O ar frio atingiu o rosto de Vance no instante em que ele atravessou a porta. A cidade que poucos minutos atrás ainda parecia comum agora afundava lentamente em desespero. Pessoas corriam pelas ruas estreitas empurrando umas às outras enquanto os sinos continuavam ecoando acima de tudo, pesados o bastante para fazer o peito vibrar a cada toque.
    — Elena! Espera!
    Ela seguiu correndo sem olhar para trás. Os cabelos negros balançavam violentamente enquanto atravessava a multidão, desviando de caixas derrubadas, carrinhos abandonados e moradores ajoelhados no meio da rua ainda presos às orações.
    Vance apertou o passo logo atrás dela.
    Alguma coisa estava errada com o céu.
    Mesmo correndo, ele conseguia sentir aquilo pressionando o ar ao redor da cidade. A luz da manhã parecia mais fraca agora, quase adoecida, enquanto sombras estranhas atravessavam os telhados e as nuvens acima giravam lentamente em torno de um único ponto.
    Alguma coisa estava errada com o céu.
    Mesmo correndo, ele conseguia sentir aquilo pressionando o ar ao redor da cidade. A luz da manhã parecia mais fraca agora, quase adoecida, enquanto sombras estranhas atravessavam os telhados e as nuvens acima giravam lentamente em torno de um único ponto.
    Elena virou bruscamente em uma rua estreita, quase escorregando nas pedras úmidas. Vance continuou logo atrás dela enquanto os gritos e os sinos ecoavam pela cidade inteira, misturados ao som constante de passos desesperados.
    — Elena, espera!
    — Eles ficaram na praça central hoje cedo — ela respondeu sem diminuir a velocidade. — Meu pai estava ajudando com as oferendas.
    A respiração dela saía acelerada.
    Os dedos ainda apertavam a flor cinza contra o peito.
    Mais algumas ruas apareceram diante deles até que finalmente chegaram a uma pequena casa próxima da parte sul da cidade. A madeira clara das paredes contrastava com o jardim simples ao redor, onde vasos derrubados espalhavam terra molhada pela entrada.
    Elena avançou imediatamente até a porta.
    — Pai?! Mãe?!
    Nenhuma resposta.
    Ela empurrou a madeira com força suficiente para fazê-la bater contra a parede interna.
    — Mãe?!
    Vance entrou logo atrás dela.
    O interior estava vazio.
    Panelas permaneciam sobre a mesa, uma cadeira caída descansava próxima da cozinha e o fogo ainda queimava fracamente dentro do fogão de pedra, como se alguém tivesse saído às pressas poucos minutos antes.
    Elena atravessou os cômodos rapidamente.
    — Pai!
    O tom da voz começou a falhar aos poucos.
    Ela abriu outra porta.
    Depois outra.
    E nunca aparecia nada.
    O silêncio da casa parecia pesado demais agora.
    Vance observava tudo sem saber exatamente o que dizer. O coração batia rápido enquanto uma sensação estranha crescia no fundo do peito, como se o próprio ar estivesse ficando mais denso.
    Então Elena voltou lentamente para a sala.
    Os olhos dourados percorriam o ambiente vazio enquanto os dedos apertavam a flor cinza com tanta força que algumas pétalas começaram a se dobrar.
    — Eles estavam aqui…
    Sua voz saiu baixa e confusa.
    Foi então que o vento parou completamente.
    O som dos sinos desapareceu.
    As ruas do lado de fora mergulharam em um silêncio estranho, abrupto o bastante para fazer Vance erguer a cabeça imediatamente.
    E então o céu estalou.
    CRRRRACK.
    O som atravessou a cidade inteira.
    Não parecia um trovão.
    Nem pedra quebrando.
    Parecia algo muito maior.
    Como se o próprio mundo tivesse acabado de partir.
    As janelas da casa estremeceram violentamente enquanto pratos caíam da cozinha e se despedaçavam no chão. Elena se assustou com o impacto repentino, dando um passo para trás quase por reflexo.
    Vance correu até a janela.
    E parou.
    O céu havia rachado.
    De verdade.
    A linha brilhante que antes parecia distante agora cortava o firmamento de ponta a ponta, espalhando fissuras luminosas por entre as nuvens escuras. Fragmentos de luz caíam lentamente daquela abertura colossal, queimando no ar como pedaços de estrelas morrendo.
    O rosto de Vance perdeu a cor.
    As pessoas do lado de fora também haviam parado.
    Moradores permaneciam imóveis no meio das ruas, encarando o alto com expressões vazias, incapazes de entender o que estavam vendo. Alguns ainda seguravam oferendas junto ao peito enquanto lágrimas escorriam sem perceberem.
    Então outra rachadura surgiu.
    CRRRRACK.
    Mais uma linha atravessou o céu.
    Depois outra.
