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    Narrado por Thamir.”

    Eu tentei segurar.

    Honestamente tentei.

    Mas aí a mulher decidiu propor reconstruir o submundo continental na frente da Naira.

    Da Naira.

    Foi aí que eu comecei a rir. E caramba… que risada boa.

    Naira fechou os olhos devagar.

    — Eu odeio você.

    — Nem vem — consegui responder entre uma risada e outra. — Você odeia a ironia da situação.

    A mulher do outro lado da sala claramente não estava entendendo nada.

    O que só piorou minha crise.

    — Certo — ela falou lentamente. — Acho que perdi alguma coisa importante.

    — Bastante coisa — respondeu Naira seca.

    Eu ainda estava rindo quando apontei pra ela.

    — Você faz ideia de com quem acabou de propor uma sociedade?

    — Imagino que com duas pessoas altamente capacitadas.

    — Não…Sim, Espera, essa é a parte menos problemática.

    Naira cruzou os braços.

    A faca ainda na mão.

    — Anos atrás existiu uma organização chamada Ponta Carmin.

    O nome fez a garota ficar imóvel por meio segundo.

    Ah.

    Então ela conhecia.

    Claro que conhecia.

    Todo criminoso minimamente competente conhecia.

    — Eles chegaram perto demais do que você queria — continuei. — Controle de rotas, portos, cobrança, assassinato político, contrabando… praticamente um reino sem coroa.

    Eu apontei novamente para Naira.

    — Até essa guria decidir matar todo mundo.

    Naira completou sem emoção nenhuma:

    — Eu matei todos os líderes.

    Silêncio.

    A garota piscou uma vez.

    Devagar.

    Finalmente entendendo onde estava pisando.

    — Espera…

    — Não foi pessoal — falei. — Ela odeia todo mundo igualmente. É uma filosofia admirável.

    — Eles traficavam crianças — respondeu Naira.

    — Viu? Princípios. Muito bonito.

    A garota voltou os olhos pra Naira.

    Dessa vez diferente.

    Não como ameaça imediata.

    Como perigo histórico.

    O tipo de nome que gente do submundo aprende cedo demais.

    Naira percebeu o instante exato.

    — Então entende meu problema agora?

    A mulher demorou um pouco antes de responder.

    — …Você é a Guardiã da Montanha.

    — Guardiã Rumbra agora.

    — Isso não melhora em nada.

    Eu apoiei o queixo na mão observando as duas.

    Honestamente?
    Agora a conversa tinha ficado boa.

    Porque até então ela ainda estava negociando com criminosos úteis.

    Agora finalmente percebeu que estava negociando com gente capaz de destruir o que ela queria construir caso desgostassem da ideia.

    E curiosamente isso deixou ela mais honesta.

    Bom sinal.

    Ela respirou fundo uma vez.

    — A Ponta Carmin controlava o submundo através de medo.

    — Correto.

    — E poder concentrado.

    — Também correto.

    — E vocês destruíram eles porque eventualmente começaram a agir como outro reino.

    Naira não respondeu.

    O silêncio confirmou.

    A mulher pensou por alguns segundos antes de continuar.

    Mais cuidadosa agora.

    — Então eu expliquei errado.

    — Bastante — concordei. — Tenta de novo.

    Ela me ignorou.

    Natural.

    — Eu não quero criar outra organização como a Ponta.

    — Todo mundo fala isso antes de criar.

    — Eu quero impedir que apareça outra.

    Isso fez Naira estreitar os olhos pela primeira vez.

    Pequena diferença.

    Importante.

    A mulher percebeu também.

    Boa leitura.

    — O submundo já existe — continuou ela. — Sempre vai existir. Principalmente agora.

    Ela olhou rapidamente pras caixas de especiarias espalhadas pelo depósito.

    — Os reinos estão quebrando. Comércio legal tá falhando. Soldados abandonam posto por pagamento. Nobres escondem estoque enquanto bairros inteiros começam a passar fome.

    A voz dela ficou mais firme.

    Menos defensiva.

    Mais parecida com alguém apresentando uma tese.

    — Isso significa expansão inevitável de mercado ilegal.

    Caramba… eu quase bati palma.

    Finalmente alguém naquela cidade sabia observar padrão.

    — Pequenos grupos vão começar a disputar território — ela continuou. — Roubo de carga. Extorsão. Sequestro. Venda ilegal de poções. Controle de rotas.

    Naira continuava escutando.

    Sem baixar a guarda.

    Mas escutando.

