Capítulo 6: Visão da Criação
Em meio à dor intensa e à falta de ar, ele caiu de volta no chão.
Sua visão escureceu e, aos poucos, a força abandonou seus membros. Ele ainda conseguia sentir o frio da pedra contra a pele, a poeira entrando pelas narinas e o gosto metálico do sangue escorrendo até a boca, mas essas sensações começavam a escapar lentamente, como areia escorrendo entre os dedos.
Nos momentos seguintes, tudo que Vance podia ouvir eram gritos e o som de madeira, pedra e metal cedendo em meio ao caos. Os ruídos chegavam até ele distantes e deformados, atravessando uma espécie de vazio estranho antes de alcançarem seus ouvidos, como se o próprio mundo tivesse sido empurrado para muito longe.
O tempo deixou de fazer sentido.
Por alguns instantes ele sentia o peso do corpo esmagado entre os escombros. No instante seguinte, o cheiro de fumaça desaparecia, a dor diminuía e algo frio deslizava sobre sua pele.
Uma brisa suave, quando abriu os olhos outra vez, o campo estava ali.
Flores brancas, vermelhas, rosas e cinza-escuras se espalhavam até onde a vista alcançava enquanto o vento atravessava aquele mar silencioso, dobrando pétalas e criando ondas suaves sobre a paisagem. O céu permanecia limpo acima dele, tingido pelos últimos tons quentes do amanhecer.
Vance começou a andar.
Os passos afundavam levemente entre as flores enquanto o vento tocava seus cabelos e carregava consigo um perfume doce e familiar. Em algum lugar distante, ele sentia que precisava alcançar algo, ou alguém.
Sem perceber, seus passos aceleraram e sua caminhada lenta virou corrida.
O vento começou a pressionar seu rosto enquanto as flores passavam cada vez mais rápido ao seu redor. As cores se arrastavam diante de seus olhos em manchas borradas, misturando vermelho, branco e cinza em rastros que desapareciam quase no mesmo instante em que surgiam.
Ele continuou correndo.
Mais rápido.
E mais.
O campo parecia crescer junto com sua velocidade. O horizonte permanecia distante, sempre distante, enquanto seus pés atravessavam aquele oceano de flores sem jamais alcançar qualquer fim.
Então o vento desapareceu.
As flores sumiram sob seus pés.
A luz se apagou.
Vance parou bruscamente.
A respiração saía pesada enquanto seus olhos percorriam o vazio ao redor. Acima dele existia apenas escuridão. Abaixo também. Em todas as direções, o mesmo vazio se estendia sem forma, sem fim, sem qualquer ponto onde pudesse descansar o olhar. A sensação era estranha, sufocante, como se o próprio espaço ao redor tivesse sido arrancado do mundo.
Ele girou lentamente o corpo.
Nenhum som se fez presente, nem uma luz, nem sequer uma única presença.
— Para onde foi…?
Sua voz escapou baixa, carregada pelo cansaço, mas morreu poucos metros à frente. Nenhum eco retornou. Nenhuma resposta surgiu do vazio.
O silêncio pareceu se tornar ainda maior.
Então de repente alguma coisa apareceu ao longe.
Era pequeno, pequeno demais.
Um ponto vermelho perdido em meio à escuridão, tão distante que lembrava uma estrela esquecida no céu da noite. Por alguns segundos ele permaneceu imóvel, quase imperceptível, até pulsar uma única vez.
Depois outra, e mais uma…
A luz começou a crescer lentamente.
Vance observava sem se mover enquanto o brilho avançava, empurrando a escuridão para trás em ondas suaves. O vermelho se espalhava ao redor do pequeno ponto inicial como tinta derramada sobre água escura, ocupando cada vez mais espaço diante dele.
Aos poucos a cor começou a mudar.
O vermelho intenso se tornou claro, brilhante, até atingir um branco forte o bastante para machucar seus olhos. A luz parecia atravessar sua visão e alcançar algo muito mais profundo, como se estivesse iluminando partes dele que nem mesmo sabia que existiam.
E continuou vindo.
O branco se espalhou até ocupar tudo ao redor, apagando completamente a escuridão que existia antes.
Então mudou outra vez.
Um azul profundo nasceu no centro daquele brilho, se espalhando lentamente até cobrir tudo diante dele como uma maré silenciosa atravessando o vazio.
