O interior do transporte era muito maior do que Vance esperava. 

    As portas blindadas se fecharam atrás do último grupo com um ruído pesado, metálico, seguido por uma sequência de travas se encaixando dentro das paredes. O som atravessou toda a estrutura e desapareceu lentamente, como se o próprio veículo tivesse engolido o mundo exterior. 

    Luzes azuladas percorreram o teto. 

    Os bancos ocupavam as laterais do compartimento, voltados uns para os outros. Não havia janelas convencionais, apenas estreitas faixas reforçadas de vidro escurecido próximas à parte superior da fuselagem. O cheiro de metal aquecido, óleo e equipamentos recém-ligados preenchia o ambiente. 

    Ysolde escolheu um assento próximo à parede e acomodou o capacete sobre as pernas sem dizer absolutamente nada. 

    Vance sentou-se à frente dela. 

    Por alguns segundos, o único som presente foi o das fivelas metálicas sendo ajustadas e dos motores despertando em algum lugar muito abaixo deles. 

    Então tudo vibrou. 

    — Transporte sete autorizado para deslocamento. Tempo estimado até Urio: quarenta e oito minutos. 

    O veículo avançou. 

    Do lado de fora, através da pequena abertura acima de sua cabeça, Vance observou a plataforma desaparecer lentamente. Os prédios da Academia recuaram, engolidos pela névoa da manhã, enquanto os outros transportes iniciavam movimento em formação organizada. 

    — Por que o capacete? — Vance perguntou 

    Ysolde abaixou os olhos para o objeto apoiado sobre as pernas. 

    Os dedos deslizaram pela superfície escura do material, acompanhando uma sequência de riscos superficiais espalhados próximo à viseira. Marcas pequenas. Antigas. Nenhuma profunda o suficiente para comprometer a estrutura. 

    Ela demorou alguns segundos para responder. 

    — Costume, apenas me sinto mais segura assim. 

    O restante da viagem transcorreu em silêncio. 

    O ronco grave dos motores preenchia o interior do transporte como uma presença constante. De tempos em tempos, pequenas vibrações atravessavam o piso metálico e subiam pelos bancos, lembrando a todos que estavam se deslocando cada vez mais para longe dos limites familiares da Academia. 

    Vance tentou observar a paisagem através das estreitas faixas de vidro próximas ao teto. 

    No início, ainda havia cidade. Prédios altos e coisas assim. 

    Depois vieram os bairros periféricos. As torres deram lugar a construções mais baixas, espalhadas de maneira menos rígida, como se a arquitetura tivesse perdido a necessidade de disputar espaço vertical. 

    E então, quase sem perceber, a civilização começou a rarear. 

    O espaço entre as casas aumentou gradualmente, primeiro alguns metros, depois dezenas deles. As estradas largas transformaram-se em vias estreitas que serpenteavam pela paisagem em vez de cortá-la em linhas perfeitas. Postes de iluminação tornaram-se menos frequentes. As estruturas metálicas deram lugar à madeira e à pedra. Pequenas propriedades isoladas surgiam aqui e ali, cercadas por árvores antigas que pareciam ter estado naquele lugar muito antes da chegada das pessoas. O horizonte, antes dominado por construções humanas, começou lentamente a ser tomado por manchas verdes cada vez maiores, até que Vance percebeu que, pela primeira vez desde que chegara a Nova Aster, estava olhando para um mundo que não havia sido completamente moldado pela presença da humanidade. 

    De certa forma aquilo o acalmava. O fazia lembrar om pouco de como era sua vida antes. 

    O transporte diminuiu a velocidade de maneira tão gradual que Vance só percebeu quando o ronco constante dos motores mudou de tom. 

    As vibrações que atravessavam o piso metálico tornaram-se mais suaves. O veículo já não avançava com a mesma firmeza de antes. Do lado de fora, através da estreita faixa de vidro, as primeiras construções de Urio surgiram entre as árvores. 