    — E quando isso acontecer, alguém vai centralizar tudo de qualquer jeito.

    Ela sustentou o olhar da Naira diretamente agora.

    Sem fugir.

    — A diferença é que eu prefiro que seja alguém que entenda exatamente o que acontece quando o submundo cresce sem controle.

    Ninguém respondeu.

    Eu observei a reação da Naira com atenção.

    Ela ainda odiava a ideia.

    Dava pra ver claramente.

    O problema era outro.

    Ela também estava percebendo que a garota talvez estivesse certa.

    — Então deixa eu entender — falei enquanto inclinava a cadeira pra trás. — Seu plano é construir uma organização criminosa pra impedir organizações criminosas.

    — Meu plano é controlar violência antes que ela vire guerra civil.

    — Ah sim… isso vende melhor.

    Ela ignorou meu comentário outra vez.

    Profissional.

    — E por que exatamente nós? — perguntou Naira.

    A mulher hesitou só meio segundo.

    — Porque vocês já provaram que conseguem destruir estruturas grandes. E me falta poder bélico.

    Resposta inteligente.

    Muito inteligente.

    Não bajulou.
    Não ameaçou.
    Não mentiu.

    Só falou a verdade útil… ou parte dela.

    — Além disso — ela continuou —, depois de hoje Elandor vai caçar vocês.

    — Isso continua soando ofensivo — comentei.

    — Mael viu você escapar.

    Agora eu sorri.

    Porque isso sim era verdade.

    E honestamente?

    Fazia tempo que alguém interessante não me observava de volta.

    — Você precisa de esconderijos, rotas, informação, mercado e movimentação — ela disse olhando pra mim. — Principalmente agora.

    Depois voltou os olhos pra Naira.

    — E você precisa saber onde o pior tipo de gente começa a surgir antes que seja tarde.

    Nem eu interrompi dessa vez..

    Eu observei Naira por alguns segundos.

    Ela ainda parecia pronta pra quebrar a cara da garota na parede.

    O que, considerando a proposta recebida, era uma melhora considerável.

    — Podem encarar como uma parceria temporária se preferir

    Então sorri devagar, mulher esperta.

    — Bom. Eu já gostei de você mesmo não falando tudo.

    Naira continuava me olhando como alguém reconsiderando seriamente homicídio.

    Justo.

    A garota à nossa frente esperou.

    Esperta.

    Não tentou preencher espaço.

    Gente inteligente aprende cedo que silêncio depois de uma revelação importante costuma valer mais que discurso.

    Bom sinal outra vez.

    Eu apoiei os braços no encosto da cadeira e observei ela por alguns segundos.

    Então sorri.

    Pequeno.

    — Certo. Agora vamos falar serio.

    Ela não respondeu.

    Mas ficou mais tensa.

    Percebeu que a conversa real ainda nem tinha começado.

    — Você não quer parceria nenhuma.

    Naira não reagiu pareceu que também havia entendido.

    A garota também.

    — Quero sim.

    — Não. Você não quer.. — Balancei a cabeça devagar. — Você precisa.

    A frase ficou suspensa no depósito.

    Acerto direto.

    Ela não mostrou reação mas agora era tarde.

    — Thamir…

    — Não, deixa eu aproveitar. Faz tempo que alguém mentiu de forma interessante pra mim.

    A garota sustentou meu olhar.

    Tentando decidir quanto revelar agora.

    Errado.

    Ela já estava atrasada nessa decisão.

    — Você entrou naquela reunião porque precisava de informação específica — continuei. — Não tava ali por curiosidade política. Nem espionagem comum.

    A expressão dela endureceu um pouco.

    Acertei outra vez.

    — E depois do salão… você foi arrastada para cá sem chance se fugir — inclinei levemente a cabeça — E é espera o suficiente para saber que não vamos te deixar viva se não for útil, ou virarmos parceiros.

    Naira cruzou os braços devagar.

    Agora observando ela diferente também.

    A garota soltou o ar lentamente pelo nariz.

    Então finalmente parou de tentar controlar dano.

    Boa escolha.

    — …Eu faço parte de uma organização.

    — Que nome horrível ela tem? — perguntei imediatamente.

    Ela piscou uma vez.

    Confusa pela velocidade da pergunta.

    — O quê?

    — Organizações criminosas sempre escolhem nomes ridículos. Quero confirmar minha teoria.

    Naira fechou os olhos por um segundo.

    Cansada.

    A garota hesitou antes de responder:

    — Véu de Safira.

