Índice de Capítulo

    Estou revisando, refazendo e remodelando todos os capítulos iniciais de “O que eu deixei para trás?”. Então, já peço desculpas caso vocês percebam uma mudança drástica de qualidade entre os primeiros capítulos e os que virão em seguida.

    Quero trazer a melhor versão possível da obra para o Volume 1 físico, que sairá em breve. Por isso, vou tentar concluir toda essa melhoria o quanto antes e peço a compreensão e paciência de vocês durante esse processo.

    Muito obrigado pelo apoio de sempre. Vocês são o que me motiva a continuar escrevendo todos os dias!

    — Malditos desgraçados… — murmurou. — Não se contentaram em matar. Fizeram questão de fazê-los sofrer até os últimos segundos de vida.

    Seu olhar deslizou lentamente pelos restos das construções ao redor.

    — Já chega. Saiam logo da toca, seus covardes de merda.

    O silêncio durou apenas um momento.

    Tchuf.

    Um passo fincou-se na neve atrás de cada um deles e, sem qualquer aviso, três silhuetas apareceram, fechando um triângulo ao redor do grupo.

    Diante da presença esmagadora que emanava daqueles homens, um desconforto percorreu a espinha de Louie. Os pelos se arrepiaram. Seu instinto gritava para que fugisse.

    “E-esses são os Sexvetr…? A aura deles consegue ser ainda mais pesada que a daquele que estava com o Akun…”

    — Há quanto tempo, Vidar e Eirik. — A voz era peçonhenta e desagradável. — Vejo que cresceram bastante desde a última vez que nos vimos.

    Um homem de pouco mais de um metro e oitenta os rodeava com passos confiantes. Seus cabelos eram curtos e escuros; os olhos, negros como breu.

    — Sentiram saudades? — Sorriu de forma assombrosa, com os lábios deformados por uma grande cicatriz rugosa que se estendia da testa até o pescoço.

    Eirik estalou a língua, cerrando os punhos com força.

    — Ljórr, Rei da Aurora Boreal. Faz tempo. Soube que venceu Vakngrim e conquistou o posto de Rei entre os Reis do Inverno. Não sou tão bom em piadas quanto o Akun, mas me sinto obrigado a dizer… — Apontou para a cicatriz no rosto do Jötnar. — Teu rosto tá bem acabado. Me pergunto se alguma mulher aceitaria dormir com uma aberração dessas.

    A expressão de Ljórr foi do veneno à fúria em um piscar, mas, antes que tivesse a chance de devolver a alfinetada, uma gargalhada veio da direita.

    — Nós é que deveríamos fazer uma pergunta. Afinal, depois de vinte anos, como um mísero soldado como você conseguiu virar o Conselheiro-chefe?

    Quem tomou a palavra foi um gigante com mais de seis metros de altura. Sua pele era escura como carvão; os cabelos, vermelhos como lava.

    — Vallheim Vestrak deve ter decaído mais do que eu imaginava para confiar esse cargo a um dissidente como você. — Estampava o mais puro desprezo.

    — Eldgrim, o Rei das Chamas… — Eirik ergueu a mão até a máscara e começou a retirá-la lentamente.

    Aos poucos, sua face se revelou. Nela, duas tatuagens em forma de interrogações deitadas contornavam seus olhos, transformando o símbolo da dúvida no do infinito.

    — Céticos como vocês e os antigos líderes destas terras, que lutam há séculos guiados por certezas, sem jamais questioná-las, estão aquém de compreender o verdadeiro sentido da própria existência.

    Encarou o Jötnar, vestido apenas com uma calça de peles. De suas costas, emergia uma longa corrente incandescente. Em uma extremidade, havia um grande anzol; na outra, uma esfera de ferro coberta por espigões.

    — Vocês não passam de porcos ignorantes, escolhendo seguir uma trilha traçada rumo ao próprio matadouro.

    — Tsk — cerrou os dentes — tá afim de morrer seu desgraça—

    — Oh, seus filhos da puta! — Cortou a terceira figura, do lado oposto — vocês falam demais.

