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    A Praça das Lanternas Velhas continuava tão vazia quanto no momento em que chegaram lá. Desde a hora em que o grupo aguardou Brigitte retornar até agora, poucas pessoas passaram pela praça, e nenhuma ficou ali por mais de cinco minutos.

    O festival continuava em Daurlúcia, mas bem menos barulhento que antes. Ainda era possível ouvir música distante carregada pelo vento noturno, falas ocasionais e o eco irregular de pessoas aproveitando os últimos momentos daquela noite.

    As lanternas antigas que davam nome ao lugar permaneciam penduradas em postes de ferro. Algumas continuavam acesas, espalhando círculos suaves de luz amarelada sobre os caminhos de pedra. Outras já tinham apagado fazia horas, deixando pequenos trechos mergulhados em sombra.

    O vento vindo das partes escuras da cidade atravessava a praça constantemente . Não era forte, só insistente. O suficiente para balançar as copas das árvores e fazer algumas folhas secas deslizarem pelo chão.

    Niko permanecia sentado em um dos bancos próximos ao centro. Os cotovelos estavam apoiados sobre as pernas e as mãos unidas à frente do corpo. O corpo todo envolto do manto negro que aquecia seu corpo. A postura levemente inclinada para frente dava a impressão de alguém descansando depois de um dia longo, mas aquilo estava longe de ser verdade. Seus olhos permaneciam fixos em algum ponto distante da praça.

    Ao seu lado, Evelyn travava uma batalha perdida contra o próprio sono. A garota mantinha um jornal dobrado apoiado sobre o colo enquanto tentava permanecer acordada. Tentava era a palavra importante. De tempos em tempos sua cabeça pendia alguns centímetros para frente antes de retornar lentamente à posição original. Os cabelos grisalhos escorriam parcialmente pelo ombro enquanto ela lutava contra um inimigo muito mais poderoso do que qualquer criminoso daquela investigação: o sono depois de litros de álcool.

    Do outro lado do banco, Gwen ocupava uma posição que provavelmente faria qualquer pessoa normal cair no chão. Ela estava sentada sobre o encosto de madeira, com os pés apoiados no assento e o rosto apoiado pelas próprias mãos. Ela parecia profundamente entediada, como alguém assistindo uma peça teatral particularmente longa cujo final já conhecia.

    Niko observou as duas por só mais um segundo, e então soltou o ar lentamente pelo nariz. Eles estavam perto. Perto demais para aquilo ser coincidência ou uma brincadeira de mal gosto do destino.

    A cada passo da investigação, as peças pareciam se encaixar com mais facilidade. O terminal. Grupo Valand. Os ferroviários. Tudo apontava na mesma direção agora. Não era exatamente uma linha reta ainda, mas já era uma direção clara o bastante para enxergar o formato do problema.

    E, estranhamente, aquilo não o deixava nervoso. Dias atrás deixaria. Sem dúvida. Porque ainda existiam variáveis demais. Informações demais faltando. Pessoas demais envolvidas… Mas alguma coisa agora tinha mudado. Seu olhar deslizou brevemente para Gwen.

    A esotérica continuava apoiando o rosto nas próprias mãos, observando a praça com o mesmo nível de interesse que uma pessoa teria vendo tinta secar.

    Niko desviou os olhos novamente. Ele confiava nela. Não apenas porque ela era inteligente. Nem porque tinha bons instintos. Nem porque suas deduções costumavam funcionar. Era algo diferente. Mais próximo de uma certeza irracional. Uma confiança que não passava por lógica antes de chegar às conclusões.

    Se Gwen dizia que estavam na direção certa, então estavam. Se Gwen dizia que encontrariam o dríade, então encontrariam. Se Gwen dissesse que precisavam atravessar a cidade inteira para perseguir um pombo particularmente suspeito, ele provavelmente pediria detalhes primeiro… mas depois cessaria.

    Por um instante, uma ideia particularmente absurda atravessou sua cabeça. E se Gwen realmente fosse algum tipo de enviada divina? Não exatamente uma santa, mas talvez algo próximo.

    Alguma espécie de mensageira enviada pelos deuses estranhos que ela menciona tanto. Uma figura destinada a aparecer no momento exato em que tudo estava dando errado, resolver problemas impossíveis e depois desaparecer sem explicar nada para ninguém. A hipótese explicava mais coisas do que deveria.

    Niko chegou até a imaginar como ela ficaria usando vestimentas religiosas. Mantos ornamentados. Símbolos sagrados. Talvez uma coroa. Talvez um cajado. Provavelmente fazendo comentários sarcásticos durante as missas “gweninistas”.

    A ideia, por algum motivo, continuou escalando. Quais seriam as regras daquela religião? Não roubar? Não matar? Não mentir? Não. Aquilo não parecia certo. Talvez fosse algo mais próximo de: “Não ignore arrepios suspeitos”, “confie em coincidências estranhamente específicas” e “jamais aposte contra Gwen quando ela disser que tem um pressentimento.”

    Quais seriam os pecados? Questionar uma intuição? Comprar um mapa? Planejamento excessivo? Niko não fazia ideia. E, honestamente, também não tinha certeza se a própria Gwen saberia responder.