Vance sentiu aquilo tocar sua pele.
Uma sensação fria percorreu seus braços, subiu pelo pescoço e atravessou seu corpo inteiro.
E no instante seguinte, a luz azul o engoliu por completo.
Ele sentiu o próprio corpo desaparecer. A sensação de peso sumiu junto do frio, da dor e da respiração acelerada. Seus braços, suas pernas, o sangue escorrendo pelo rosto, embora ele já não sentisse, tudo havia ficado para trás, de um jeito ainda mais brusco. Ainda existia alguma coisa dele ali, ele conseguia sentir isso, mas parecia distante, estranho, como se sua própria existência tivesse sido reduzida a algo menor que um pensamento.
Então o silêncio começou a mudar.
Uma vibração atravessou o vazio.
No início era quase imperceptível, uma pequena pulsação surgindo em algum lugar além da escuridão. Não existia direção para olhar, nem cima ou baixo. Mesmo assim, Vance sentia aquilo crescer diante dele. Uma pressão absurda parecia existir comprimida em um espaço impossível, algo pequeno demais e gigantesco ao mesmo tempo.
E então aconteceu.
Sem aviso algum, a realidade explodiu.
Uma luz violenta rasgou o vazio em todas as direções enquanto energia atravessava tudo ao redor como rios furiosos rompendo uma barragem. Cores que seus olhos jamais haviam visto surgiam e desapareciam diante dele, misturando tons impossíveis que sua mente sequer conseguia compreender. O espaço parecia nascer diante de seus olhos, se expandindo com velocidade suficiente para transformar o nada em algo infinito.
Vance sentia aquilo atravessando seu corpo.
Ele não observava diretamente, ele estava dentro.
Pequenos pontos de luz começaram a surgir espalhados pela escuridão recém-criada. Primeiro poucos, depois centenas, milhares, até se tornarem incontáveis. Estrelas nasceram diante dele como pequenas chamas despertando no vazio, crescendo lentamente até se tornarem sóis gigantescos queimando através da eternidade.
O tempo começou a correr.
E corria rápido.
Rápido demais.
Galáxias surgiam diante dele em espirais luminosas que atravessavam o vazio como correntes gigantescas. Mundos se formavam entre mares de fogo e pedra derretida antes de lentamente esfriarem. Oceanos apareciam, tempestades cobriam continentes inteiros, montanhas surgiam das profundezas e desapareciam milhões de anos depois como se fossem apenas grãos de areia levados pelo vento.
Vance via criaturas rastejando sobre terras desconhecidas, formas pequenas crescendo e mudando ao longo do tempo, espécies inteiras desaparecendo enquanto outras surgiam para ocupar seu lugar. Florestas cobriam mundos inteiros. Cidades apareciam. Civilizações erguiam monumentos absurdos, cruzavam estrelas, construíam coisas grandes o suficiente para cercar sóis inteiros.
Tudo surgia e ao mesmo tempo tudo desaparecia.
Era belo e era assustador.
As eras começaram a passar diante dele como segundos. Estrelas envelheciam e morriam. Galáxias colidiam umas contra as outras, espalhando mares de luz pelo vazio. Aos poucos o brilho começou a diminuir enquanto a escuridão ocupava espaço novamente.
O universo estava envelhecendo.
As estrelas desapareciam uma após a outra até que o vazio se tornou frio e silencioso.
Então alguma coisa mudou.
Vance sentiu antes mesmo de entender.
Tudo começou a se mover outra vez.
As estrelas restantes, as galáxias, a própria escuridão… tudo parecia estar sendo puxado para algum lugar distante. Aos poucos o movimento acelerou. Sistemas inteiros atravessavam o vazio enquanto o espaço se dobrava sobre si mesmo.
O universo inteiro começou a cair.
Bilhões de estrelas colidiam ao mesmo tempo. Galáxias desapareciam engolidas por uma força monstruosa enquanto distâncias impossíveis deixavam de existir. Tudo estava sendo esmagado, comprimido e arrastado para o mesmo ponto.
Mais rápido…e mais…e mais…
Até que restou apenas silêncio.
Tudo havia desaparecido.
Diante de Vance existia apenas um pequeno ponto cercado pela escuridão infinita.
Ele observou aquilo em absoluto silêncio.
E então o ponto pulsou novamente.
— Ei, ei. Você está vivo, garoto?

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