Capítulo 15: Terra Firme
Os dias seguintes passaram de forma estranha para Vance.
O tempo continuava avançando, o navio continuava cortando o oceano e as pessoas ao seu redor continuavam vivendo, mas tudo parecia acontecer atrás de uma camada invisível que o separava do restante do mundo. As refeições chegavam em horários regulares. Ele aprendeu que os homens de branco na verdade eram médicos, eles trocavam suas ataduras regularmente. Tripulantes caminhavam pelos corredores carregando suprimentos e os sobreviventes tentavam reconstruir alguma aparência de rotina entre as paredes metálicas do Leviatã.
Seu corpo melhorava.
Lentamente.
As costelas ainda protestavam quando respirava fundo demais e o ombro continuava rígido, mas já conseguia caminhar sem depender da haste metálica que antes arrastava pelos corredores. A recuperação física avançava rápido. As noites continuavam sendo as piores. Sempre que fechava os olhos, acabava voltando para a cidade. Via novamente as rachaduras se abrindo no céu, ouvia os gritos ecoando pelas ruas e enxergava Elena desaparecendo acima das nuvens antes de despertar com a respiração pesada e o coração acelerado.
Durante aqueles dias, o convés superior acabou se tornando seu lugar favorito. Havia algo naquele horizonte interminável que o atraía. Talvez porque fosse impossível enxergar o fim dele. Talvez porque o oceano parecesse tão vasto quanto todas as perguntas que agora ocupavam sua mente. Em várias ocasiões permaneceu apoiado contra as grades do navio durante horas, observando as ondas se partirem contra o casco enquanto tentava entender como um mundo tão grande podia existir sem que ele sequer soubesse disso.
A própria existência do oceano já era absurda o bastante.
Mas não era a única coisa.
Conforme os dias passavam, Vance começou a ouvir conversas. Algumas vinham dos sobreviventes, outras dos membros da tripulação. Comentários dispersos que surgiam pelos corredores e desapareciam antes que pudesse fazer perguntas. Falavam sobre cidades maiores que qualquer coisa já construída dentro da Névoa. Falavam sobre continentes, academias, ordens militares e guerras travadas muito além dos limites do mundo que ele conhecia. A cada nova informação, a sensação de que sua vida inteira havia acontecido dentro de uma caixa fechada se tornava mais forte.
E, ao mesmo tempo, uma pergunta permanecia.
Onde Elena estava?
A ausência de respostas continuava sendo a parte mais difícil.
Nenhum sobrevivente sabia de nada. Nenhum soldado possuía informações. Nenhum membro da Ordem sequer parecia disposto a especular. Quando perguntava, recebia apenas olhares desconfortáveis ou respostas vagas que não levavam a lugar algum.
Então, em algum momento, ele parou de perguntar.
Não porque tivesse desistido.
Se as respostas não existiam naquele navio, então ele as encontraria em outro lugar.
Foi na manhã do décimo dia que algo mudou.
Vance estava encostado próximo à grade do convés quando percebeu a movimentação diferente da tripulação. Homens corriam entre os postos de observação. Ordens eram transmitidas de um lado para outro. Até mesmo os sobreviventes pareciam inquietos, abandonando seus cantos improvisados para subir aos conveses superiores.
No início ele não entendeu o motivo.
Então ouviu alguém gritar.
— Terra!
O som atravessou o navio inteiro.
Em poucos segundos, dezenas de pessoas já se apertavam próximas às laterais do Leviatã. Alguns apontavam para o horizonte. Outros simplesmente observavam em silêncio, incapazes de acreditar.
Vance ergueu os olhos.
Durante um instante não enxergou nada além do oceano. A linha do horizonte permanecia imóvel à distância, separando o azul profundo das águas do céu claro acima deles. Ao redor, a agitação continuava crescendo. Pessoas se amontoavam junto às grades do convés, algumas se equilibrando na ponta dos pés para enxergar melhor, outras apontando para frente enquanto trocavam palavras rápidas e animadas. Vance estreitou os olhos e permaneceu observando. A princípio parecia apenas uma sombra escura perdida na imensidão azul, pequena demais para ser distinguida de uma nuvem distante ou de algum truque criado pela luz do sol sobre a superfície da água.
Mas a sombra não desapareceu.
Pelo contrário.
Conforme o Leviatã avançava, ela crescia.
Pouco a pouco aquela mancha escura começou a ganhar contornos. Uma linha irregular surgiu onde antes existia apenas o horizonte. Depois vieram formas maiores. Volumes, elevações. Algo enorme começava a se erguer diante deles. O oceano continuava se espalhando por todos os lados, mas agora já não parecia infinito. Pela primeira vez desde que acordara naquele navio, existia um destino visível à frente.
O movimento ao redor dele aumentou. Crianças corriam entre os sobreviventes tentando encontrar espaços próximos às grades. Homens e mulheres se inclinavam para frente, incapazes de esconder a curiosidade. Alguns conversavam em voz baixa. Outros permaneciam completamente calados. Havia quem sorrisse. Havia quem parecesse assustado. Para muitos daqueles sobreviventes, aquela visão representava algo simples: o fato de continuarem vivos. Para outros, representava o início de algo que ainda não conseguiam compreender.
Primeiro surgiram as montanhas.
Não eram parecidas com as formações que cercavam a cidade onde crescera. As montanhas da Névoa sempre pareciam distantes, como obstáculos naturais espalhados pelo mundo. Aquelas eram diferentes. Gigantescas. Maciças. Paredões escuros que avançavam em direção ao céu como se estivessem sustentando as próprias nuvens. Alguns picos desapareciam parcialmente atrás das camadas brancas que flutuavam ao redor de suas encostas. Outros refletiam a luz do sol em superfícies claras que pareciam neve.
O simples tamanho daquelas montanhas já seria suficiente para deixá-lo sem palavras.
Mas então as construções começaram a surgir.
No início apareceram como pequenas linhas interrompendo a costa.
Depois cresceram.
E continuaram crescendo.
Os olhos de Vance se estreitaram.
Por um instante ele acreditou estar interpretando errado as distâncias.
Aquilo não fazia sentido.
Torres erguiam-se próximas ao litoral, altas o bastante para rivalizar com as muralhas mais grandiosas que conhecia. Estruturas metálicas refletiam o sol em centenas de pontos brilhantes. Algumas possuíam formatos estranhos, diferentes de qualquer construção que ele já tinha visto. Pontes enormes atravessavam partes da costa enquanto embarcações cruzavam as águas ao redor do porto em todas as direções.
Quanto mais se aproximavam, menor Vance se sentia.
O mundo que conhecia parecia encolher a cada minuto.
As histórias que ouvira durante a viagem voltaram à sua mente. Continentes, academias, exércitos. Naquela época tudo parecia exagero. Conversas impossíveis contadas por pessoas que haviam vivido em lugares distantes demais para serem verificados.
Agora aquelas histórias surgiam diante de seus olhos.
Muito maiores do que imaginara.
O Leviatã começou a reduzir a velocidade. O som grave das máquinas ecoou através do casco enquanto a embarcação ajustava sua rota em direção ao porto. Homens da tripulação gritavam ordens. Cordas eram preparadas. Pequenas embarcações se aproximavam para auxiliar na chegada. Ao redor do navio, o movimento de pessoas e embarcações era tão intenso que fazia a cidade parecer viva.
Até aquele momento, ele acreditava que sua cidade era grande. Acreditava que os templos eram impressionantes. Acreditava que as muralhas representavam algo grandioso.
E, pela primeira vez desde a destruição da cidade, algo parecido com curiosidade começou a dividir espaço com a dor.
— Vamos? — Alice perguntou.

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