Capítulo 202 - Coincidências III
O silêncio entre eles agora já não era pesado como antes. Ainda era quieto, mas menos morto.
— Eu peguei aquilo e fui embora correndo. Passei três dias comendo daquele pão e a febre passou por causa daqueles remédios.
Ela deu um pequeno sorriso, mais curto dessa vez.
— E eu lembro de pensar que aquilo era ridículo demais pra ser só sorte. Quem deixa uma cesta cheia de pães e remédio no meio de um temporal?
Uma pausa.
— Eu não sei como isso funciona, mas eu sei que são os deuses.
Niko fechou os olhos por um instante. Parte dele queria desmontar aquilo. Queria encontrar lógica, falha, um acaso mal interpretado. Queria chamar de sobrevivência, de oportunismo, de sorte. Queria repreendê-la, chamá-la de ladra. Mas não conseguiu. Porque, no fundo, ele sentia uma atração daquele tipo de história mística. E era isso que ele odiava. Não do impossível. Mas quando o impossível insistia em acontecer bem na frente dele.
— Todas essas dúvidas sobre as coincidências que eu tive me deixaram maluca. — ela disse, com um pequeno sorriso cansado. — Eu ficava tentando entender, tentando organizar, tentando descobrir se tinha um padrão… até que uma hora eu só cansei.
Ela ergueu levemente o olhar, como se ainda conseguisse ver aquele momento em algum lugar acima deles.
— E eu perguntei pro mundo. Literalmente gritando em uma avenida: “quem tá me ajudando?”
O bar pareceu se afastar um pouco outra vez.
— E na mesma hora… — soltou um pequeno riso pelo nariz. — Um livro caiu na minha frente.
Niko finalmente moveu um pouco a cabeça, só o suficiente para virar o rosto na direção dela. Os cornicellos tilintaram baixo no movimento.
— Como assim “caiu”?
— Só caiu. Do nada. — ela confirmou. — Na minha frente. Bem na minha frente.
— Caiu… de uma sacada?
— Não tinha sacada ali. Eu tava no meio da rua. — ela abriu a boca de leve, animada.
— De alguém passando então?
— Não tinha ninguém passando. — ela riu enquanto falava. — Só caiu. Eu olhei pros lados mas não tinha nada que explicasse aquilo.
— Me diz: quais são as chances disso acontecer?
Niko respirou fundo pelo nariz, ainda tendendo a bochecha próxima da madeira.
— Muito baixas.
— Sim! Exatamente! — Gwen respondeu, agora com uma energia que não estava ali antes. — Muito baixas! Ridiculamente baixas!
Ela se endireitou um pouco mais no banco, virando-se para o garoto, inclinando em sua direção. Seu rosto estava com uma expressão contente, o entusiasmo finalmente atravessou a calma por completo.
— E não era qualquer livro, era As Tríades de Oc. Era um livro sobre a tradição dos povos antigos… histórias, nomes, rituais, tudo. Era como se alguém tivesse respondido “você quer saber? Toma.”
As mãos dela se moveram pela primeira vez com mais vida.
— Como uma entidade se manifestaria pra mim? Não ia aparecer uma voz no céu nem um velho brilhante descendo uma escada. Foi um livro. Algo simples. Algo que eu podia pegar.
Ela sorriu, daquele jeito quase teimoso que ele já estava começando a se acostumar.
— Só pode ser os deuses então!
Por um instante, ela parecia mais jovem. Mais leve. Como se aquela certeza tivesse sido construída justamente pra impedir que o mundo esmagasse o resto. Mas o entusiasmo foi diminuindo aos poucos. Ela voltou a apoiar o braço no balcão e a voz, quando retornou, estava mais baixa.
— Então… — ela continuou, depois de um tempo — eu parei de tentar entender desse jeito.
O olhar dela desceu até a madeira entre os dois.
— Eu percebi que, se eu passasse a vida inteira tentando provar aquilo, eu só ia perder a própria vida no processo.
Uma pausa.
— Então eu resolvi só aceitar o que acontecia à minha volta.
Ela respirou curto.
— As coisas boas. As ruins. As coincidências. O caos.
Os dedos dela tocaram de leve a madeira, como se a frase ainda precisasse de algum lugar físico para existir.
— Porque ficar tentando controlar tudo… não muda nada.
O olhar dela finalmente voltou pra ele. Agora mais calmo. Mais firme. Ainda sem tentativa de convencer — apenas a certeza tranquila de quem já havia brigado demais com aquilo e, no fim, decidiu parar.
— Mas escolher o que fazer depois disso… isso muda tudo.
O bar continuava o mesmo. A noite seguia como se aquela conversa não fosse importante. Como se o mundo inteiro não estivesse parado naquele pequeno espaço entre os dois. Niko continuava imóvel, mas já não parecia afundado da mesma forma. Havia tensão agora. Pensamento. Incômodo. Vida. Gwen respirou devagar antes de continuar.
— E bem… só porque a gente não conseguiu achar o dríade agora, não muda o fato de que a gente chegou até aqui.
O dedo dela parou sobre a madeira.
— Não foi uma coisa só.
Ela respirou curto.
— Foram várias.
Um instante. Então…
— Não é coincidência que várias coincidências tenham acontecido hoje.
Niko olhou para a madeira à sua frente, para os pequenos reflexos vermelhos dos cornicellos pendurados nos próprios chifres, balançando quase imperceptivelmente com sua respiração. Parte dele ainda queria rejeitar aquilo, mas a outra parte — a parte cansada demais para continuar fingindo controle — sabia que aquilo não importava tanto quanto ele queria. Talvez o problema nunca tivesse sido a falta de respostas. Talvez fosse o medo de agir sem tê-las.
Gwen apoiou melhor o braço no balcão. Quando falou de novo, a voz continuou no mesmo volume.
— A gente pode ficar aqui tentando entender o que deu errado.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Ou a gente pode decidir o que faz agora.
Niko permaneceu em silêncio. Ela não apressou. Não insistiu. Só continuou escutando.
— Porque ninguém mais aqui dentro consegue.
Uma pausa.
— Só você pode ajudar o garoto.
Niko ficou em silêncio. O olhar ainda estava preso na madeira do balcão, nos pequenos reflexos vermelhos dos cornicellos balançando de leve a cada respiração.
Estava cansado. Queria empurrar aquela responsabilidade para qualquer outro lugar que não fosse suas próprias mãos. Mas não havia nada que pudesse pegá-la. Era simples demais fugir, mas o garoto ainda estava lá, e ficar parado ali, tentando entender o que tinha dado errado, não mudaria absolutamente nada. Ele não poderia fugir e sabia bem disso, agora aceitando.
Seus dedos se fecharam devagar sobre a madeira, como se finalmente segurassem alguma coisa concreta no meio daquele caos. Ele respirou fundo, ergueu a cabeça pela primeira vez em muito tempo e, com a voz rouca, mas agora firme, tomou sua decisão.
— Se é assim, a gente precisa fazer um novo plano.

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