Capítulo 4 - Os Idosos Que Traíram A Fugitiva
O estômago de Anayê embrulhou quando viu o rancho de novo. Seu corpo estremeceu involuntariamente, sua visão ficou turva por alguns instantes.
Ela passou a mão no local onde fora atingida pelo porrete antes de perder a consciência na casa dos idosos.
Boyak seguia direto na direção do rancho, como se nada estivesse errado. Cantarolando, despreocupado.
Aquilo não fazia sentido.
Anayê diminuiu o passo com os olhos fixos nas costas dele.
Aquilo podia ser outra armadilha, pensou.
Seu olhar percorreu o estranho mais uma vez. Cabelos brancos, bandana vermelha na cabeça. Nenhuma insígnia de subordinação ou marca de servo. Quem era aquele homem? Ele havia matado um magg com as próprias mãos. Sem arma. Era impossível. Ninguém enfrentava um magg e sobrevivia.
Mesmo assim, ela continuava seguindo.
Na fortaleza, ouvira falar de mercenários errantes e piratas gananciosos, indivíduos em busca de glória e riqueza a qualquer custo que se vestiam de formas extravagantes. Ele não parecia um deles.
O sujeito era diferente. E isso era ainda mais perigoso. O que estaria planejando?
Eu não posso cair em uma armadilha outra vez, ponderou, aflita.
Boyak continuava cantarolando, alheio a tudo.
Anayê apertou os olhos. Então tomou coragem com um fôlego.
— Por que estamos vindo pra cá? — perguntou.
— A caminhada até a fronteira é longa — Boyak respondeu. — A carroça vai nos poupar muito tempo.
O coração dela apertou quando percebeu que o rancho estava exatamente igual. A horta, a vaca e a carroça nos mesmos lugares como se nada tivesse acontecido.
Como se tudo fosse… encenação.
Então ela viu o poço e parou imediatamente. Estreitou os olhos com constrangimento.
— Se eles têm poço… — murmurou — por que estavam pegando água no rio?
Boyak olhou por cima do ombro.
— Hã?
Ela hesitou por um instante antes de responder:
— Foram eles — A voz saiu baixa. — Foram os donos daqui que me entregaram pros maggs.
Boyak ficou em silêncio por meio segundo, então sorriu.
— Ótimo.
Ela franziu a testa.
— Como assim “ótimo”?
— Mais um motivo pra levarmos a carroça.
— Você acha que eles vão simplesmente deixar?
Boyak virou o rosto, já andando.
— Quem disse que eu vou pedir?
Ele saltou a cerca e caminhou direto até a carroça como se fosse dele.
Anayê ficou parada por um instante, surpresa. Não sabia o que era pior, seu conflito ou as atitudes do ceifador.
Nesse momento, a porta da casa se abriu com força.
— Ei!
A voz cortou o ar enquanto Arev surgia, furiosa.
— O que pensa que está fazendo?!
— Estou levando a carroça — disse Boyak.
— Como é? — Arev arregalou os olhos.
Bóris apareceu logo atrás, com semblante incrédulo.
— Você não pode fazer isso — ele disse. — Temos permissão dos maggs. Se tocar em qualquer coisa daqui…
— Vai chamar o seu lorde? — Boyak cortou.
O velho travou, boquiaberto.
Anayê não conseguia fazer os braços pararem de tremer. Ali estavam eles. Os dois agindo como se nada tivesse acontecido.
— Para o azar de vocês — Boyak continuou, puxando o cavalo. — Eu não tenho medo de aberração.
— Você vai pagar por isso! — Arev gritou. — Todas as forças do inferno vão…
Boyak simulou as pernas estremecendo.
— Oh não… estou com medo.
Bóris franziu o cenho.
— Espere… você… — Apertou os ombros da esposa. — Você é o causador da destruição da torre?
— Em carne e osso.
— Você tem ideia do que fez?! — Arev avançou um passo. — Pessoas morreram! O lorde está furioso!