    A imagem mental piorou ainda mais quando ele imaginou os seguidores tentando interpretar algum comentário aleatório dela como uma escritura sagrada. Então imaginou Gwen descobrindo isso. Então imaginou Gwen dizendo algo horrível de propósito só para ver até onde eles iriam. Então imaginou os próprios seguidores decidindo que aquilo era heresia.

    E, por algum motivo, a sequência terminou com Gwen sendo condenada pela própria religião e arrastada para uma fogueira enquanto reclamava que aquilo era completamente injusto.

    Vocês literalmente criaram essa religião por minha causa!

    Isso é exatamente o que uma herege diria!

    EU SOU A FUNDADORA!

    Que conveniente!

    Ele descartou o pensamento imediatamente, balançando a cabeça para afastar a criatividade excessiva. “Não, Niko. Isso não tem nada a ver.

    O som ritmado de passos atravessou a praça. Niko ergueu os olhos. Ao mesmo tempo, Gwen levantou um pouco o rosto apoiado nas mãos. A esotérica observou a figura de pele negra, cabelos cacheados e camisa social branca, segurando um blazer caminhando entre os postes iluminados durante alguns segundos. Um sorriso meio presunçoso surgiu imediatamente.

    — Olha só, parece que alguém conseguiu finalmente encontrar algo de útil hoje. — disse Gwen, já saltando do banco e aterrissando no chão com uma elegância irritante. — Eu tava começando a achar que a gente tinha dividido a equipe entre investigadores e turistas. 

    Brigitte abriu um sorriso ainda maior ao ouvir aquilo.

    — Hahaha, eu também senti saudades, dona “só fiquei sentada no banco”.

    — Só faz uns quarenta minutos. — respondeu Gwen.

    — Tempo suficiente pra fazer um espaguete à bolonhesa maravilhoso. — disse Brigitte, gesticulando com o braço livre. — Honestamente, vocês deviam estar mais impressionados com minha eficiência. 

    Niko se levantou logo em seguida. Seus olhos passaram rapidamente pelo blazer dobrado sob o braço enfaixado dela, pelos cabelos agora soltos e pela expressão satisfeita que carregava no rosto. Não parecia alguém que tinha acabado de sair de uma situação particularmente complicada. Parecia alguém voltando de um passeio agradável. O que — considerando que conhecia Brigitte — parecia ter sido algo equivalente a isso.

    Evelyn demorou alguns segundos a mais. A garota bocejou discretamente enquanto se levantava do banco, esfregando um dos olhos antes de finalmente focar em Brigitte.

    — Hm…

    Ela inclinou levemente a cabeça.

    — Ah, você voltou. Como foi lááá~~? — perguntou, bocejando no final da frase. — Você descobriu uma conspiração criminosa gigantesca ou só traumatizou mais alguns funcionários públicos inocentes? — ela olhou Brigitte mais uma vez. — Pela sua cara, parece que foi a primeira opção.

    — E você está certíssima!

    O pequeno grupo se reuniu naturalmente no centro da praça — embora Evelyn parecesse que desabaria a qualquer momento. Brigitte olhou os três por um instante antes de erguer o bloco de notas que carregava no bolso.

    — Resumo da ópera: eu consegui os nomes. Eeee…

    A reação foi imediata. O semblante de Niko mudou no mesmo instante. A atenção dele passou a pertencer inteiramente àquele bloco de notas. Brigitte percebeu a reação. E gostou. Gostou muito. Por isso mesmo ergueu o indicador. Esperou alguns segundos, apenas o suficiente para criar expectativa.

    — Eu consegui os endereços também.

    O sorriso satisfeito que surgiu em seu rosto era praticamente impossível de esconder. Ela claramente estava se divertindo.

    Gwen cruzou os braços.

    — Nossa, meus parabéns, garota. Eu juro que pensei que a gente teria de invadir mais um lugar pra encontrar os endereços. Impressionante.

    — Eu também. — disse Evelyn. — Inclusive já tinha me preparado emocionalmente pra próxima perseguição.

    — Fico feliz em decepcionar vocês. — respondeu Brigitte. — Às vezes eu resolvo problemas de maneiras convencionais. É, eu sei. Eu sou demais.

    Niko ignorou completamente as duas, voltando toda a sua atenção para a informação que Brigitte conseguiu.

    — Quantos envolvidos?

    — Cinco operadores confirmados. — respondeu a luminar. — Pelo menos cinco pessoas diretamente ligadas à operação. Pode existir mais gente trabalhando por fora, mas se existir, eles não estavam nos registros que eu consegui acessar. 

    A resposta fez o garoto permanecer em silêncio por alguns segundos. Cinco. Novamente eles tinham alvos concretos agora, mas diferente da GV que servia como intermediário, eles agora tinham informações diretas sobre os “fornecedores”. Era mais do que perfeito, muito mais perfeito do que tudo que haviam conseguido.

    — Então realmente funcionou… — murmurou.

    Brigitte abriu os braços.

    — Claro que funcionou. Foi facinho.

    Dessa vez até Gwen riu.

    — Ah, foi?

    — Foi muito. — respondeu Brigitte sem hesitar. — Eu entrei no lugar, conversei cordialmente com os dirigentes, eles colaboraram espontaneamente com a investigação, me forneceram informações extremamente sensíveis e depois eu fui embora.

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