A criatura continuava se erguendo no meio da fumaça.
    Mesmo distante, o tamanho dela parecia absurdo. Estruturas destruídas desapareciam sob sua sombra enquanto fragmentos dourados escorriam do corpo gigantesco como sangue luminoso. As asas se abriram lentamente entre as chamas, enormes o bastante para cobrir ruas inteiras.
    E então Vance percebeu.
    Ela estava ferida.
    Partes do corpo pareciam quebradas, como estátuas rachadas por dentro. Um dos braços terminava em algo irregular, deformado, enquanto linhas de luz escapavam pelas fissuras espalhadas pela pele branca da criatura.
    O céu rugiu outra vez.
    Mais rachaduras surgiram acima da cidade e, junto delas, novas silhuetas começaram a aparecer por trás das nuvens quebradas.
    Elena apertou o braço de Vance com força.
    — A gente precisa achar meus pais…
    A frase finalmente puxou Vance de volta à realidade.
    Ele respirou fundo rapidamente e assentiu.
    — Certo. Vamos pra praça central.
    Os dois saíram da casa logo em seguida.
    O lado de fora parecia outro mundo.
    Cinzas atravessavam o ar como neve enquanto moradores corriam sem direção entre casas destruídas e carroças viradas. Algumas pessoas permaneciam ajoelhadas no meio da rua repetindo orações sem parar, como se acreditassem que palavras ainda fossem suficientes para consertar o céu.
    O cheiro de fumaça queimava os pulmões.
    Vance segurou a mão de Elena antes de começarem a correr novamente.
    A cidade inteira tremia em intervalos irregulares. A cada novo estrondo vindo do alto, pequenas pedras se soltavam das construções e mais gritos ecoavam pelas ruas.
    — Está é a punição divina!
    — Aceitemos nosso destino!
    Padres e líderes religiosos gritavam frases daquele tipo em meio ao caos, espalhando ainda mais desespero pelas ruas. Alguns permaneciam ajoelhados sobre a pedra fria enquanto erguiam símbolos sagrados para o céu rachado, como se esperassem misericórdia daquilo que acabara de destruir parte da cidade.
    Outros choravam, outros riam de desespero.
    O medo parecia arrancar pedaços diferentes de cada pessoa.
    Vance puxava Elena pela mão enquanto desviava de moradores correndo em todas as direções. Cinzas atravessavam o ar constantemente agora, cobrindo roupas, cabelos e telhados com uma camada fina e escura.
    Então um homem surgiu na frente deles.
    Vestes longas. Símbolos dourados costurados ao peito. Olhos arregalados pela insanidade.
    — Vocês também precisam rezar! — ele gritou segurando Vance pelos ombros. — Ainda existe tempo para implorar perdão aos deuses!
    Vance tentou se soltar imediatamente.
    — Me larga!
    — O céu caiu porque pecamos! — a saliva escapava da boca do homem enquanto ele apertava os ombros do garoto com força cada vez maior. — Eles vieram nos julgar!
    — É tudo culpa deles, é culpa dos Impuros, é culpa do seu pai, aquele pecador!
    Então Elena empurrou o sacerdote com toda força que conseguiu.
    — Sai de perto dele!
    O homem tropeçou para trás, assustado pela reação da garota.
    — Se eles não tivessem saído da névoa, nada disso teria acontecido. Eu avisei, eu sempre avisava.
    O homem se levantou e puxou uma lâmina de seu bolso, era uma faca.
    O homem se levantou lentamente enquanto segurava a faca com mãos tremendo de excitação. Os olhos arregalados brilhavam de uma forma estranha sob a luz branca das rachaduras no céu.
    — Tudo isso começou por causa deles… — a voz saía falha, quase emocionada. — Os Impuros abriram os olhos dos deuses. Eles condenaram todos nós.
    Elena deu um passo para trás imediatamente.
    Vance puxou ela pelo braço.
    — Corre.
    Os dois dispararam pela rua no mesmo instante.
    Atrás deles, o homem começou a rir.
    Um riso quebrado.
    Descontrolado.
    — Vocês carregam o sangue deles! — ele gritava enquanto corria logo atrás. — Pecadores! Malditos pelos céus!
