Capítulo 221 - Ação II
Quanto mais olhava para aquele lugar, mais estranho tudo parecia. Ainda parecia haver vida naquela casa, uma rotina ou alguns hábitos. Tudo indicava alguém que esperava voltar para casa depois do trabalho e seguir com o próprio dia normalmente. Nada parecia preparado para uma despedida definitiva. Claramente foi uma fuga não planejada. Uma resposta direta em relação à investigação do grupo.
— Você acha que foi só ele? — perguntou por fim.
Gwen deixou os braços caírem ao lado do corpo, virando os olhos para o albocerno.
— Quem?
— Navarra. Acha que ele foi o único que fugiu ou seria uma fuga de toda a operação?
O garoto cruzou os braços enquanto organizava os próprios pensamentos. Desviou o olhar de Gwen por alguns segundos, focando em um ponto invisível naquela sala.
— Se isso foi uma fuga em conjunto, então vamos ter que procurar por todos os operadores fora da cidade… Todos eles…
A frase fez o silêncio retornar por alguns instantes, porque aquela possibilidade mudava tudo. Se os cinco operadores tivessem desaparecido juntos, isso comprometeria toda a investigação. Talvez eles já estivessem em outra cidade. Talvez em algum lugar fora de qualquer tipo de civilização. Uma busca daquelas poderia levar dias para ter resultado. “Dias”, a palavra ecoou forte dentro da cabeça de Niko.
Gwen permaneceu alguns segundos observando o teto antes de voltar os olhos para Niko.
— Eu não acho.
— Não?
Niko voltou os olhos para ela. A esotérica andou até a porta à esquerda, parando na sala de estar. O cômodo era escuro, iluminado apenas pela luz fraca que entrava pelas janelas fechadas. Os móveis tinham um estilo antigo, com madeira escura e acabamento gasto pelo tempo. Um sofá de tecido floral ocupava uma das paredes, acompanhado por duas poltronas que pareciam ter décadas de uso. Havia algo de acolhedor naquele ambiente, mas também uma sensação enervante de algo errado.
Gwen caminhou lentamente até a mesa da sala, apoiando uma das mãos sobre o encosto de uma cadeira.
— Porque você está assumindo que o Giuseppe não ter aparecido no trem seria suficiente pra fazer todo mundo entrar em pânico.
— E não seria?
— Não necessariamente.
Ela puxou a cadeira alguns centímetros para trás.
— Pensa no tamanho desse esquema. — enquanto falava, sentou de forma invertida na cadeira, o encosto sobre o busto. — Pelo que a gente descobriu até agora, isso não começou ontem. Nem semana passada. Nem mês passado.
Gwen apontou para a própria cabeça.
— Estamos falando de anos. Talvez muitos anos em que esse esquema de tráfico de sapientes funciona.
A garota se levantou da cadeira rapidamente, como se já estivesse entediada da posição. Em seguida, começou a caminhar lentamente pela sala, analisando cada canto que conseguia ver enquanto demonstrava o seu raciocínio.
— Um esquema desses não sobrevive tanto tempo sem dar problema. Alguma coisa deve ter dado errado várias vezes ao longo do caminho.
— Tipo?
— Giuseppe atrasando. Um carregamento cancelado. Um trem quebrando. Um fiscal aparecendo onde não devia… — ela deu de ombros. — Essas pessoas provavelmente passaram por dezenas de situações estranhas ao longo dos anos.
Aquilo fez sentido, mais do que Niko gostaria de admitir. No primeiro momento, ele ainda tentou encontrar alguma falha naquele raciocínio. Alguma variável esquecida. Algum detalhe capaz de sustentar a hipótese de uma fuga coletiva. Mas, conforme reorganizava mentalmente tudo o que haviam descoberto naquela noite, a própria teoria começava a perder força. Ele tinha assumido que os operadores reagiriam da mesma forma que ele reagiria. Mas aquilo já era um erro.
— Pra nós parece enorme porque sabemos o que aconteceu hoje.
