Índice de Capítulo

    A voz de Niko saiu rasgada, misturada com alívio e incredulidade. Brigitte já estava agachada ao lado de Valand, caída, empurrando o corpo dela com o pé para garantir que não reagiria — o corpo não reagiu. A luminar, em seguida, se voltou aos dois.

    — Em carne e osso! — respondeu ela, pousando, apontando para si mesma com o polegar e dando um grande sorriso para os dois.

    Evelyn ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, olhando rapidamente para o estrago no banheiro. O olhar dela passou por Gwen no chão… depois por Niko preso na parede. Ela cruzou os braços, parecendo imitar o jeito de Brigitte — de forma bem superficial.

    — Não precisam agradecer pela ajuda. — disse, com um pequeno sorriso irritantemente convencido.

    Brigitte ergueu uma sobrancelha, fazendo seu sorriso orgulhoso se transformar em um sorriso presunçoso.

    — Ótimas palavras de reencontro, Evelyn.

    O tom não era exatamente irritado. Era mais o tipo de resignação silenciosa de quem já estava acostumada. Já Evelyn endireitou a postura imediatamente, como se tivesse sido pega fazendo algo errado.

    — Ei! — disse ela. — E-eu só queria demonstrar que tava tudo sob controle! Nada melhor do que se parecer orgulhosa. Você faz isso todo momento!

    Brigitte inclinou levemente a cabeça, olhando para ela com aquela expressão cansada de quem já tinha ouvido desculpas piores.

    — Tudo bem, tudo bem, dona. Já que você diz…

    — Eu dig-!

    Evelyn abriu a boca para retrucar, mas acabou apenas virando o rosto com um pequeno resmungo, cruzando os braços.

    Enquanto isso, Brigitte deu um pequeno alongamento. Ela caminhou primeiro até Gwen, que ainda estava apoiada contra a parede, respirando com dificuldade. O rosto dela estava marcado de roxo e o sangue seco começava a escurecer na pele. Com um movimento rápido, puxou a corrente que prendia a esotérica junto de uma faísca.

    — Consegue ficar de pé? — perguntou Brigitte, oferecendo o braço.

    Gwen assentiu, embora o movimento fosse lento. Com a ajuda dela, conseguiu se erguer, ainda cambaleando um pouco.

    — Já estive pior… — murmurou.

    Brigitte não respondeu. Apenas a conduziu alguns passos para longe da parede antes de voltar para Niko. Ele ainda estava preso pela corrente no pulso. Brigitte segurou o primeiro elo de ferro, avaliando a fixação na parede por um segundo. Então puxou.

    O metal estalou. Diferente do de Gwen — que cortou a corrente em duas partes —, a corrente de Niko inteira se soltou da estrutura com um ruído seco. Ela olhou rapidamente para o ponto onde o ferro havia cedido, franzindo levemente a testa.

    — Ué… — comentou, quase distraída. — Essa corrente tava mais frouxa.

    Niko ficou em silêncio por um segundo. Suas íris voltaram ao normal. A sensação de liberdade foi estranha no início. Os braços ainda estavam pesados e doloridos pelos golpes recentes. Ele passou a mão pelo ombro machucado e depois pelas costelas, testando o próprio corpo com cuidado enquanto se afastava da parede. Sem dizer nada, atravessou o banheiro lentamente.

    No outro lado do cômodo, entre destroços do banheiro, estava a foice que havia sido arrancada dele mais cedo. Ele se abaixou e a pegou. O peso familiar trouxe uma sensação estranha de estabilidade.

    Por um momento, apenas observou a lâmina curva refletindo a luz fria do banheiro. Depois o olhar caiu sobre o manto que havia sido deixado próximo dali — o tecido escuro que antes havia envolvido o corpo dele. Niko o pegou.

    Algo ainda não parecia certo naquela peça. Ele lembrou das lutas que teve, de quando sofria algum golpe na roupa — até mesmo fogo —, mas o tecido nunca rasgava ou estragava como deveria. 

    Sem pensar muito, puxou uma das facas presas ao manto. Passou por debaixo do tecido, próximo ao ombro. Então, ele pressionou a arma… Nada. 

    Franziu a testa e aplicou mais força, tentando perfurar o material com um golpe seco… Crack. Um pequeno som de metal se partindo, baixo mas claro. Enquanto isso, o manto continuava intacto. Niko afastou a faca imediatamente. Quando revelou a faca, a ponta da lâmina havia quebrado. 