    Era, de longe, o mais alto e parrudo dos três. Tinha a pele branca como papel e os cabelos curtos, azuis como o oceano.

    — Não aguento mais ouvir essa conversa fiada. — Em uma das mãos, empunhava uma grande âncora feita de água, com mais do que o dobro de seu tamanho. — Calem a boca e vamos lutar!

    Sua impaciência transbordava como as águas revoltas de uma enchente.

    — Concordo com Unngrim. Já conversamos o suficiente! — disse Ljórr.

    Vidar e Eirik trocaram um rápido olhar, sem proferir uma única palavra. Ainda assim, entenderam perfeitamente um ao outro e, no mesmo instante, cercaram Louie, posicionando-se de costas para ele.

    O garoto percebeu, naquele simples movimento, que estava sendo protegido.

    — “Aqui só tem três deles. Será que os outros também se dividiram? Ou ficaram escondidos onde estão Akun e Leirgrim? Porra… vê se não morre, Akun.” — O dedo indicador do Conselheiro-chefe brilhava. — Vidar. Prefere ficar com Ljórr ou com os dois grandalhões?

    O guardião sorriu. Uma pelagem branca cobriu seu braço esquerdo, enquanto outra, negra, envolveu o direito, transformando ambas as mãos em enormes garras.

    — Eu fico com os dois!

    Ljórr jogou os cabelos pretos para trás e afirmou:

    — Hoje, diferente de vinte anos atrás, vamos reivindicar as terras que são nossas por direito!

    Assim que a última palavra deixou seus lábios, uma auréola cintilante manifestou-se acima da cabeça de Ljórr.

    Fitas multicoloridas serpentearam o aro, alternando suas tonalidades em um fluxo incessante. O azul cedeu lugar ao amarelo, que se aqueceu em laranja até tornar-se um intenso escarlate.

    O corpo do Rei da Aurora Boreal reagiu à mudança de cor. Sob sua pele, músculos e ossos expandiram-se, enquanto veias escarlates marcavam seus braços e pernas. Ao mesmo tempo, suas íris tingiram-se do mesmo tom, refletindo a imensidão do céu noturno agora vermelho como o inferno.

    Crack.

    O solo afundou ao sentir seu novo peso.

    — Aí vou eu, Eirik!

    Diante do aviso de seu oponente, o conselheiro-chefe, com os dedos indicador e médio reluzindo, desenhou uma runa no ar e cochichou:

    Acelerar.

    BOOM!

    Em um único impulso, Ljórr desapareceu. No momento seguinte, já estava a poucos metros deles, com um soco revestido pela luz da aurora engatilhado.

    Em paralelo, Eldgrim fez a gigantesca corrente incandescente girar, fazendo-a riscar o ar e descrever um círculo de fogo antes de lançá-la contra Vidar como um meteoro em chamas.

    Do lado oposto, Unngrim dobrou os joelhos e saltou, atravessando os céus com sua imensa âncora de água em mãos, fazendo-a despencar sobre eles.

    Os ataques avançavam simultaneamente.

    Louie congelou. Mesmo que sua mente acompanhasse-os, seus pés recusavam-se a recuar.

    “Merda! Se os três golpes vierem de direções diferentes, nem mesmo eles vão conseguir par—”

    Antes que concluísse o próprio pensamento, sua atenção recaiu em Eirik, que, mesmo diante daquela situação, permanecia estranhamente calmo.

    Afinal, nem o garoto imaginava o que viria a seguir.

    Pois, atrás dele, um ponto de interrogação acendeu-se no alto. De seus traços, faixas cobertas por escritas indecifráveis emergiram, serpenteando pelo ar até envolverem a garganta do Conselheiro-chefe.

    Que, mesmo em tamanha velocidade, cochichou:

    — Bem melhor. — Sorriu.

    “E-espera… como ele está falando? Nós estamos muito mais rápidos que o som. Então como ainda consigo ouvir a voz dele?”