    Não era uma cidade grande. 

    As casas espalhavam-se ao longo de ruas largas de terra compactada e pequenas avenidas pavimentadas. Telhados inclinados dominavam a paisagem, e jardins ocupavam espaços que, em Nova Aster, provavelmente teriam sido transformados em mais construções. Havia oficinas, mercados locais e pequenas praças cercadas por árvores antigas. Tudo parecia existir num ritmo diferente, distante da pressa constante dos grandes centros urbanos. 

    Mais além, porém, a floresta permanecia. 

    Tão próxima que algumas das últimas casas pareciam ter sido construídas olhando diretamente para aquela muralha verde. 

    Um sinal sonoro ecoou pelo interior do transporte. 

    As luzes azuladas do teto foram substituídas por uma iluminação branca e mais intensa. 

    — Preparar para desembarque. Verificação final de equipamentos. 

    A voz mecânica percorreu o compartimento enquanto pequenos indicadores luminosos se acendiam próximos às portas blindadas. 

    Imediatamente, o ambiente mudou. 

    Fivelas metálicas estalaram. 

    Capacetes foram ajustados. 

    Alunos que permaneceram calados durante toda a viagem endireitaram a postura quase ao mesmo tempo, como se algum mecanismo invisível tivesse sido ativado dentro deles. 

    Ysolde ergueu o capacete das pernas e o encaixou sobre a cabeça com movimentos precisos. Os travamentos laterais se fecharam com pequenos cliques secos. A viseira escurecida ocultou completamente sua expressão, deixando apenas o reflexo esbranquiçado das luzes do teto. 

    Do lado oposto do compartimento, um dos instrutores levantou-se primeiro. 

    — Formação de saída. Equipes juntas o tempo todo. Ninguém se afasta sem autorização. 

    O transporte finalmente parou. 

    Por um breve instante, tudo ficou imóvel. O ronco dos motores continuou existindo em marcha lenta, vibrando através da estrutura metálica e subindo pelo piso até alcançar as solas das botas, mas era um som contido, disciplinado, como uma criatura enorme respirando sem se mover. Do lado de fora, em contraste absoluto, não havia absolutamente nada que lembrasse a agitação constante de Nova Aster. Nenhuma buzina distante. Nenhum fluxo interminável de veículos cruzando avenidas suspensas. Nenhuma multidão transformando centenas de vozes individuais em um único ruído contínuo. 

    Apenas o vento. Um vento frio e úmido que atravessava alguma vegetação próxima e produzia aquele som irregular das folhas se tocando, um barulho tão natural que, por alguns segundos, pareceu estranho aos ouvidos acostumados à cidade. 

    Então os mecanismos de segurança começaram a atuar. O primeiro estalo metálico ecoou próximo às portas blindadas, seguido por outro alguns instantes depois, e depois mais vários em sequência, percorrendo a estrutura interna como uma corrente invisível liberando cada trava do compartimento. 

    O aço vibrou levemente ao redor deles. Pequenas luzes vermelhas mudaram para branco. O sistema hidráulico despertou com um som grave e contínuo, e a enorme porta começou a recuar lentamente para dentro da fuselagem, permitindo que a claridade pálida da manhã invadisse o interior do transporte junto com uma lufada de ar fresco carregada pelo cheiro de terra úmida, madeira envelhecida e vegetação molhada pelo orvalho. 

    O mundo exterior finalmente visível era suficiente para lembrar a todos que a viagem havia terminado e que, dali em diante, não existiria mais a segurança confortável das salas de aula ou dos campos de treinamento da Academia. 

    Urio se estendia diante deles. 

    Pequenas casas ocupavam as ruas próximas, algumas ainda com luzes acesas nas janelas. Moradores observavam a chegada do comboio à distância, reunidos em varandas e esquinas, carregando expressões difíceis de interpretar. 

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