    Ele ficou olhando para aquilo por um momento. Então olhou de volta para o manto. A compreensão veio devagar, mas quando o acertou, sabia exatamente o que deveria fazer daqui em diante. Desde o início da jornada estava carregando uma peça de proteção poderosa, e mal sabia disso. E, quando mais precisava do manto, ele não o tinha.

    Sem dizer nada, ele passou o manto novamente pelos ombros e o ajustou ao corpo, sentindo o peso estranho do tecido reforçado cair sobre as costas.

    Do outro lado do banheiro, a conversa entre as garotas seguia. Evelyn estava agachada perto da garota caída, observando o rosto dela com uma mistura visível de curiosidade e incredulidade.

    — Paraí… — disse, inclinando a cabeça. — Esse é O Valand?

    Ela apontou discretamente para a garota, mas o gesto acabou virando uma pequena inspeção visual. O olhar de Evelyn percorreu o rosto jovem, os fios de cabelo espalhados pelo chão, os traços finos demais para alguém que comandava uma base inteira. As sobrancelhas dela se ergueram lentamente, como se quanto mais olhasse, menos aquilo fizesse sentido.

    — Ele é uma… garota adolescente?

    Gwen, apoiada de costas para uma parede, respirando fundo para recuperar o fôlego, soltou uma pequena risada cansada pelo nariz. Ela pressionava um bloco de gelo — que Evelyn lhe deu antes — contra um dos hematomas roxos no próprio rosto. O frio arrancou um leve arrepio, mas ela continuou passando o gelo devagar pelos ferimentos.

    — Pois é. — respondeu, passando a mão pelo próprio cabelo bagunçado. — Até eu fiquei confusa nisso.

    Evelyn estreitou os olhos, observando melhor. Ela se inclinou um pouco mais para frente, aproximando o rosto como se a proximidade fosse resolver o enigma.

    — Espera… — murmurou. — Ela não parece ter mais que… dezesseis anos?

    Brigitte, que observava de um pouco mais longe, lançou um olhar rápido na direção delas.

    — Talvez não seja uma boa ideia ficar analisando ela como se fosse um animal raro.

    — Eu não tô analisando. — retrucou Evelyn, sem tirar os olhos da garota. — Eu só tô tentando entender como isso aqui é o chefe de uma facção inteira.

    Antes que Evelyn continuasse como se estivesse em uma exposição de artes, Brigitte se aproximou da garota, se agachou e deu dois tapinhas em sua bochecha.

    — Ei. Acorda.

    A garota soltou um pequeno suspiro antes de abrir os olhos lentamente. O olhar demorou um instante para focar, passando pelo teto primeiro, depois pelos rostos ao redor. Não havia hostilidade ali. Nem aquela apatia vazia de antes. Só confusão e medo. Ela piscou algumas vezes antes de falar qualquer coisa.

    — …Q-quem são vocês?

    Por um segundo inteiro ninguém respondeu. Evelyn e Brigitte se entreolharam rapidamente, com a mesma pergunta silenciosa passando entre as duas. 

    Gwen foi a primeira a reagir. Ela fez uma expressão irritada, afastando-se da parede e dando um passo na direção da garota.

    — Hah?? Como assim “quem é a gente”?! — retrucou. — Vai se fazer de sonsa agora?!

    A garota franziu a testa, olhando ao redor do banheiro como se estivesse tentando entender onde estava. O olhar passou pelas correntes quebradas. Pelo sangue espalhado no chão. Pela barra de ferro caída alguns metros adiante.

    — Eu… — começou, levando a mão à cabeça. — O que aconteceu aqui?

    Evelyn e Brigitte trocaram um olhar rápido novamente, desta vez mais pesado. A dúvida estava estampada nas duas: aquilo não parecia encenação. Não tinha ironia. Não tinha desafio.

    — Tá de sacanagem… — murmurou Gwen.

    Ela caminhou até a garota em dois passos rápidos, inclinando-se e agarrando a parte da frente da roupa dela, puxando-a pela gola.

    — Ei. — disse, irritada, aproximando o rosto do dela. — Olha pra mim. Você acabou de quase matar a gente, ou não tá lembrada disso também?

