Índice de Capítulo

    A escuridão preenchia aquele véu imenso e denso, repleto de pequenas luzes distantes e, enquanto observava o céu, Fenrir se sentiu sozinho novamente. Como, em um mundo tão grande, poderia ser diferente?

    Ele desviou a visão para os dois corpos deitados e cobertos, próximos a uma fogueira modesta. Ele limpara as feridas do rosto de Anayê, mas o seu rosto ainda exibia hematomas. Quanto a Heitor, fora um trabalho mais difícil e complexo, e Fenrir desconfiava que apenas por causa do fluido de oração conseguira salvar o companheiro. Mesmo assim, Heitor nunca mais poderia utilizar o braço direito.

    Fenrir não esperava o desfecho da luta daquela maneira, pois, nos seus melhores pensamentos, nunca imaginara Kelsin saindo derrotado. Contudo, a luta custara muito caro para eles. Por que ele tinha embarcado naquela viagem maluca? Será que o mestre não poderia ter parado Anayê? Ele não sabia que o mundo estava cheio de perigos infernais? Por que os deixara à própria sorte? Era como enviar um menino para lutar contra um guerreiro adulto.

    Neste momento, Fenrir se lembrou de uma cena da infância. Estava brincando com Wliff na mata quando ouviram um barulho e acharam ser um urso.

    — Vamos fugir — o pequeno Fenrir dissera já se pondo a correr.

    Mas Wliff não aceitou a proposta e caminhou até o local de onde o ruído havia vindo. E, para sua surpresa, não passava de um cervo. A situação rendeu apelidos desagradáveis para Fenrir, além de risadas debochadas de Wliff e Zátia.

    Após a lembrança, Fenrir ponderou sobre a origem de todo o seu pavor. Por que, desde criança, ele era um covarde? Por que fugia? Por que seu corpo não reagia? E se tivesse ajudado Heitor e Anayê na luta contra Kelsin? Talvez pudesse impedir a tragédia?

    Balançou a cabeça negativamente e baixou os olhos. Não, disse a si mesmo, se tivesse entrado na luta, estaria morto.

    Enquanto o ceifador refletia acerca dos seus demônios pessoais, Heitor sonhava com a esposa. Ela estava usando um bonito colar de pedras azuladas no pescoço que combinava com o tom de seus olhos, além de trajar um vestido comprido e colorido de mangas curtas. Não notou o fato de estar com os dois olhos no sonho.

    — Aelin, você está magnífica.

    Levou a mão ao rosto e acariciou a pele macia e morena. Ela colocou sua mão sobre a dele.

    — O que podíamos ter construído se você tivesse lutado antes? — Aelin questionou.

    Heitor sentiu o peito doer. Teve a certeza de que algo estava prestes a acontecer e de que já tivera um sonho parecido.

    — Quantos filhos e filhas? Quantas histórias para contar? A gente podia ter envelhecido juntos.

    — Era tudo o que eu queria…

    Assim que falou, o seu pior temor aconteceu. Aelin começou a desvanecer em sua frente.

    — Não! Não me deixe!

    Ele correu para abraçá-la, mas seus braços passaram em torno do nada. E ele se percebeu sozinho em meio a imensidão escura e vazia.

    — Não! Não me deixe! Aelin!

    No instante seguinte, uma sala se materializou e ele se viu sentado num sofá feito de peles macias e confortáveis. Diante dele, também sentado, uma figura repleta de runas tatuadas por todo o corpo.

    — Heitor… — o sujeito falou, suave.

    Os olhos do ceifador passaram pelas decorações, a estante cheia de livros e a lareira. Então franziu o cenho e mirou o homem tatuado:

    — Estou… na ilha flutuante?

    — Ficamos felizes pelo seu sacrifício.

    Sua mente lembrou-o do braço decepado.

    O homem com runas se inclinou e sua mão alcançou a mão de Heitor.

    — O ceifador que criamos ainda está aí — disse. — Que bom vê-lo outra vez.

    As lágrimas se derramaram no rosto de Heitor.

    Por outro lado, Anayê estava se arrastando. Impulsionando o corpo dolorido pela terra para alcançar o feiticeiro maldito. Porém, de repente, sua mão não agarrou o solo firme, mas uma porção de lama. E então, seu corpo inteiro começou a afundar.

    — Não…

    Kelsin montou seu cavalo e fugiu.

    — Não fuja, covarde!

    A lama entrou na sua boca e enterrou sua visão no escuro. O corpo inteiro submergiu.

    E, no instante seguinte, ela estava de pé. Porém, seus olhos se arregalaram quando enxergou o cenário diante de si. Uma porção de corpos despedaçados estavam ao redor. O ar tinha cheiro de sangue, gemidos soavam de todos os lados e o desespero podia ser sentido, quase tocado, como uma entidade real.

    Mas piorou.

    Anayê identificou um rosto conhecido no montante de figuras fragmentadas. Boyak, afundado envolvido em líquido carmesim.

    — Não… — ela estremeceu.

    Quis ir até ele, entretanto, era incapaz de se mover.

    E, ao tentar fazê-lo, reparou em outro conhecido. Thayala, com parte do torso dividido.

    E piorou de novo.

    Mais rostos. O mestre sangrando pelo nariz, a senhora Filley segurando Nally e Miriã com o corpo em frangalhos, Fenrir ajoelhado e transpassado por espinhos venenosos, Heitor caído de lado com o toco do braço formando uma poça vermelha e Bretna com o vestido branco totalmente manchado e tornando-se escarlate.

    — Não, não, não.

    Tentou mover as pernas e não conseguiu novamente. Se mova, corpo! Se mova, corpo! Apertou os dentes, fechou os punhos e arregalou os olhos.

    E, no segundo posterior, uma cena terrível sucedeu. A mão de Boyak se levantou, seguida pela mão de Thayala, e então pelas mãos de todos os outros.

    Anayê sentiu o sangue gelar. Todas as mãos manchadas de vermelho em sua direção como mendigos pedintes.

    — Você nos deixou morrer — Boyak falou.

    — Você nos deixou morrer — o mestre repetiu.

    — Não, não — ela murmurou.

    — Você não conseguiu nos proteger — Nally protestou.

    — Você nos deixou morrer — Miriã repetiu, chorando.

    Os olhos da ceifadora se ergueram para o horizonte onde enxergou Kelsin montado no cavalo com o sorriso debochado nos lábios.

    — Você não conseguiu protegê-los — ele zombou.

    O rosto dele se transfigurou e, por um momento, se transformou em Elchor.

    Voltou para os caídos e, no mesmo momento, todos se transformaram em uma máscara decrépita e distorcida dos seus próprios pais.

    — Você nos deixou morrer — disse sua mãe.

    — Você nos deixou morrer — seu pai repetiu.

    Uma mão carcomida alcançou seu pé e ela não conseguiu esquivar.

    — Não!

    A ceifadora se levantou do chão, suando e balançando os braços enquanto Fenrir tentava contê-la.

    — Calma, Anayê! Calma!

    Ela enxergou o rosto do companheiro. Os olhos viajaram rapidamente para o cenário ao seu redor e percebeu ser um local mais afastado da ponte.

    — Foi só um pesadelo — Fenrir garantiu.

    E então a cabeça dela se afogou no ombro do ceifador à medida que começava a chorar.

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