    Eu fiquei olhando pra ela em silêncio.

    Depois pra Naira.

    Depois voltei pra ela.

    — Isso parece nome de perfume caro.

    Naira soltou uma risada curta.

    Vitória.

    A garota claramente decidiu me odiar um pouco.

    Excelente começo de relação profissional.

    — Não sou a líder — continuou ela. — Ainda.

    Ah.

    Agora chegamos na verdade importante.

    Ambição vertical.

    Ela não queria sobreviver dentro da organização.

    Queria subir.

    — E o que exatamente o glorioso Véu de Safira faz além de escolher nomes trágicos?

    Ela ignorou a provocação.

    — Intermediação. Contrabando. Rotas comerciais ilegais. Compra de dívida. Lavagem de carga.

    — Então criminosos comuns.

    — Somos Organizados.

    — Ah, desculpa. Muito diferente.

    Ela me ignorou outra vez.

    Profissional de verdade.

    — Depois dos ataques em Sal-Reth e das cidades produtoras de seiva… a organização percebeu que Elandor estava entrando em colapso econômico.

    Naira permaneceu sem reação.

    Escutando.

    — Os nômades do deserto também perceberam.

    Isso chamou minha atenção. Mais do que todo o resto.

    — Continue.

    Ela observou nós dois antes de falar.

    Mais cuidadosa agora.

    — O Véu tentou firmar parceria comercial direta com os nômades orientais.

    — E eles recusaram — concluiu Naira.

    — Não completamente.

    Interessante.

    — Eles fizeram uma exigência.

    O depósito pareceu menor por um instante.

    Eu já tinha uma ideia da resposta antes dela falar.

    O que não tornou melhor.

    — O último estoque de poções e especiarias de Elandor.

    Naira ficou imóvel.

    Eu só observei ela continuar.

    — Os nômades não confiam mais na capacidade de Elandor honrar contratos. Se o reino ainda mantiver reservas suficientes, eventualmente consegue estabilizar mercado interno, reorganizar rotas e recuperar influência comercial.

    Ela abaixou um pouco a voz.

    — Mas se perder o último estoque…

    — O reino quebra rápido — completou Naira.

    — Sim.

    Um estrangulamento econômico planejado.

    E honestamente?

    Bem executado.

    — Então foi por isso que você tava na reunião — falei. — Você precisava descobrir onde esconderam o estoque restante.

    Ela assentiu devagar.

    — Pouquíssimas pessoas sabem e todos estavam lá.

    Naira estreitou os olhos.

    — E você achou que aquela reunião revelaria isso.

    — Achei que alguém mencionaria movimentação de segurança, transferência ou protocolo emergencial.

    Eu sorri torto.

    — Em vez disso quase virou carvão decorativo.

    — Mael mudou alguma coisa no último momento. — A irritação apareceu pela primeira vez na voz dela. — Ele já esperava infiltração.

    Claro que esperava.

    E provavelmente ficou decepcionado com o resultado.

    — Então deixa eu entender essa parte — falei inclinando a cabeça. — Você falha na missão, escapa por sorte, perde contato com sua organização… e agora volta sem informação nenhuma.

    Ela não respondeu.

    Nem precisava.

    Naira foi quem entendeu primeiro.

    — Eles vão matar você.

    A garota sustentou o olhar dela.

    E dessa vez não tentou fingir coragem.

    — Sim.

    Finalmente honestidade completa.

    Boa.

    — O Véu não tolera fracasso em operação grande — continuou ela. — Principalmente agora.

    — Porque o acordo com os nômades depende disso.

    — Sim.

    Ela me encarou.

    — Essa é a verdade.

    Eu comecei a sorrir devagar.

    Porque agora tudo fazia sentido.

    A proposta.
    A pressa.
    A ambição.
    O desespero escondido dentro do controle.

    Ela não estava recrutando aliados.

    Estava tentando sobreviver enquanto subia rápido o suficiente antes que alguém percebesse que ela caiu.

    E honestamente?

    Eu respeitava isso.

    Naira ainda parecia dividida entre matar ela ou adotar ela como problema coletivo.

    Situação delicada.

    Então a garota falou a pior frase possível naquele momento:

    — Se eu conseguir entregar o estoque… eu assumo o controle do Véu.

    Silêncio.

    Eu olhei pra Naira.

    Naira olhou pra mim.

    E pela expressão dela, ela finalmente tinha entendido exatamente o tamanho do desastre que tinha sentado no nosso subsolo.

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