borda e conectou a runa de ativação ao circuito rúnico principal. Apenas isso.
Benk respirou fundo e soltou das mãos os objetos, que, obedecendo à lógica, caíram normalmente em direção ao chão, amparados apenas pelo fino pedaço de papel, e chocaram-se contra o assoalho como se ali sempre tivessem estado, sem emitir um único ruído sequer.
— O que aconteceu? — perguntou Pelk, incrédulo.
Benk relaxou os ombros sem desviar os olhos das hastes de metal no chão.
— Acho que estou pegando o jeito — respondeu com alívio, permitindo que a satisfação percorresse discretamente através da convicção.

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