Índice de Capítulo

    A porta fechou atrás do último deles, abafando o som distante do palácio.

    Por alguns segundos, ninguém falou.

    A sala oval era sustentada por pilares de pedra abraçados por raízes grossas que desciam do teto e mergulhavam no chão. Um dos lados permanecia aberto, revelando o pátio interno contornado pelas raízes da Árvore-Mãe. A brisa da manhã atravessava o salão, mas não aliviava o peso no ar.

    Os quatro rostos carregavam a mesma tensão.

    O primeiro a quebrar o silêncio foi o homem de meia-idade sentado à mesa. Inclinado para frente, ele apoiava os braços sobre a madeira enquanto a mão direita segurava o coto onde deveria estar o punho esquerdo.

    — Quero ouvir que os relatórios estão errados.

    O homem alto de pele escura permaneceu de pé.

    — Eu também gostaria — disse, percorrendo os outros com o olhar. — Mas não estão. Confirmei pessoalmente os sinais de mana. Não restou estrutura defensiva em Kharun… e Sal-Reth virou areia.

    — Areia? — perguntou a única mulher da sala, inclinando levemente a cabeça.

    — A guardiã não poupou energia. Houve luta intensa… e ela não estava sozinha.

    O silêncio retornou.

    — Tem certeza, Hassan? Quantos? — perguntou o homem sem a mão, endireitando-se.

    — Absoluta. Parece que o motivo dela não ter nos atacado nas ultimas semana foi porque ela foi buscar ajuda…

    — Droga.. tem alguma pista sobre qual reino esta ajudando ela?

    — Não havia sinais de exército em Sal-Reth, Korven. Apenas combate direto. Sangue Rumbra misturado ao dos nossos soldados, raízes queimadas… e algo estranho. Em vários pontos da areia encontrei fragmentos de vidro um pouco maiores que o meu pé.

    Korven franziu a testa.

    — Um mago de fogo… Será um mercenário?

    — Talvez — respondeu Hasan. — Mas não parecia algo comum porque em Kharun, tem sinais dos Rumbra ajudarem em larga escala, crateras de fogo arvores queimadas pedras que foram lançadas, mas em Sal-Reth não apenas esses sinais de luta.

    — Conhece alguém capaz disso Emma? — Kroven perguntou se inclinando na direção da mulher.

    Ela cruzou os braços.

    — Alguém capaz disso exigiria dinheiro… e conexões.

    — Ou loucura suficiente para nos atacar — murmurou Korven.

    Um leve som de porcelana tocando o pires chamou a atenção de todos.

    O quarto homem, até então em silêncio, pousou a xícara.

    — Não acho que seja fogo.

    A frase pairou no ar.

    — Então o que foi? — perguntou Hasan.

    — Raios.

    Korven soltou um riso seco e se levantou.

    — Fala serio Mael, não me diga que realmente acredita naquela besteira de ter mana de uma besta de raios.

    — Anthemor é meu subordinado há anos. Confio no julgamento dele — respondeu Mael calmamente. — Não digo que seja uma besta de raios. Mas pode ser um mago… e isso não é o que mais me preocupa.

    Emma o observou.

    — O que, então?

    — O Dinheiro.

    Ela assentiu devagar.

    — O impacto econômico será rápido. Mercadores perceberão o desaparecimento das remessas em dias.

    — Em horas — corrigiu Korven.

    Hasan finalmente se sentou.

    — Eles ignoraram depósitos militares e rotas civis. Foram direto às instalações de produção. Sabiam exatamente o que atingir.

    Emma apoiou as mãos na mesa.

    — Então o que diremos ao rei?

    — A verdade — respondeu Korven.

    Mael balançou a cabeça.

    — A verdade completa vai gerar mobilização. Mobilização gera medo. E o medo quebra o mercado antes mesmo do próximo ataque.

    — E esconder a dimensão real faz o quê? — rebateu Emma. — Quando outra fortaleza cair, pareceremos incompetentes.

    Mael falou mais baixo:

    — Não acho que o próximo alvo sejam fortalezas.

    Os três o encararam.

    — Se quisessem continuar o padrão, teriam atacado outras bases no mesmo dia. Não fizeram.

    Korven franziu o cenho.

    — Então?

    Mael sustentou o olhar dele.

    — Estavam abrindo caminho.

    O silêncio voltou, mais pesado.

    Hasan apoiou os dedos na mesa.

    — Precisamos enviar uma mensagem conjunta. Sem disputa política desta vez.

    Emma assentiu.

    — Relato direto.

    — E recomendação de reforço imediato das capitais regionais — acrescentou Korven.

    — Especialmente aqui — completou Mael.

    Emma puxou um pergaminho.

    — Você realmente acredita que virão até aqui? nossa capital?

    — Acredito que escolherão o lugar menos óbvio — respondeu Mael. — E todos estarão ocupados protegendo os lugares errados.

    Korven levantou-se.

    — Então escrevam. Os quatro nomes na carta.