    As fissuras começaram a se espalhar rapidamente, cobrindo as nuvens como vidro prestes a despedaçar. Pulsos de luz escapavam das aberturas em intervalos irregulares, iluminando a cidade inteira em flashes brancos.
    O chão tremeu.
    Dessa vez mais forte.
    Vance precisou se apoiar na parede enquanto o som de construções rangendo ecoava pelas ruas. Ao longe, uma das grandes torres de oração começou a inclinar lentamente.
    As pessoas finalmente começaram a gritar.
    O pânico se espalhou de uma vez só.
    Guardas corriam pela avenida principal tentando organizar os moradores enquanto dezenas de pessoas se ajoelhavam no chão implorando aos céus por ajuda.
    — “Os deuses…”
    — “Eles estão zangados…”
    — “O firmamento…”
    Elena se aproximou devagar da janela.
    Os olhos dourados refletiam as rachaduras acima deles.
    — Vance…
    A voz dela tremia.
    — O céu tá caindo.
    Então alguma coisa gigantesca se moveu atrás da abertura.
    Por um único instante, uma silhueta colossal apareceu entre as fissuras luminosas. As nuvens se deformaram ao redor dela enquanto uma pressão absurda desceu sobre a cidade inteira.
    Elena nesse momento se derramou em lagrimas e se abraçou em Vance.
    — Ei, ei… acho que esse é o nosso fim, nós enfurecemos os deuses.
    Vance abraçou ela e disse:
    — Deuses, deuses… deuses é uma ova, se acalme Elena, eles não vão fazer nada com você, eu prometo.
    Elena olhou para ele, seus olhos dourados eram quase impossíveis de ser ignorados.
    — Você promete mesmo?
    — Eu prometo, e se mesmo assim alguém encostar em você, então eu juro que ele vai se ver comigo. — Vance sorriu.
    — Mas você não tem medo? Eles são deuses, o que você poderia fazer?
    — Pare de fazer perguntas difíceis, é só dar uma surra neles.
    Elena riu aliviada.
    — Ah, sim.
    O som leve daquela risada pareceu pequeno demais diante do caos que tomava a cidade, mas ainda assim conseguiu arrancar um sorriso curto de Vance. Por um instante, os dois permaneceram abraçados próximos da janela enquanto a luz estranha das rachaduras atravessava a casa em pulsos irregulares.
    Então o mundo tremeu outra vez.
    As paredes rangeram violentamente enquanto poeira caía do teto e o chão oscilava sob seus pés como se algo gigantesco tivesse acabado de atingir a própria terra. Elena segurou a camisa de Vance com força imediata.
    Lá fora, os gritos aumentavam.
    Vance virou lentamente o rosto na direção da rua e sentiu o estômago afundar.
    As fissuras no céu continuavam crescendo.
    Linhas luminosas atravessavam as nuvens em todas as direções agora, cobrindo o firmamento inteiro como um espelho prestes a se despedaçar. Fragmentos brilhantes caíam das rachaduras constantemente, queimando o ar antes de atingir o horizonte distante.
    Então um som profundo e ao mesmo tempo irritante veio. Tão irritante que Elena poderia sentir o rosto de Vance ficar vermelho de raiva.
    Parecia algo enorme se movendo acima das nuvens.
    As pessoas na rua começaram a apontar desesperadamente para o alto enquanto algumas simplesmente desabavam de joelhos chorando. Um guarda largou a própria lança e começou a rezar em voz alta no meio da avenida.
    E então a primeira parte do céu caiu.
    Uma massa colossal atravessou as nuvens em chamas, arrastando rastros de luz branca enquanto despencava do firmamento. O objeto cortou o ar com um rugido absurdo antes de atingir a região norte da cidade.
    O impacto veio um segundo depois.
    BOOOOOOOM.
    As janelas da casa explodiram.
    A onda de choque atravessou as ruas como uma muralha invisível, arremessando pessoas contra paredes e arrancando telhados inteiros das construções próximas. Vance puxou Elena para baixo instintivamente enquanto madeira e vidro voavam sobre eles.
    O chão tremia sem parar.
    Poeira tomou o ar.
    Gritos ecoavam por todos os lados.
    Quando Vance conseguiu erguer a cabeça outra vez, parte da cidade estava queimando.
    Uma coluna gigantesca de fumaça subia ao longe enquanto chamas começavam a consumir casas inteiras próximas da área atingida. Pessoas corriam entre os destroços cobertas de sangue e cinzas.
    Mas aquilo não era a pior parte.
    Porque a coisa que havia caído ainda estava se movendo.
    Lentamente, uma forma colossal começou a se erguer no meio da fumaça distante. Algo parecido com asas se abriu entre os escombros enquanto uma luz dourada pulsava no centro daquela criatura.
    Os olhos de Elena tremiam.
    — Vance…
    A voz dela saiu quase sem força.
    — Aquilo… é um deus…?
    O garoto permaneceu em silêncio.
    Pela primeira vez desde que tudo começou, ele não tinha nenhuma resposta.

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