    Indiferente a Louie, ele ergueu a mão direita e, com um movimento perfeitamente preciso, desenhou uma runa no próprio espaço. Assim que a concluiu, declarou:

    Incerteza.

    Novas tiras emergiram e dobraram o espaço, deformando-o.

    Naquele instante, os golpes chegaram.

    BOOOOOOOOOOM!!!

    O impacto fez a terra estremecer. Gigantescas rachaduras abriram-se sob os pés do grupo, espalhando-se por centenas, até milhares, de metros.

    Entretanto, fosse o punho de Ljórr, a esfera de Eldgrim ou a âncora de Unngrim, todos tiveram seu avanço interrompido por uma barreira invisível, que separava os três de Louie, Vidar e Eirik.

    Ainda forçando o soco, Ljórr não conseguiu esconder a surpresa.

    — O quê…? — Não importava o quanto tentasse, seu corpo não avançava um centímetro sequer. — “Quando essa coisa apareceu?”

    Acima e ao lado, Unngrim e Eldgrim despejavam ainda mais força em seus ataques, ignorando a chuva de faíscas que surgia do contato entre seus golpes e a distorção.

    — AAAAAAAAAAH!! MORRAM!!! — gritaram em uníssono.

    O solo abaixo continuava a ceder.

    No centro daquele caos, Eirik continuava imóvel. Seus cabelos azuis sequer balançavam. Com uma leveza assustadora, ergueu novamente os dedos e desenhou sobre a própria realidade.

    Quando Ljórr entendeu, já era tarde demais.

    — Esperem! Não forcem mai—

    Dispersar. — A voz do conselheiro o interrompeu.

    Junto à palavra, novas faixas feitas de interrogações compactaram-se e romperam, fazendo com que toda a energia contida naquela região se dispersasse.

    VRUUUUUOOOOOOM!!!

    Uma onda de choque explodiu em todas as direções, arrancando violentamente a terra do solo.

    Tudo ao redor foi varrido. Ruínas, casas e montanhas de neve foram completamente evaporadas por mais de dez quilômetros.

    Os gigantes não tiveram destino diferente.

    Ljórr, mesmo cravando os pés no terreno, foi arrastado como um projétil luminoso através de dezenas de construções.

    Já Eldgrim e Unngrim, pegos de surpresa, foram lançados para ainda mais longe.

    Somente quando o estrondo finalmente cessou e o silêncio voltou a dominar o campo de batalha, Louie conseguiu recuperar o fôlego.

    — Que… merda foi essa?

    — O meu poder — respondeu o Conselheiro-chefe.

    Runas do Existir

    (Místico, fé em ⦓ ? ⦔, o Escritor da Realidade)

    Poder concedido por ⦓ ? ⦔, uma existência que não existe: seu nome jamais existiu na história, registros ou na mitologia nórdica, tornando sua identidade desconhecida por tudo e todos.

    Ao invocar sua fé, uma interrogação negra envolta por faixas de símbolos indecifráveis surge atrás do usuário, que escreve runas diretamente na realidade com qualquer parte do corpo.

    Cada runa possui um efeito único sobre o usuário, alvo ou ambiente. Seu significado só é descoberto após o primeiro uso e, para reutilizá-la, é preciso memorizar perfeitamente seu desenho e função. Novas runas podem surgir espontaneamente em momentos cruciais, mas seus efeitos permanecem desconhecidos até serem usados.

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    ‼️Limitação/Potencialização‼️

    quanto mais runas forem descobertas e memorizadas, maior o domínio sobre a realidade. O número de runas ativas depende das runas conhecidas e da força mental; exceder esse limite pode fazer o cérebro explodir, e manter muitas runas ativas aumenta o desgaste mental.

    Limite atual de Eirik Kaldrun (100%): 3 runas simultâneas.

    Demorou alguns segundos para a poeira baixar.

    Onde antes existiam ruas, casas e bairros, restava apenas uma extensão de terra destruída, sob um céu noturno que sofrera o mesmo destino.