    Os olhos da garota se arregalaram imediatamente. O susto veio primeiro que qualquer reação. Ela fechou os olhos com força e virou o rosto para o lado.

    — N-não! — gaguejou, levantando as mãos em um reflexo defensivo, os dedos tremendo no ar como se tentasse afastar uma ameaça invisível. — E-eu nunca faria isso!

    Gwen apertou um pouco mais a gola da roupa dela, puxando-a alguns centímetros para cima. O movimento foi rápido, impulsivo, carregado com a irritação acumulada das últimas horas e da dor ainda pulsando em seu corpo.

    — Ah é? — retrucou, com o cenho franzido e o rosto ainda marcado pelos hematomas recentes. — Porque isso aqui não tá parecendo muito com “nunca faria”.

    A garota engoliu em seco, claramente perdida. Abriu os olhos de novo. O olhar dela corria pelo rosto de Gwen, depois pelo ambiente ao redor, tentando encontrar alguma lógica naquela situação.

    — I-isso deve ser coisa do meu irmão… — disse finalmente, a voz ainda trêmula, como alguém tentando agarrar a primeira explicação que lhe vinha à cabeça.

    Niko, que até então se mantinha um pouco mais atrás, se aproximou do grupo com passos cautelosos. Ele não tinha visto nada da conversa anterior — apenas a cena atual, Gwen segurando a garota pela roupa e todo mundo olhando para ela com desconfiança.

    Mas o que realmente chamou sua atenção foi outra coisa. O rosto da garota. Confusão. Medo. Nervosismo. Aquelas eram emoções claras. Não havia nada daquela apatia vazia que ele tinha visto antes. Uma pequena tensão surgiu no fundo do estômago de Niko enquanto ele observava aquilo em silêncio.

    — Seu… irmão? — perguntou Gwen, ainda segurando a gola da garota, mas agora com um tom mais desconfiado do que agressivo.

    — Valand. — respondeu ela, como se fosse a resposta mais óbvia do mundo.

    Gwen piscou algumas vezes, processando aquilo.

    — Você… não é o Valand?

    A garota pareceu ainda mais confusa com a pergunta, como se não conseguisse entender de onde aquela conclusão tinha surgido.

    — C-claro que não. — respondeu, quase ofendida, levando uma das mãos ao peito de maneira instintiva. — E-eu sou a irmã dele.

    Niko ficou completamente confuso por um segundo inteiro. As peças simplesmente não se encaixavam.

    Do outro lado, Evelyn observava toda a cena com os braços cruzados e o peso do corpo apoiado em uma das pernas. A expressão dela era uma mistura clara de impaciência e irritação crescente por não entender absolutamente nada da conversa. O olhar dela alternava entre os rostos, tentando captar o sentido apenas pelas reações.

    — Alguém vai me explicar o que tá acontecendo ou eu vou ter que adivinhar pela linguagem corporal? — resmungou.

    Brigitte lançou um olhar rápido para ela antes de responder.

    — Ela… — começou, escolhendo as palavras com cuidado enquanto apontava discretamente para a garota sentada no chão. — Ela tá dizendo que não é o Valand.

    Evelyn franziu a testa imediatamente.

    — Como assim não é?

    A luminar deu um pequeno de ombros, claramente tão confusa quanto o resto.

    — Tá dizendo que é a irmã dele.

    Evelyn ficou alguns segundos em silêncio, olhando para a garota sentada no chão como se estivesse tentando decidir se aquilo era uma piada muito ruim ou apenas mais um absurdo daquela noite.

    — …Isso não faz o menor sentido.

    A garota continuava olhando para todos eles com uma mistura crescente de nervosismo e confusão, claramente sentindo que estava no meio de algo que não entendia. As mãos dela permaneciam próximas ao próprio corpo, como se estivesse pronta para se defender a qualquer momento.

    — O que… o que vocês estão fazendo aqui? — perguntou novamente, agora com a voz mais baixa e cautelosa. — Onde está meu irmão?

    Antes que alguém pudesse responder, o silêncio do banheiro foi quebrado por um som pesado vindo da entrada. A grande porta de metal do banheiro foi aberta com força, batendo contra a parede com um eco metálico que reverberou pelo cômodo inteiro. Duas silhuetas armadas com rifles surgiram na entrada. Um dos homens apontou imediatamente para dentro da sala.

    La chefa s’es aquí! Eles prenèron la chefa!

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