E então ele abriu os olhos.
    A brisa fria criava uma sensação agradável em sua pele. Um campo de flores, de todos os tipos, brancas, pretas, rosas e vermelhas… e cinza-escuro talvez. Ele não se lembrava assim tão bem.
    — Claire?
    O vento que era suave, dessa vez bateu com força como se reagisse ao nome. Seu cabelo escuro foi levado para o alto enquanto o resquício de um sol tímido fingia esquentar algo.
    — O que? Quem é Claire? — Ele murmurou para si mesmo em confusão.
    Levantando-se devagar, ele deixou o olhar vagar pela paisagem diante de si.
    O campo parecia não ter fim. Flores se espalhavam em todas as direções, cobrindo a terra como um oceano silencioso de cores suaves que ondulava ao toque do vento. Ao longe, a linha do horizonte se dissolvia em uma névoa dourada.
    — Então as flores cinza-escuro estavam aqui mesmo, hm…
    O sol começava a invadir naquele instante.
    Os primeiros raios atravessavam o campo lentamente, cobrindo as pétalas com reflexos quentes e fazendo o orvalho brilhar como pequenos fragmentos de vidro espalhados entre as flores. A luz tocou seu rosto com delicadeza, afastando o frio da madrugada aos poucos.
    Por um momento, tudo parecia calmo demais para ser real.
    — E eu achando que o sol já estava aqui… — um riso curto escapou entre seus lábios, mais nervoso do que divertido. — Acho que estou enlouquecendo mesmo.
    — Eiiii!
    A voz surgiu de repente.
    Seu corpo travou antes mesmo que pudesse pensar. O coração disparou em um salto violento enquanto ele girava instintivamente na direção do som, os pés esmagando flores úmidas contra o chão.
    Ao longe uma menina começou a aparecer lentamente.
    — Vance!
    Seus cabelos negros voavam sob o reflexo contra o sol.
    — Ei, ei, me responda!
    A garota ergueu o braço enquanto corria pelo campo, afastando as flores altas com as pernas. Os cabelos negros dançavam contra a luz do amanhecer, brilhando em tons dourados cada vez que o sol atravessava os fios.
    Por um instante, ele apenas ficou parado.
    — Finalmente achei você… — ela pulou em direção a Vance em um abraço inesperado.
    — Sabia que você estaria aqui… seus pais estiveram te procurando por toda essa madrugada — a menina disse tentando segurar a láagrima que escorria em seu rosto.
    — Calma, Elena, só acabei dormindo demais. — Ele disse em tom de brincadeira.
    Os olhos dourados da garota refletiam o mundo com uma clareza no mínimo belíssima.
    Vance desviou o olhar por um instante, incomodado pela intensidade com que ela o encarava.
    — Você sumiu do nada no meio da noite — Elena resmungou enquanto limpava o rosto com a manga. — Achei que tivesse ido perto da Névoa outra vez.
    — Eu não sou tão idiota assim.
    Ela ergueu uma sobrancelha imediatamente.
    — Você literalmente dormiu aqui sozinho.
    — Ah… não é como se algum monstro fosse me pegar aqui.
    Um pequeno riso escapou dela dessa vez, curto e cansado. O vento voltou a atravessar o campo devagar, fazendo as flores se inclinarem ao redor dos dois.
    — Monstros não existem, bleeeh — ela disse enquanto mostrava sua língua em tom de deboche — Você já não me assusta mais, agora eu já tenho 7 anos.
    — 7 anos é. Bem… eu faço 8 mês que vem. — Vance disse tentando irritar ela.
    Elena estreitou os olhos imediatamente.
    — Ah é? Então quer dizer que agora você é super adulto?
    — Exatamente. Pessoas de quase oito anos possuem responsabilidades.
    — Tipo dormir no meio de um campo igual um mendigo?
    Vance levou a mão ao peito como se tivesse sido ofendido de verdade.
    — Isso se chama apreciar a natureza. E inclusive… — ele se abaixou entre as flores, afastando algumas pétalas com cuidado até encontrar o que procurava. — Eu tenho um presente.
    Entre o mar de cores suaves, uma única flor cinza-escura repousava quase escondida. As pétalas possuíam um tom incomum, profundo o bastante para parecer absorver parte da luz ao redor.