    Vance sentia o coração bater forte o bastante para doer no peito enquanto desviava entre moradores desesperados e destroços espalhados pela avenida. Elena corria ao lado dele segurando firme sua mão, mas os passos do homem continuavam se aproximando.
    Mais rápidos.
    Muito mais rápidos.
    — Vance…!
    A voz dela saiu entrecortada pelo desespero.
    O garoto virou rapidamente o rosto por cima do ombro e viu o homem avançando entre a multidão com a faca erguida. A expressão daquele sacerdote já não parecia humana.
    Ele estava sorrindo.
    Um estrondo ecoou acima da cidade no mesmo instante em que o homem alcançou distância suficiente para atacar.
    A lâmina avançou.
    Então veio o disparo.
    BANG.
    O som cortou o caos ao redor como um trovão.
    O sacerdote parou abruptamente.
    Os olhos arregalaram.
    Por um instante, o corpo pareceu incapaz de entender o que havia acontecido. Então o sangue começou a escorrer lentamente por sua roupa enquanto a faca escapava dos dedos e batia contra a pedra molhada da rua.
    O homem caiu de joelhos.
    Atrás dele, a mãe de Vance permanecia parada no meio da fumaça com o revólver ainda erguido.
    A respiração dela estava pesada.
    As mãos tremiam.
    Mas os olhos continuavam firmes.
    — Saiam daqui. Agora.
    O sacerdote tentou erguer o rosto, ainda respirando, ainda murmurando palavras desconexas sobre pecados e punição divina.
    Ela puxou o gatilho outra vez.
    BANG.
    O corpo desabou completamente.
    O silêncio pareceu durar um segundo inteiro no meio do caos.
    Vance ficou imóvel.
    Nunca tinha visto alguém morrer diante dele.
    A mãe dele correu imediatamente até os dois e segurou seus ombros com força.
    — Vocês ficaram malucos?! Eu mandei vocês ficarem em casa!
    Os olhos dela percorriam os dois rapidamente, procurando ferimentos enquanto os estrondos continuavam ecoando acima da cidade.
    Então o chão tremeu outra vez.
    Dessa vez forte o bastante para derrubar pessoas próximas.
    A expressão dela mudou imediatamente.
    Lentamente, todos os três ergueram os olhos para o céu.
    O suposto deus agora estava próximo deles, tão próximo que dava medo.
    O tamanho dele fazia os prédios ao redor parecerem pequenos brinquedos espalhados pela cidade. As asas negras se abriam lentamente sobre as ruas, enormes o bastante para cobrir fileiras inteiras de casas sob a sombra escura que produziam.
    O corpo lembrava o de um humano.
    Mas um humano puxado para uma boneca estranha.
    Os braços longos permaneciam pendidos ao lado do corpo branco e liso, sem músculos aparentes, sem marcas, sem qualquer detalhe que parecesse vivo. A pele possuía o aspecto vazio de porcelana antiga enquanto as juntas se moviam de forma mecânica, rígida, como uma marionete manipulada por fios invisíveis.
    Os olhos estavam completamente vazios. Dois círculos negros encarando a cidade sem emoção alguma.
    O simples som dos passos daquela coisa fazia o chão vibrar.
    Cada movimento produzia um ruído seco e pesado, parecido com pedra arrastando sobre pedra.
    As pessoas ao redor começaram a ajoelhar desesperadamente.
    — Um deus…
    — É um deus…
    — Perdão…
    — Nos perdoem…
    Alguns choravam, outros batiam a cabeça contra o chão enquanto rezavam sem parar.
    A criatura continuou andando lentamente pela avenida destruída.
    Sem sequer olhar para eles.
    Então uma voz feminina atravessou o caos ao longe.
    — Elena! Você está aí?!
    Os olhos da garota se arregalaram imediatamente.
    Mais à frente, em meio à fumaça e aos moradores correndo, duas figuras apareciam desesperadamente entre os destroços.
    Os pais dela.
    — Mãe!
    Elena soltou a mão de Vance no mesmo instante e correu na direção deles.
    — Elena, espera! — Vance gritou, avançando logo atrás.
    Os pais da garota também correram na direção dela enquanto lágrimas escapavam pelo rosto da mulher.
    Por um instante, em meio ao caos da cidade destruída, tudo pareceu diminuir.
    E então de repente o deus olhou diretamente para ela.

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