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    O chão tremeu.

    Anayê quase perdeu o equilíbrio e quase ficou surda com o estrondo, tão alto, tão violento.

    Os escravos pararam. Os guardas pararam.

    Lentamente, ela virou o rosto para o leste e um frio escalou sua espinha com a visão. A torre do maquinário estava se desfazendo em meio à carvão e fumaça.

    Anayê apertou os olhos, pois aquilo era um acontecimento impossível naquele lugar, principalmente naquele lugar.

    E até então, tinha sido um dia como qualquer outro. Imensas nuvens cinzentas borravam o céu quando ela foi servida com a mesma sopa com gosto de terra de manhã. Se sentara em silêncio numa das muitas rodas de escravos e depois começara a trabalhar.

    Se você se comportar poderá até conseguir ser uma escrava na torre principal, seu irmão sempre dizia. Um dia, poderá até ser um deles e governar ao invés de ser governada.

    Com oito anos, Anayê vira o sol, céu e a liberdade pela última vez. Seu vilarejo foi invadido e destruído por uma aberração. Ela, o irmão e outras crianças sobreviventes foram levadas para serem escravas na fortaleza de Astaroth. Desde então, haviam se passado dez anos. Anayê e o irmão foram doutrinados a obedecer por meio do sofrimento e da violência. Eram obrigados a recitar um poema em honra a Astaroth todas as noites como um lembrete de que suas vidas pertenciam ao grande lorde. Já no segundo dia, suas testas foram marcadas com a runa de Astaroth. Ela recordava tão bem da dor que parecia senti-la de novo quando sucumbia a essa lembrança.

    Tudo o que ela encontrara dentro daqueles muros era humilhação, violência e medo.

    Poucos instantes antes da queda do maquinário, um magg agarrara seu cabelo e a jogara no chão.

    Ela ralou os braços na queda e sua camisa amarrotada ganhou um novo buraco. 

    Numa poça formada há pouco mais de um dia, Anayê vislumbrou rapidamente seu reflexo. Os cabelos encaracolados estavam embaraçados e imundos, o rosto magro tinha cicatrizes de cortes, mas os olhos púrpuras ainda se destacavam no meio daquela bagunça. 

    E assim que se colocou de pé, o estrondo cheio aos seus ouvidos.

    Por um instante, ninguém reagiu. Nem os guardas, nem os escravos.

    Só silêncio.

    Então vieram os murmúrios.

    E o medo.

    E algo mais.

    Anayê ponderou consigo. Era uma oportunidade? Seu instinto respondeu afirmativamente. Agarrou um pedaço de rocha e atacou o magg a sua frente.

    Pego de surpresa, o grande e rechonchudo vigia tonteou e quase caiu. Isso bastou para que ela ganhasse o terreno usando toda a sua energia para correr. O magg girou nos calcanhares para descobrir quem tivera tamanha ousadia, mas a atitude de Anayê acabou desencadeando um segundo ataque de outro escravo. Rápidos. Desesperados.

    Até que o magg não se moveu mais.

    Anayê mergulhou no meio do pandemônio. Pessoas corriam desesperadas, maggs eram atacados por grupos, gritos se misturavam com exclamações de raiva. Seu coração batia rápido demais enquanto ela era devorada por um tipo diferente de desespero.

    De repente, seus olhos cruzaram com uma entrada para o esgoto. Era arriscado demais. Mas sua única chance.

    No pandemônio, ninguém percebeu uma jovem adentrando a passagem.

    Anayê correu até seu pulmão suplicar por descanso. E, mesmo assim, não parou. 

    Mantinha em mente que não podia relaxar enquanto não cruzasse a fronteira. Qualquer descuido significava voltar a escravidão e isso era inaceitável. Nunca mais retornaria para fortaleza e para a vida de chicote e ordens. Preferia a morte.

    O odor no esgoto era insuportável. Era tão difícil respirar ali embaixo que ela precisou rasgar um pedaço da manga da camisa para colocar no rosto. 

    Conforme avançava, mais o corredor se estreitava, chegando ao ponto em que foi obrigada a engatinhar. Refém da escuridão e do medo, ela continuou agarrada a um fio de esperança e expulsava qualquer pensamento que surgisse questionando se aquele túnel teria fim ou se o tamanho da passagem seria suficiente. 

    “Em frente, em frente”, repetia para si mesma. 

    A imagem de seu irmão com longos cabelos compridos e corpo magricelo assaltou sua mente de repente. O que está fazendo? Lembre-se, não cause problemas.

    Mas Anayê deu de ombros e continuou.

    Quando eles te pegarem…

    — Cale a boca! — ela gritou.

    E então, de repente, entalou. 

    O coração disparou ainda mais rápido. Forçou o corpo. Não avançou.

    — Por favor… — ela sentiu os olhos lacrimejarem.

    Empurrou com força.

    Mais uma vez.

    E passou.

    Finalmente, enxergou um pequeno facho de luz. E, mesmo pequenina, aquela fresta de claridade encheu seu coração de tão inestimável alegria que foi impossível conter as lágrimas. A moça acelerou evitando o choro e saiu próxima da borda de um rio.