    Ainda paralisado, o coração de Louie batia tão rápido que quebrava até mesmo a quietude que se instalara após o evento.

    Sua visão percorria tamanha ruína, incapaz de acreditar que, com um único gesto, o homem ao seu lado havia erradicado tudo até um horizonte distante.

    “Ele é muito mais forte do que eu esperava…” Fixou-se no sujeito de pupilas acinzentadas. “Então essa… é a verdadeira força que um Kaelum pode alcançar?”

    — Você mandou aqueles dois pra bem longe, então já vou indo atrás deles. — disse Vidar, com os longos cabelos prateados amarrados para trás. — Cuida bem do garoto, Eirik.

    — Só se preocupe com o seu trabalho aqui. — Suspirou. — E vê se tenta não morrer.

    O guardião hesitou por um momento.

    — E por que eu não tentaria não morrer? — Sua expressão revelava a mais sincera confusão.

    — Só vai logo!

    — Você e o Akun falam coisas complicadas.

    Assim, em um único salto, Vidar sumiu da vista dos dois, seguindo na direção para onde Eldgrim e Unngrim haviam sido lançados.

    Com o corpo mais leve, agora livre da pressão, Louie caiu sentado no chão.

    — Uff, pensei que ia morrer. — Virou-se para o conselheiro-chefe. — Posso perguntar uma coisa?

    — Não. — A resposta veio seca.

    — Sobre esses caras… vocês já se conhecem, né? — Contínuou, ignorando completamente Eirik. — Fiquei curioso depois de ver vocês conversarem tanto. Pode me contar de onde?

    — Eu tinha dito que não… — Ao encarar o jovem, viu um brilho de curiosidade que não se apagaria, independentemente de quantos nãos ouvisse. — Que pé no saco. Por acaso tu tem algum parentesco com o Akun? Vocês dois são insuportáveis de um jeito bem único.

    — Olha, não sei muito sobre o meu passado. Mas acho que não… — Tocou o queixo, fazendo pose de pensador. — Ou talvez sim?

    — Ahhhh, que inferno. — Reclamou pela segunda vez, desistindo de vez de fugir.

    Ao longe, a figura de Ljórr caminhava em direção aos dois. Apesar de as roupas terem se rasgado, seu corpo se mantinha intacto.

    Eirik fitou-o antes de falar com Louie.

    — Vamos fazer assim. Recue um pouco por agora. Caso sobrevivamos, talvez eu possa te contar essa história com mais detalhes. Satisfeito?

    — Nem tanto.

    — Puta merda. Você tem uma impressionante habilidade de irritar as pessoas, garoto. — Murmurou. — Agora só se afasta.

    Louie obedeceu.

    Eirik, por sua vez, deu um passo à frente para receber o Rei da Aurora Boreal.

    A conversa havia chegado ao fim; já a luta, recém começada.

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    CURIOSIDADE 24:

    O motivo de Eirik conseguir falar mesmo se movendo a uma velocidade muito superior à da propagação do som é a runa Acelerar.

    Ao escrever seu símbolo de ativação sobre o tecido do espaço, Eirik manipula a realidade para acelerar um aspecto interno ou externo do próprio corpo. Quando aplicada à sua voz, a runa aumenta a velocidade de propagação das ondas sonoras, permitindo que sua fala acompanhe seus movimentos mesmo em velocidades nas quais o som normalmente não conseguiria alcançá-los.

    Imagem com algumas das runas que Eirik é capaz de invocar:

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    CURIOSIDADE 25:

    O evento ocorrido há 20 anos, mencionado diversas vezes neste capítulo, refere-se à última grande invasão dos Jötnar contra a cidade de Vallheim Vestrak. Os detalhes desse acontecimento serão explorados nos próximos capítulos.

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    Decifrando palavras e conceitos

    Dissidente: indivíduo que rompe com uma ideologia, grupo, organização ou autoridade à qual antes pertencia, passando a discordar ou agir contra seus antigos aliados.

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