Niko franziu a testa. Por alguns segundos, não entendeu o que ela queria dizer. Então lembrou do evento mais traumático que havia ocorrido no inicio do dia.
— O massacre da sede da GV.
— Isso mesmo.
Gwen assentiu devagar. A expressão dela não carregava nenhuma satisfação por estar certa, apenas a tranquilidade de alguém organizando um raciocínio.
Niko sentiu uma pequena sensação de desconforto atravessar o peito, porque, aos poucos, começou a perceber exatamente onde tinha errado. Ele estava construindo toda a hipótese usando informações que existiam apenas dentro da cabeça deles. Todas aquelas informações pareciam parte do mesmo quebra-cabeça para ele. Mas não para os operadores. Eles não tinham visto nada daquilo. Não tinham presenciado nenhuma invasão.
— Mas os operadores não sabem do que aconteceu hoje.
A frase de Gwen atingiu o centro do problema com uma precisão irritante. Porque era verdade. Do ponto de vista deles, nada extraordinário havia acontecido. Pelo menos não ainda.
— Do ponto de vista deles, o Giuseppe simplesmente não apareceu. Ele pode ter ficado doente, esqueceu do compromisso, teve problemas com a plantação de ópio… Quem sabe?
Ela abriu os braços enquanto caminhava lentamente pela sala. A luz fraca da rua desenhava sombras suaves sobre os móveis antigos enquanto ela falava.
— Tem dezenas de explicações antes de chegar em “abandonem suas casas e fujam imediatamente”. Você não abandona tudo isso no meio da noite só porque um superior faltou ao trabalho.
Niko voltou os olhos para o interior da residência. A sala permanecia organizada. Livros em estantes. Objetos pessoais. Pequenos detalhes espalhados pelos cômodos que não chamavam atenção individualmente, mas que juntos formavam algo muito maior. Uma vida inteira.
— Então por que Navarra fugiria?
— Isso eu já não sei. — Gwen passou os dedos sobre o encosto de uma cadeira enquanto refletia por um instante — Mas alguma coisa fez ele acreditar que precisava desaparecer agora.
O silêncio voltou a ocupar a sala. O vento soprou do lado de fora, fazendo algo metálico ranger em algum lugar da rua.
— Porque ele sabia de alguma coisa que os outros não sabiam.
Niko permaneceu imóvel. Aquilo era possível. Talvez Navarra tivesse recebido alguma informação, ou tivesse visto alguma coisa, ou talvez tivesse cometido algum erro que os outros não cometeram.
— Ou porque ele entrou em pânico sozinho.
— Só ele?
— Talvez ele e mais alguém. — ela deu de ombros. O olhar percorreu os cômodos da casa antes de continuar. — Mas todos? Não. Eu apostaria todo o meu dinheiro que não.
A esotérica apontou vagamente para o restante da residência.
— Essas pessoas têm vida aqui. Família, amigos, emprego, vizinhos, rotinas. Alguns provavelmente têm filhos. Outros devem cuidar dos pais. Tem gente que passa décadas construindo esse tipo de coisa.
Ela apoiou uma das mãos na cintura.
— Abandonar tudo isso é difícil. Muito difícil. Você não acorda no meio da noite, faz uma mala e desaparece só porque alguma coisa estranha aconteceu no trabalho.
Niko absorveu aquelas palavras em silêncio. E então a nova possibilidade surgiu como um broto em sua mente. Tão óbvia que ele se sentiu estúpido por não ter pensado nela antes.
— Se os outros operadores também tivessem desaparecido, a Brigitte já teria vindo atrás da gente.
Niko ergueu os olhos enquanto organizava o pensamento em voz alta.
— Com a Bênção dela, atravessar a cidade leva minutos. Ela provavelmente teria chegado até nós antes mesmo de eu e você encontrarmos essa casa. — ele balançou a cabeça devagar. — Uma descoberta dessas não ficaria parada por muito tempo. Ela já teria nós avisado.
— Também tem isso…

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