    Emma selou o pergaminho com cera ainda quente.

    Korven observou o selo endurecer.

    — Quando essa carta chegar a Cervalhion… o rei vai querer respostas que não temos.

    Ninguém contestou.

    Emma apoiou o selo sobre a mesa.

    — Então é melhor começarmos a encontrá-las antes que ele pergunte.


    O refúgio estava muito diferente desde a última vez que Thamir e Naira o deixaram.
    Os refugiados Rum’brath haviam ampliado a clareira, abrindo espaço para os recém-chegados e transformando o pequeno esconderijo em um assentamento vivo.

    Vert caminhou com dificuldade até o centro, apoiando-se em um cajado curto de madeira viva que crescia lentamente ao redor de sua mão. A perna ainda não havia se recuperado completamente.

    Quase quatrocentos haviam sido libertados.

    Alguns ainda tremiam após anos de drenagem constante. Outros simplesmente pararam ao chegar, afundaram os pés no solo e permaneceram imóveis, absorvendo a mana da terra como quem voltava a respirar depois de muito tempo submerso.

    Vert observou em silêncio.

    Anos de luta… e, pela primeira vez, um resultado que podia ser visto.

    Seu olhar seguiu o Filho do Trovão e Sangue Livre entrando em um dos abrigos improvisados.

    O abrigo estava silencioso, exceto pelo som suave da floresta respirando ao redor.
    Raízes grossas formavam paredes naturais, e pequenos pontos de luz verde atravessavam o teto vivo, espalhando um brilho tênue pelo interior.

    Thamir permaneceu de pé por alguns segundos, braços cruzados, observando o lugar.

    Naira percebeu.

    — O que foi?

    — Temos que ir logo até a capital.

    Ela franziu o cenho.

    — Do que você está falando? Acabamos de destruir a principal artéria de Elandor. Eles vão entrar em alerta máximo. Precisamos esperar o primeiro movimento deles.

    — Vamos perder tempo aqui.

    — Thamir… senta ai.

    Ele arqueou uma sobrancelha.

    — Isso é uma ordem?

    — Ainda não.

    Um pequeno sorriso torto surgiu no canto da boca dele.

    — Olha só… achei que a mandona tinha tirado férias.

    Mesmo assim, sentou-se sobre uma raiz, apoiando os antebraços nos joelhos.

    O silêncio durou poucos segundos.

    — Você está estranho — disse Naira.

    — Jura?

    — Não desse jeito.

    Ele não respondeu de imediato. Apenas olhou para o chão por um instante antes de encará-la outra vez, firme demais para alguém exausto.

    — Não podemos arrastar isso.

    — Você quase desmaiou há menos de uma hora.

    — Estou bem.

    — Não está.

    Thamir soltou um sopro curto.

    — Realmente quer dar tempo para eles reorganizarem rotas? Esconderem laboratórios? Moverem prisioneiros?

    — Eu sei que não é o ideal — respondeu Naira com calma. — O que eu não sei é por que você está agindo como se fosse a sua primeira guerra.

    Silêncio.

    — Eu só quero terminar isso logo.

    Ela inclinou levemente a cabeça.

    — Porque tanta pressa?

    A mandíbula dele se contraiu.

    — Por favor, não me diga que isso tem a ver com Elenys — disse ela, sem rodeios. — Sei muito bem que você não iria agir assim.

    Ele não desviou o olhar. Também não respondeu.

    — Você nunca foi imprudente assim — continuou ela. — Impulsivo às vezes, irritante quase sempre… mas não assim.

    — Acho que só estou ficando velho.

    Thamir apoiou as mãos nos joelhos enquanto olhava para os refugiados, que buscavam locais para descansar. Naira seguiu o olhar dele, e um vislumbre de compreensão passou por seus olhos.

    — Isso é culpa?

    O silêncio pesou.

    — Você ainda acha que podia ter feito algo diferente?

    Nenhuma resposta.

    Naira respirou fundo.

    — Não foi culpa sua.

    — É isso que você diz a si mesma também? — perguntou ele, calmo demais.

    Ela sustentou o olhar.

    — É o que eu sei.

    — Não é… e você sabe. Eu lembro de cada escolha. Cada vez que decidimos esperar mais um pouco. Enquanto ele enlouquecia… esperar mais um pouco. Deixar se recuperar mais um pouco. — Os dedos dele se fecharam lentamente. — E no fim… não fizemos nada quando ele agiu.

    — Então vamos dizer que eu não pretendo mais esperar quando aparecer uma janela.

    Naira o observou por alguns segundos.

    — Eu entendo, Thamir. De verdade.
    — Mas se você lutar tentando compensar o passado… não vai proteger ninguém. Só vai morrer mais cedo do que precisa.

    O vento atravessou as folhas acima do abrigo, espalhando sombras móveis sobre os dois.

    — Não precisamos que você se puna — disse ela. — Precisamos que você continue vivo. No fim das contas… só restamos nós quatro.

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