— Era pra estar morto — respondeu Boyak, seco.
A idosa não conteve o olhar de nojo.
— Por quê? — Bóris perguntou.
Boyak apontou para além do rancho, para as árvores morta e a terra seca.
— Isso aqui não te incomoda?
— É assim que sobrevivemos! — o velho rebateu.
— Entregando gente para a escravidão?
Bóris abriu a boca para responder, mas Arev tomou a frente.
— Você é o destruidor! — apontou para ele. — Por que não vai embora? Volta pros seus reinos livres e nos deixe em paz!
— Enquanto vocês viverem assim… não existe paz. — O tom de Boyak foi o mais frio desde então.
A idosa ensaiou abrir a boca, mas o ceifador falou primeiro:
— Olha aqui, vovó… — ele ergueu o dedo. — Ainda estão vivos porque eu deixei.
Arev deu um passo para trás, sem perceber.
— Então não testem a minha paciência.
— Chega — Uma voz feroz veio atrás dele.
Era Anayê.
— Então é isso que vocês são de verdade? — bradou.
Arev deu um grito quando a viu e Bóris arregalou os olhos.
— Como puderam…? — ela avançou. — Eu pedi ajuda.
Os idosos recuaram mais um passo.
— Eu pedi que me deixassem em paz, mas ao invés disso, vocês me enganaram! — A voz se perdeu num suspiro longo.
Arev abriu a boca.
— Eu…
— Cala a boca! — Anayê cortou.
O corpo da velha estremeceu e o marido dela segurou seus ombros com mais força.
— Vocês sabem o que acontece lá dentro? — apontou para a fortaleza ao longe. — Sabem?!
Os olhos de Anayê arderam.
— Dez anos… — sussurrou. — Dez anos vivendo como um animal. Trabalhando… Apanhando… Calando.
As lágrimas começaram a cair.
— E quando eu finalmente tive a chance… — ela cerrou os punhos. — Vocês apareceram. — Mais um passo. — Pra me vender de novo.
O som de sua respiração se tornou barulhento diante do silêncio.
— Se não fosse por ele — Apontou para Boyak. — Eu já teria voltado.
Ou teria acontecido o pior, sua mente pensou.
Ela olhou ao redor para as peças da encenação.
— E vocês… vivendo bem.
Ninguém falou nada. Ela fitou os idosos com firmeza, mas não enxergou arrependimento no semblante deles. Os punhos balançavam, trêmulos e nervosos.
Bóris e Arev não se prontificaram a responder. As pernas do velho também tremiam, por um motivo diferente.
Então Anayê cuspiu no chão e virou as costas. Subiu na carroça ao lado do ceifador, sem olhar para trás.
— Vamos — disse Boyak, calmo.
Puxou as rédeas e o cavalo avançou com o som seco das rodas girando.
— Eu devia ter matado eles — Anayê murmurou.
— Não valem o esforço — Boyak falou.
Ela limpou o rosto com as costas da mão, sentindo o vento quente afagando os cabelos.
Mas seus braços ainda tremiam.
**
Na fortaleza de Astaroth, o general Uz passou por dois portões de ferro e adentrou um salão escuro onde a única luz vinha de uma janela quadrada pequena. O lugar cheirava a mofo e carne podre.
Algo rosnou na escuridão. Baixo, profundo.
Uz não parou. Seus passos continuaram firmes, metálicos.
Mais um rosnado.
Ele se aproximou de uma corrente grossa e pesada, tão larga quanto o seu braço.
O som da criatura se intensificou na escuridão.
Uz ergueu o punho e golpeou a corrente. O ferro partiu.
Os rosnados cessaram.
— Vá — ordenou.
Algo se moveu na escuridão, rápido e violento.
— Encontre os outros fugitivos.
A coisa passou por ele tal qual um sopro e os portões de ferro estremeceram quando ela saiu.
Uz permaneceu imóvel e sozinho na escuridão.

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