    Os olhos de Elena se arregalaram no mesmo instante.
    — Vance…
    Ele arrancou a flor com cuidado e a ergueu na direção dela, um pequeno sorriso aparecendo em seu rosto.
    — Pra você.
    A garota pegou a flor lentamente, como se estivesse recebendo algo raro demais para tocar sem cuidado. A expressão cansada desapareceu por completo, substituída por um brilho genuíno nos olhos dourados.
    — Nossa… incrível…
    Ela aproximou a flor do rosto, observando cada detalhe das pétalas escuras balançando sob o vento da manhã.
    Então ergueu o olhar para ele outra vez.
    — É exatamente da mesma cor dos seus olhos.
    Vance desviou o rosto quase imediatamente.
    — Não é não.
    — É sim.
    — Não é.
    — Pelos deuses, como você é chato.
    Em vez de brigar, ela começou a rir baixinho enquanto ele resmungava alguma reclamação sem sentido. O som leve da risada dela se misturava ao vento e ao balanço suave das flores ao redor.
    — Já está na hora de voltar, seus pais devem estar ainda mais loucos em procurando por você.
    Elena segurou a flor cinza junto ao peito enquanto começava a caminhar pelo campo. As pétalas roçavam contra suas pernas a cada passo, espalhando pequenas gotas de orvalho pelo ar.
    Ela estendeu a mão na direção de Vance:
    — Vamos?
    — Sim… vamos.
    Vance segurou a mão dela sem pensar muito. Os dedos pequenos de Elena estavam gelados por causa da manhã fria, mas ela apertou sua mão com firmeza assim que começaram a caminhar.
    O campo de flores foi ficando para trás aos poucos.
    A cada passo, o cheiro doce das pétalas dava lugar ao aroma úmido da terra e da madeira molhada pela neblina da madrugada. O sol já subia devagar acima do horizonte, espalhando uma luz dourada sobre os caminhos estreitos que levavam de volta à cidade.
    Eles caminharam por vários minutos em silêncio.
    Elena às vezes chutava pequenas pedras pelo caminho enquanto balançava a flor cinza entre os dedos, claramente satisfeita demais com o presente para esconder.
    Vance apenas observava.
    As casas começaram a surgir lentamente ao longe.
    Construções de pedra escura e madeira antiga se espalhavam em círculos apertados ao redor do centro da cidade. Chaminés soltavam fumaça fina no ar da manhã enquanto comerciantes começavam a abrir as primeiras barracas do dia.
    Mais distante, quase tocando o céu, as grandes torres de oração permaneciam imóveis.
    Sinos enormes pendiam delas, silenciosos.
    E além de tudo aquilo…
    A Névoa cinza.
    Mesmo distante, ela cercava completamente a cidade como um oceano parado. Na verdade, cercava muito além da cidade, mas apenas essa.
    Vance nunca gostou de olhar para ela por muito tempo.
    Sempre tinha a sensação de que alguma coisa olhava de volta.
    — Vance!
    A voz surgiu antes mesmo que eles atravessassem o portão principal.
    Uma mulher correu pela rua de pedra na direção deles, o vestido claro balançando junto aos passos apressados. O rosto cansado carregava alívio e irritação ao mesmo tempo.
    — Pelos deuses, onde você estava?!
    Antes que pudesse responder, ela segurou o rosto dele com as duas mãos, analisando cada detalhe como se tivesse medo de encontrá-lo ferido.
    — Eu só dormi no campo…
    — “Só dormi no campo”?! — ela repetiu, indignada. — Você desapareceu a madrugada inteira!
    Elena soltou a mão dele devagar.
    — Eu o encontrei perto das flores do sul — explicou rapidamente. — Ele estava sozinho.
    A mulher fechou os olhos por um instante, respirando fundo como alguém tentando não perder a paciência.
    Então puxou Vance para um abraço forte.
    — Nunca mais faça isso…
    A voz saiu baixa dessa vez, parecendo cansada.
    Vance ficou imóvel por um momento antes de retribuir o abraço sem jeito.
    Foi então que o primeiro sino tocou.
    O som pesado atravessou a cidade inteira.

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