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    A divisão aconteceu poucos minutos depois de Brigitte terminar sua explicação. Haviam cinco nomes e cinco endereços. Cinco possíveis responsáveis por transportar os sapientes para fora de Daurlúcia. Não existia motivo para permanecerem juntos. Quanto mais rápido verificassem cada endereço, mais cedo descobririam qual daqueles homens sabia onde o dríade estava. Dessa forma, o grupo se separou mais uma vez naquela noite.

    Niko e Gwen ficaram responsáveis pelo maquinista. E. Navarra, o nome que aparecia ao lado do registro F-4401-T. Brigitte seguiu com Evelyn para verificar o endereço de R. Sorel, o supervisor. Gabe e Matteo ficaram encarregados de A. Wesker, um dos auxiliares. Tsugumi recebeu o endereço de G. Mendez. E Jakob ficou com H. Volkov, operador de carga. A decisão parecia simples e intuitiva, justamente por isso ninguém perdeu tempo discutindo.

    Menos de dez minutos depois, Niko e Gwen já estavam indo em direção a casa do homem. Como a casa do homem ficava distante da região central e nenhum dos dois tinha interesse em atravessar metade da cidade a pé durante a madrugada, acabaram alugando uma pequena carroça de transporte particular próxima à praça. O veículo era simples, puxado por um cavalo castanho comum, servindo perfeitamente para o trajeto. Durante boa parte do caminho, o som ritmado das rodas sobre as pedras da rua foi a única coisa que acompanhou o silêncio dos dois.

    À medida que se afastavam das áreas mais movimentadas, as construções tornavam-se mais baixas e espaçadas. O bairro onde E. Navarra morava era um subúrbio comum. As ruas eram estreitas, serpenteando as fileiras de casas construídas com tijolos avermelhados e pedra clara. Pequenas sacadas de ferro avançavam sobre as calçadas, enquanto telhados não tão inclinados dominavam a paisagem. Mesmo naquela hora tardia, algumas janelas ainda permaneciam iluminadas, lançando faixas douradas sobre a rua silenciosa.

    O movimento da cidade tinha diminuído drasticamente, isso era nítido. A maior parte das pessoas ainda acordadas estava concentrada nas regiões do festival. Ali, porém, só existiam luzes espaçadas e janelas fechadas.

    A carroça desacelerou até parar em uma esquina tranquila, a poucas quadras do destino. O cocheiro mal teve tempo de puxar as rédeas antes que Gwen saltasse para o chão de pedra, seguida por Niko. O garoto retirou algumas moedas de Astrals do bolso e as entregou ao homem, que agradeceu com um aceno simples antes de seguir viagem pela rua quase vazia.

    Os dois continuaram até o destino a pé. O vento atravessava os quarteirões com facilidade naquela parte da cidade, fazendo as lanternas que iluminavam as ruas balançarem e algumas placas metálicas rangerem suavemente acima das lojas fechadas. O endereço indicado por Brigitte ficava na Rue des Carmes, número 27. Quando finalmente pararam diante da casa indicada nos registros, Gwen ergueu os olhos para a fachada.

    — Não tô vendo nenhuma luz vinda de lá de dentro. — comentou a esotérica, observando a fachada superficialmente no primeiro momento.

    — Eu também não.

    Os dois permaneceram alguns segundos analisando a residência em silêncio. A casa ocupava um terreno estreito voltado para a rua, cercada por um pequeno muro coberto por trepadeiras levemente secas. Era feita de tijolos avermelhados aparentes e um telhado de telhas cerâmicas envelhecidas. Apesar da aparência acolhedora, a casa transmitia uma estranha sensação de abandono.

    — Talvez esteja dormindo.

    Niko assentiu devagar, embora a expressão em seu rosto demonstrasse bem menos convicção do que o gesto sugeria. 

    — Espero que seja isso mesmo.

    O garoto permaneceu observando o prédio por mais alguns segundos. Sem dizer uma única palavra, ele começou a caminhar em direção à entrada do prédio. Gwen o acompanhou naturalmente. Os dois atravessaram a calçada até chegarem diante da porta do local. O silêncio da rua era quase absoluto, interrompido apenas pelo som distante do vento.

    Niko levou a mão ao bolso interno do colete e retirou um pequeno pedaço de papel. Sobre sua superfície havia um símbolo desenhado com tinta escura, um dos selos que utilizava para ancorar sua Alma. Gwen reconheceu o objeto imediatamente.

    Niko atravessou o papel pela porta de entrada e então ele colocou a mão sobre o ombro de Gwen. Ela confirmou com um breve aceno. Por uma única fração de segundo, pareceu que os dois estavam mergulhados em um vazio sem qualquer tipo de luz, som ou até mesmo tempo. Apenas uma distorção silenciosa do que chamavam de realidade, como se o espaço tivesse piscado entre um momento e o outro.

    No momento seguinte, já estavam do outro lado, dentro do apartamento. A escuridão os recebeu imediatamente. As cortinas permaneciam fechadas, e a pouca luz da rua mal conseguia atravessar as frestas das janelas. O ar tinha aquele cheiro característico de um lugar fechado havia horas.

    Niko permaneceu imóvel por um instante, permitindo que os olhos se ajustassem à pouca luz, dilatando suas íris claras. Até poucos dias atrás, nem ao menos sabia que os albocernos adaptavam sua visão a ambientes escuros, captando detalhes mesmo sem uma fonte de luz adequada. A curiosidade surgiu no momento em que começou a enxergar com uma maior nitidez no último dia em que estavam na fazenda de Sigurd, quando descobriram o túnel subterrâneo. Dias depois, em um artigo de biologia sapiente no jornal, ocasionalmente descobriu que tinha essa habilidade.

