Por que um mago só passava a ser levado a sério ao atingir o 3º ciclo? Porque era no 3º ciclo que sua especialização se consolidava. E, com ela, vinham as habilidades de assinatura.

    Há milênios, os círculos mágicos formados ao redor do coração de mana são estudados. Ao longo do tempo, os magos aprenderam a gravar runas específicas nesses círculos, despertando habilidades inatas ligadas à sua especialização.

    Uma das habilidades de assinatura possíveis para um necromante de almas era a [Transferência de Memória].

    Como o nome sugeria, [Transferência de Memória] permitia transferir memórias. A memória era uma das propriedades da alma e, com estudo suficiente, alguns necromantes de almas descobriram métodos para acessar tanto as próprias recordações quanto as de outros seres vivos.

    Naquele instante, Oliver gritou de dor enquanto uma torrente de informações invadia sua mente.

    Então Oliver deixou de ser apenas um observador.

    De repente, ele não estava mais vendo a criança de fora. Via através dos olhos dela.

    O cheiro de pergaminho e pedra úmida invadiu seus pulmões. O ar era frio. À sua frente se erguia a torre mágica de Eldravin, alta, austera e antiga. Oliver conhecia aquelas paredes sem nunca tê-las visto antes. Conhecia os corredores estreitos, o eco dos passos nos degraus de pedra, o som das penas riscando o papel durante a madrugada.

    Ali fora onde Orson crescera.

    Sua vida, no início, fora simples. Ele estudava, treinava, copiava runas até os dedos doerem, dormia pouco e voltava a estudar no dia seguinte. Havia algo de confortável naquela rotina. A torre o alimentava, o abrigava e lhe dava um propósito. Durante muito tempo, aquilo bastou.

    Quando alcançou o 3º ciclo, tudo mudou.

    Oliver sentiu a lembrança do instante exato em que o círculo mágico de Orson se completara ao redor do coração de mana. O mundo pareceu ganhar novas camadas. As almas ao redor deixaram de ser um conceito teórico e passaram a ter presença.

    Foi então que os mestres deixaram de olhá-lo como apenas mais um aprendiz aplicado.

    Havia poucos especialistas em necromancia em Osteria. Oficialmente, não havia nenhum. Necromancia era proibida dentro do reino. Era uma arte malvista, associada a blasfêmia, profanação e atrocidades. O que o povo não sabia era que a coroa fazia distinção entre aquilo que condenava em praça pública e aquilo que financiava em segredo.

    Osteria pesquisava a alma.

    Em segredo, com cautela, com portas trancadas e juramentos de silêncio, mas pesquisava.

    O único necromante de almas a serviço do reino foi quem o chamou após atingir o 3º ciclo. Orson ainda era jovem quando subiu os degraus até a oficina privativa do homem pela primeira vez. O aposento tinha frascos, pergaminhos, diagramas anatômicos e inscrições sobre alma espalhados por toda parte. O necromante já era velho naquela época, mas seus olhos tinham uma lucidez que intimidava.

    “Você tem talento”, ele lhe disse. “Talento de verdade. Se aceitar, seguirá meu legado.”

    Orson aceitou sem hesitar.

    Naqueles dias, pensou que havia sido escolhido para algo grandioso. Em certo sentido, fora mesmo. Só não entendeu, naquela época, o preço do que lhe era oferecido.

    Seu mestre lhe ensinou o que a torre jamais registraria em bibliotecas abertas. Mostrou-lhe que a alma não era apenas um sopro divino ou uma abstração filosófica. A alma tinha estrutura, propriedades, comportamento. Podia ser tocada pela magia, deformada, lida, separada do corpo, até mesmo ferida. Cada aula ampliava o fascínio de Orson.

    Cada aula também o afastava um pouco mais do restante dos homens.

    A pesquisa do reino era conduzida nas sombras. Os registros oficiais diziam uma coisa, os cofres da coroa financiavam outra. Orson crescera dentro desse mecanismo sem questioná-lo de verdade. Quando se tornou um mago de 4º ciclo, já estava fundo demais para fingir ignorância.

    Seu mestre envelheceu antes dele, como era inevitável. Mesmo com magia, mesmo com recursos, mesmo com tudo o que Osteria podia oferecer, a velhice cobrou seu preço.

    Na noite em que morreu, o velho não teve forças para um último discurso. Não houve despedida longa, nem instruções finais ditas em voz alta. Orson só encontrou um bilhete ao lado da cama, dobrado com cuidado.

    Oliver recebeu a lembrança daquelas palavras com a mesma clareza com que Orson as lera.

    “Meu caro discípulo, sei que estamos pesquisando em prol do reino, mas não acredite na bondade do rei. Minha pesquisa sobre a alma não avançou nos últimos anos por um capricho meu. Com todos os recursos à disposição, seria possível chegar ao resultado final, mas seria perigoso demais ver esse poder cair em mãos erradas.”

    Orson ficou muito tempo em silêncio depois de ler aquilo.

    Seu mestre era um gênio. O maior necromante de almas que ele já conhecera, e talvez o maior que Osteria conhecera em gerações. Durante anos, Orson acreditara que as dificuldades eram técnicas, que havia obstáculos reais impedindo a conclusão da pesquisa. Só naquela noite percebeu que o maior obstáculo tinha sido a consciência do velho.

    Ele chegara perto do fim.

    E recuara de propósito.

    Orson passou dias revisando notas, diagramas, resultados antigos, tentando medir a extensão daquilo que o mestre escondera até dele. Quanto mais lia, mais claro ficava: se levasse aquela pesquisa até o limite, o resultado seria um poder que nenhum rei deveria possuir.

    Ele podia terminar a pesquisa, mas não deveria.

    Foi assim que herdou não apenas o legado do mestre, mas o peso de sua decisão.

    Continuou o trabalho. Era isso que se esperava dele. O reino mantinha o financiamento, os laboratórios permaneciam abertos, os recursos continuavam chegando. Orson entregava relatórios, experimentos derivados, avanços úteis, resultados laterais. Descobria formas de estabilizar fragmentos anímicos, de melhorar a retenção de memórias residuais, de aprofundar a leitura da marca deixada pela alma no corpo. Tudo era real, tudo tinha valor, tudo mantinha a coroa satisfeita.

    Mas ele nunca ia direto ao ponto.

    Nunca entregou a chave final.

    O curioso é que Osteria nunca pressionou como ele temera. O reino parecia satisfeito enquanto os resultados continuassem vindo, mesmo que fossem paralelos ao objetivo original. Talvez acreditassem que ele ainda não era capaz. Talvez pensassem que o último passo realmente permanecia fora do alcance humano. Talvez estivessem apenas esperando.

    Orson também passou a esperar.

    Foi nesse período que Grace entrou em sua vida.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota