O corpo de Vance travou no mesmo instante em que os olhos vazios da criatura se moveram na direção de Elena
    O peso daquela atenção caiu sobre a avenida inteira. O vento perdeu força, os gritos pareceram distantes e até o som dos incêndios consumindo as construções ao redor se tornou pequeno diante da presença absurda daquele ser.
    Elena continuava correndo sem perceber.
    Os pais dela avançavam pela fumaça em desespero, tropeçando entre pedras quebradas e corpos espalhados pela rua enquanto gritavam o nome da filha repetidas vezes. A mulher chorava abertamente. O homem tentava puxá-la mais rápido mesmo mancando de uma das pernas.
    Então a criatura inclinou a cabeça.
    O movimento veio devagar demais, rígido demais, como madeira antiga sendo forçada além do limite. As enormes asas negras se abriram alguns centímetros atrás do corpo branco e partículas douradas começaram a cair delas lentamente, atravessando o ar como cinzas brilhantes.
    Vance sentiu um arrepio subir por sua espinha.
    — Elena…
    A voz morreu antes mesmo de ganhar força.
    O braço da criatura se ergueu.
    Nenhum esforço apareceu naquele gesto. Os dedos longos apenas deslizaram pelo ar vazio enquanto algo invisível atravessava a avenida com violência monstruosa.
    As pedras explodiram.
    O chão rachou sob um estrondo brutal e uma muralha de pressão avançou pela rua destruindo tudo que encontrava. Fachadas desabaram, postes foram arrancados da base e moradores desapareceram em meio à poeira levantada pelo impacto.
    Elena sequer teve tempo de entender.
    O pai dela correu até a filha e a puxou contra o próprio corpo no instante em que a onda atingiu os três. A força os lançou pela avenida como bonecos quebrados enquanto madeira, vidro e pedra atravessavam o ar junto dos gritos.
    Vance tentou correr.
    Só conseguiu enxergar o clarão branco vindo em sua direção antes do impacto atingir seu corpo também.
    O ombro bateu violentamente contra o chão de pedra e a dor atravessou seu braço inteiro. Seu corpo rolou entre destroços, esmagando tábuas quebradas e fragmentos de vidro até colidir contra os restos de uma parede parcialmente destruída.
    O ar desapareceu dos pulmões.
    Por alguns segundos, tudo virou um ruído distante e abafado.
    Cinzas caíam lentamente diante de seus olhos enquanto o mundo girava ao redor. O gosto metálico do sangue preenchia sua boca e o braço esquerdo tremia sem controle apoiado entre os escombros.
    Então os sons começaram a voltar.
    Incêndio, gritos, choro… e muita dor.
    Vance ergueu a cabeça com dificuldade.
    A avenida havia desaparecido sob fumaça e destruição. Casas inteiras agora eram montes de madeira esmagada espalhados pela rua aberta em rachaduras profundas.
    E então ele viu Elena.
    A garota agora estava na mão pálida e lisa da grande criatura sem conseguir se quer mexer um musculo.
    Alguns metros à frente, a mãe dela permanecia ajoelhada no chão.
    Os dedos agarravam desesperadamente o corpo do marido enquanto lágrimas escorriam sem controle por seu rosto coberto de poeira. Ela o chamava repetidas vezes, sacudindo seus ombros cada vez com mais força.
    O homem já não respondia.
    O braço dele permanecia estendido na direção da filha, imóvel entre os destroços.
    Elena percebeu aquilo.
    E em seguida ela explodiu em choro e gritos.
    — Pai, Mãe, Vance. Por favor, alguém me salve! — Ela gritava enquanto era levada pela mão de deus.
    Ele a segurava com o mesmo cuidado que um homem deveria segurar uma formiga.
    Vance não conseguia emitir sequer um único som.
    Os gritos dela atravessavam a avenida destruída como lâminas.
    As pernas de Vance tentaram se mover, mas absolutamente nada em seu corpo respondia.
    Seu corpo inteiro tremia contra os escombros enquanto o braço machucado começava a latejava sem parar. Poeira escorria por seu rosto junto do sangue e das cinzas, mas ele sequer percebia muito a dor.
    Tudo que conseguia enxergar era Elena.
    Ela chorava desesperadamente agora. Os olhos dourados brilhavam molhados sob a luz das rachaduras no céu enquanto tentava empurrar os dedos gigantescos ao redor de seu corpo.
    Qualquer coisa era completamente inútil.
    A diferença entre eles parecia ridícula.
    E então a mãe dela finalmente percebeu.
    O rosto da mulher perdeu completamente a expressão enquanto seus olhos subiam lentamente até a criatura carregando sua filha acima da cidade destruída.
    Então veio um grito.
    Ela se levantou tropeçando entre os destroços e começou a correr na direção do ser colossal sem pensar em mais nada.
    — DEVOLVA ELA!
    Os pés esmagavam pedra e vidro enquanto lágrimas escorriam sem controle por seu rosto coberto de fuligem. A mulher continuava gritando o nome da filha repetidamente, avançando contra algo capaz de destruir quarteirões inteiros com um simples movimento.
    Vance tentou chamar por ela.
    Sua garganta travou e nem um gemido ousou sair.
    A criatura então moveu lentamente a cabeça na direção da mulher.
    Os olhos vazios desceram até ela.
    E o mundo pareceu prender a respiração. Por um instante, tudo ficou imóvel.
    Então uma das asas negras se moveu e o impacto veio logo em seguida.
    A avenida inteira explodiu sob uma rajada absurda de vento e pressão. O chão se partiu novamente enquanto destroços eram lançados pelos ares junto de pessoas e pedaços de construções.
    A mãe de Elena desapareceu no meio da fumaça.
    Vance arregalou os olhos.
    — Não…
    O garoto tentou se levantar à força.
    O braço falhou imediatamente e ele caiu outra vez sobre os joelhos, esmagando os dedos contra a pedra quebrada enquanto o peito queimava em desespero.
    Acima dele, Elena gritava sem parar.
    O som já começava a falhar entre soluços e desespero puro.
    — VANCE!
    — VANCE, POR FAVOR!
    O nome dele atravessou a fumaça, atravessou os incêndios, atravessou o caos inteiro da cidade destruída.
    E pela primeira vez na vida…
    Vance sentiu medo de verdade.
    Não o medo infantil das histórias sobre monstros na Névoa, nem o desconforto dos rituais e orações da cidade.
    Aquilo era diferente.
    Era a sensação esmagadora de ser pequeno demais diante de algo impossível.
    Os dedos dele afundaram entre os escombros enquanto os olhos permaneciam presos em Elena sendo lentamente erguida para o céu quebrado.
    E então essa sensação medonha mudou.
    A dor no ombro, o sangue descendo pelo rosto, os incêndios consumindo a cidade… tudo parecia distante diante da sensação sufocante crescendo dentro de seu peito.
    Elena continuava estendendo a mão na direção dele entre lágrimas e soluços desesperados, e aquilo esmagava Vance por dentro. Ele tentou se levantar outra vez. Seu braço falhou imediatamente, lançando uma fisgada brutal por seu corpo, mas ele continuou se arrastando alguns centímetros sobre pedra e vidro quebrado.
    Os olhos nunca a deixavam.
    Ela ainda chamava por ele.
    Então as asas negras da criatura começaram a se abrir completamente sobre a cidade. O vento explodiu pelas ruas, levantando cinzas e destroços enquanto a sombra daquele ser colossal engolia a avenida inteira.
    Elena olhou para ele uma última vez. Os olhos dourados brilhavam molhados sob a luz branca do sol.
    Aquilo destruiu alguma coisa dentro dele.
    Os dedos se fecharam contra os escombros até as unhas rasgarem a própria pele enquanto seus olhos cinza queimavam em puro ódio.
    — Eu vou te encontrar…
    A voz saiu rouca, tremendo junto da respiração falha.
    — Eu juro.
    As asas bateram.
    O impacto atravessou a cidade inteira enquanto a criatura disparava para o céu carregando Elena junto ao corpo colossal. Em poucos segundos, ela virou apenas uma sombra distante entre as rachaduras luminosas do firmamento.
    Mas Vance continuou olhando.
    Ajoelhado entre os destroços, com sangue escorrendo pelas mãos fechadas, enquanto algo queimava dentro de seu peito mais forte que os incêndios espalhados pela cidade.
    A vontade de matar um deus.
    E a raiva de um demônio.

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