    Aos poucos, contornos surgiram onde antes existia apenas um bloco uniforme de preto. À sua esquerda, um corredor estreito avançava pelo interior da casa. À direita, havia apenas uma escada que subia para o andar superior. Quatro portas completavam o cenário: duas posicionadas ao longo do hall de entrada e outras duas ao final do corredor.

    Ele avançou alguns passos sem fazer barulho, observando cada detalhe enquanto a visão continuava se adaptando. Não era como enxergar à luz do dia, mas ainda assim, melhor do que a visão de qualquer humano ou sapiente genérico naquela situação.

    — Eu vou verificar o andar de cima.

    Gwen acompanhou o olhar dele até a escada e deu de ombros.

    — Tá. Então eu continuo aqui mesmo.

    Os dois trocaram um breve aceno antes de seguirem em direções opostas. Não havia motivo para permanecerem juntos, dividir a busca permitiria verificar cada cômodo muito mais rápido e, consequentemente, encontrar Navarra mais facilmente.

    Gwen desapareceu ao entrar na porta da direita enquanto ele seguia em direção aos degraus. A madeira da escada rangeu silenciosamente sob seu peso, produzindo um som discreto. O albocerno avançou devagar, mantendo uma das mãos próxima ao corrimão enquanto observava cada canto do segundo andar. A mão estava próxima a sua pistola, atento em cada som e movimento ali.

    O andar superior era simples e apertado, seguindo o mesmo padrão modesto do restante da casa. Um corredor estreito avançava por poucos metros, dando espaço para três portas.

    Niko começou pela mais próxima, literalmente à frente do corredor. Empurrou a porta devagar, atento a qualquer som ou movimento vindo do outro lado. Era apenas um banheiro. Havia uma pia de porcelana, um espelho preso à parede, uma banheira simples e algumas toalhas penduradas em um suporte metálico. Tudo perfeitamente comum. E, mais importante, vazio.

    A segunda porta, agora à esquerda no final do corredor, levava a um pequeno escritório. O cômodo era simples e apertado. Uma escrivaninha ocupava a maior parte do espaço, cercada por algumas prateleiras presas às paredes. Sobre a mesa havia folhas soltas, anotações e documentos empilhados sem muita organização. Havia vários livros espalhados pelas estantes. Niko observou tudo rapidamente. Nada chamou sua atenção.

    Agora era vez da terceira e última porta. Niko empurrou a porta lentamente, permitindo que ela se abrisse sem produzir muito barulho. Aquele era o dormitório da casa.

    O cômodo parecia ter sido usado poucas horas antes. A cama permanecia desarrumada, com os lençóis amassados e um dos travesseiros caído ao lado da estrutura de madeira. Algumas peças de roupa estavam dobradas sobre uma cadeira próxima à janela fechada, enquanto uma garrafa parcialmente vazia ocupava espaço sobre o criado-mudo.

    Tudo indicava que alguém estava ali normalmente até pouco tempo atrás. Exceto por um detalhe: o quarto estava vazio. Não havia ninguém ali.

    Niko permaneceu imóvel por alguns segundos, analisando o quarto em silêncio. Seu olhar percorreu novamente para a cama, as roupas sobre a cadeira e os pequenos objetos espalhados pelo cômodo. Não encontrou nada de novo.

    Ele voltou a observar o ambiente com mais atenção. Depois outra vez. Nada mudava. Não havia ninguém ali. Uma sensação extrema de desconforto surgiu aos poucos. Seu coração começou a bater alto, sua pele suou frio, suas íris se estreitaram e ele ficou paralisado no mesmo lugar por alguns segundos.

    Ao ter consciência da ausência, Niko atravessou o quarto rapidamente. Abriu o guarda-roupa, verificou atrás da porta e se abaixou para olhar sob a cama. Nada. Nenhum vestígio do maquinista.

    A partir daquele momento, a busca perdeu qualquer traço de calma. Ele deixou o quarto, retornou ao escritório e abriu todos os armários ou cantos que ele poderia estar escondido. Nada. Depois voltou ao banheiro para uma segunda inspeção. Nada. O homem simplesmente não estava em casa.

    Niko abriu a porta do banheiro rápido e praticamente despencou pela escada, causando um barulho que antes tentava evitar. Os passos acelerados ecoaram pela casa enquanto ele descia os degraus de dois em dois, chegando a saltar alguns deles para ganhar o mínimo de tempo possível.

    Quando alcançou o térreo novamente, encontrou Gwen surgindo do corredor quase ao mesmo tempo. Os dois pararam por reflexo antes de se esbarrarem. A ruiva ergueu uma sobrancelha, já suspeitando do desfecho da história.

    — Encontrou ele?

    Niko desacelerou apenas o suficiente para parar diante dela. A tensão em seu rosto já respondia à pergunta antes mesmo que abrisse a boca. Ele balançou a cabeça, negando.

    — Não.

    Gwen passou os olhos rapidamente pelo albocerno, como se apenas olhando para o garoto, soubesse tudo o que ele passou. Ela soltou um suspiro curto pelo nariz e apoiou uma das mãos na cintura.

    — Então você também não encontrou nenhum sinal dele lá em cima.

    — Nada.

    Por um instante, os dois ficaram em silêncio. Gwen desviou o olhar para o corredor escuro atrás deles e balançou a cabeça.

    — Aí a coisa ficou feia. — terminou a garota, fechando os olhos.

    Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada. O silêncio da casa parecia ainda mais evidente agora que haviam terminado a busca. O vento voltou a soprar do lado de fora, fazendo uma das janelas vibrar levemente contra a moldura. 

    — É… parece que ele fugiu. Hum-ghumm. — a garota disse ao se espreguiçar, unindo os braços em cima da cabeça.

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