    Anayê caiu ajoelhada. Tremendo e ofegante, arrancou o pedaço de pano da boca e suspirou o ar profundamente.

    Olhou para trás e viu os muros da fortaleza. Eu… consegui, pensou ainda sem acreditar. E mesmo com roupas fedendo, abriu um sorriso. Logo o riso se misturou com as lágrimas e ela chorou outra vez.

    A moça seguiu o rio por alguns metros até uma margem mais limpa e se lavou. Era como se o cheiro de esgoto estivesse impregnado em suas vestes. Se Anayê possuísse outras roupas, lançaria aquelas sujas no fogo.

    Já era noite quando ela conseguiu sair do esgoto e, com as energias esgotadas, não restou outra alternativa se não escolher uma árvore para dormir. Era estranho como todas as árvores e plantas daquele local estavam mortas, porém, ainda assim, ela selecionou uma delas. Bastou se aconchegar no galho e o sono a derrubou como quem leva um nocaute em uma briga.

    Anayê acordou na manhã seguinte com um susto e quase caiu do galho. Por um instante, achou ter sonhado com sua fuga, mas o barulho do rio e a leve brisa do vento confirmou que havia escapado. Realmente, deu certo, pensou.

    Ela saltou da árvore em seguida e deu de cara com um casal de idosos que estavam enchendo seus jarros com água. A mulher gritou e o marido fitou assustado.

    — Por favor, por favor! — suplicou Anayê. — Não vou fazer mal! Sou uma fugitiva da fortaleza de Astaroth. Não sou um perigo para ninguém.

    O casal a olhava com desconfiança. No susto, a idosa deixara cair seu jarro no chão.

    — Eu apenas desejo alcançar a fronteira rumo aos reinos livres — explicou. — Se puderem, me mostrem a direção. Mas se não, apenas deixem que vá embora, só peço que não gritem porque podem atrair a atenção de algum vigia.

    O casal se entreolhou e a mulher cochichou no ouvido do marido. 

    É a primeira vez que falo tão alto com alguém em anos, pensou enquanto os idosos ponderavam. Os escravos só podiam falar baixo e, às vezes, apenas tinham o direito de ficarem calados.

    — Perdoe nosso jeito, mas você apareceu de repente e nos deu um susto. Eu me chamo Bóris e essa é a minha esposa Arev.

    — Eu sou Anayê.

    — Você deve estar com fome — Bóris falou. — Temos um pequeno rancho aqui próximo da estrada principal. Venha, mostraremos o caminho.

    O rosto da ex-escrava se iluminou com a notícia e ela seguiu o casal. Eles se direcionaram para o sul avançando por dentro da floresta morta e depois de andarem por alguns quilômetros, uma casa de pedra com uma cerca de madeira de frente para a estrada apareceu.

    Uma vaca, um poço e uma horta ocupavam o terreno, além de uma carroça com um cavalo.

    Anayê estava tão contente que esqueceu por um instante da canseira e da fome, e também ignorou o fato de que o casal tinha um poço.

    Depois de um convite, ela entrou para comer. Seu estômago suplicava por qualquer alimento.

    A casa possuía apenas dois cômodos simples com uma lareira, uma mesa de dois lugares e fogão a lenha.

    — Bóris, vá ao mercado buscar algumas frutas para que nossa convidada possa levar na viagem. Ela parece fraquinha e precisa de energia. — Arev se voltou para Anayê. — A caminhada até a fronteira é longa, minha filha.

    Bóris, um sujeito cheio de rugas e cabelos da cor da neve, obedeceu, enquanto Arev preparava um bolo de trigo e chá de camomila. 

    Assim que a refeição foi servida, Anayê devorou tudo em alguns instantes. Pensou ter comido a melhor refeição de sua vida. 

    Em seguida, Arev trouxe-lhe também uma calça e uma camisa.

    — Minha filha esqueceu aqui da última vez, deve caber em você — a idosa explicou. — Melhor do que esse trapo fedido que você está vestindo.

    Anayê ficou um pouco sem graça pelo comentário, mas depois riu. Arev apontou um quarto para a jovem se trocar.

    — Eu nem sei o que dizer… — a moça falou se dirigindo ao quarto.

    — Ora, não é nada. Vá, vá se vestir.

    Para Anayê, trocar de roupa foi como trocar de pele. Sentiu as forças e esperanças renovadas, pronta para viajar até o fim do mundo se fosse preciso. Em todos os planos que imaginara em sua mente, nenhum havia sido tão inusitado quanto aquele.

    Naquele momento, ouviu o som da porta de entrada da casa batendo. Bóris deve ter voltado, pensou.

    — Serviu perfeitamente — ela disse abrindo a porta e saindo do quarto.

    Porém, estreitou os olhos quando percebeu a sala vazia.

    — Arev? — chamou.

    Nenhuma resposta.

    Um arrepio percorreu sua espinha enquanto dava mais um passo.

    E então percebeu.

    A porta estava aberta.

    Tarde demais.

    Algo pesado atingiu sua cabeça e o mundo girou.

    Antes de cair, Anayê ainda viu uma silhueta marrom.

    A escuridão veio como um abraço violento.

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