A aura laranja de Eliandris preenchia o quarto como o calor que precede um incêndio.

    A aura era densa, viva, irradiando do corpo dela de forma que ninguém pudesse ignorar. Oliver já havia visto aura antes. Havia enfrentado a aura azul do orc Groak no salão do bordel e sentido a pressão que ela exercia sobre o ar ao redor. Mas aquilo era diferente. Mais refinado. Mais controlado.

    “Artista marcial de rank 4?” Archibald deu voz ao que todos pensavam. 

    Oliver não disse nada. Era o menos surpreso de todos na sala e, mesmo assim, seu coração batia mais rápido do que deveria.

    Erina estava parada, com as asas levemente abertas. Ela olhou para Eliandris com uma expressão que Oliver nunca havia visto nela.

    Era surpresa genuína, sem camadas, sem ironia, sem o sarcasmo que usava como armadura, apenas surpresa.

    Desde quando Eliandris era uma artista marcial?

    Erina a conhecia havia anos. Havia ajudado quando ela chegou sem dinheiro, sem lugar, sem nada além de um filho ainda na barriga. Havia visto a elfa apanhar de Garet, com o rosto inchado e os hematomas que levaram dias para sumir. Havia visto também o cansaço genuíno depois de noites longas no bordel.

    E artistas marciais não ficavam com o rosto inchado por dias, não se cansavam facilmente. Artistas marciais de rank 4, muito menos.

    A contradição era real, mas o fato era inegável, Eliandris era uma artista marcial.

    Orson deu um passo involuntário para trás.

    Era um movimento pequeno, quase imperceptível, mas Oliver o viu. O velho havia sido pego de surpresa, o que, por si só, já era surpreendente em um homem que raramente demonstrava qualquer reação que não tivesse previsto.

    Quando se recuperou, olhou para Eliandris com uma expressão que Oliver não soube nomear de imediato. Não era medo, era algo mais próximo de pesar.

    “Que desperdício.” A voz de Orson saiu baixa, quase para si mesmo. “Você teria um potencial grandioso se tivesse aprendido magia.” Ele olhou para Eliandris com aquela expressão distante que às vezes surgia quando falava de coisas muito antigas. “Sua família a temia. Obrigaram você a aprender artes marciais para garantir que nunca aprendesse magia.”

    Não era uma pergunta.

    Eliandris não respondeu. A rapieira permanecia firme em sua mão direita, a ponta imóvel apontada para a garganta de Orson, enquanto a aura laranja pulsava ao redor de seu corpo com cadência estável.

    A aura era uma energia derivada da mana. Quando o cultivo de um artista marcial atingia certo ponto, toda a mana do corpo era convertida. As duas energias eram distintas, incompatíveis, e nenhum artista marcial podia conjurar magia, assim como nenhum mago podia seguir o caminho das artes marciais. Os caminhos se excluíam.

    “Afaste-se do meu filho.” A voz de Eliandris era fria e ameaçadora. “Vá embora. Foi você quem colocou esse feitiço nele?”

    “Sim.” Orson não hesitou. “Para desfazê-lo, preciso encostar nele.”

    Eliandris era uma elfa da alma, mentir para ela era uma má ideia.Entretanto Orson não estava mentindo, mas tampouco estava dizendo tudo. Uma verdade pela metade era mais difícil de ler do que uma mentira óbvia, e Orson sabia disso.

    A rapieira não se moveu.

    “Não dê mais um passo sequer.” Os olhos de Eliandris eram a coisa mais fria naquele quarto. “Ou vou cortar sua garganta.”

    Ela não estava blefando. Oliver sabia disso. Todos naquele quarto sabiam disso.

    Orson ficou parado.

    O silêncio durou alguns segundos.

    Depois, o velho olhou para Oliver.

    Havia algo naquele olhar que Oliver aprendera a reconhecer ao longo dos meses, Orson parecia decidido a agir.

    “Eu realmente preciso fazer isso”, Orson disse devagar. “Oliver, me desculpe por machucar sua mãe.”

    A mão dele foi até a cintura.

    A Gaiola de Almas se abriu antes que qualquer um pudesse reagir.

    O que saiu não era o espírito vingativo do orc. Nem a alma amarelada de um lobo.

    Era algo grande.

    Oliver sentiu antes de ver: uma pressão no ar, um peso que não era físico, mas que todo o quarto pareceu sentir ao mesmo tempo. As chamas das velas oscilaram. Algo mudou na densidade do ambiente, como no instante anterior a uma tempestade.

    A alma ocupou o quarto do chão ao teto em um único segundo.

    Era translúcida e amarela como todas as outras, mas havia nela uma diferença que Oliver não conseguia articular. Não era apenas o tamanho. Era a presença. Como se aquela alma tivesse mais peso existencial do que todo o resto do cômodo somado.

    Pescoço longo. Asas que se abriram e tocaram duas paredes opostas ao mesmo tempo. Uma cauda que cortava metade do quarto sem esforço.

    “Um dragão?” A voz de Eliandris saiu diferente pela primeira vez desde que a rapieira fora sacada.

    “Não parecer ser adulto.” Archibald falou rápido. “Um dragão adulto seria rank 7, no mínimo. Uma monstruosidade desse nível demoliria o prédio inteiro só de existir aqui dentro. Isso ainda é um dragão juvenil.”

    Juvenil. A palavra deveria soar reconfortante.

    Não soou.

    A alma do dragão não precisava de ordens explícitas. Orson fez um gesto com a mão, sutil, quase imperceptível, e a cauda se moveu.

    Rápida demais para que Eliandris conseguisse se esquivar por completo.

    O impacto veio de lado, atingindo-a no tronco com uma força que o quarto inteiro sentiu, madeira e reboco cederam ao mesmo tempo em que Eliandris desaparecia pela parede, para fora do prédio.

    A parede não ficou com um buraco limpo. Ficou escancarada, com lascas de madeira espalhadas, poeira e fragmentos de reboco caindo devagar.

    Onde Eliandris havia estado, restava agora ausência.

    Oliver abriu a boca.

    Nenhum som saiu.

    Archibald foi o primeiro a reagir. Levantou o cajado, e a gema azul brilhou com uma intensidade que Oliver reconheceu como conjuração em andamento. Ele avançou um passo na direção de Orson.

    A cauda do dragão voltou.

    Archibald conseguiu erguer um escudo de força no último instante. A barreira segurou, mas o impacto bastou para lançá-lo contra a parede oposta. O cajado escapou de sua mão, e o escudo se dissipou. Ele ficou no chão por um segundo, claramente atordoado, mas ainda de olhos abertos, ainda focado.

    Ainda conjurando.

    Oliver viu os lábios de Archibald se moverem mesmo caído no chão. O cântico estava sendo recitado em voz baixa, e seus dedos ainda faziam gestos precisos apesar da posição e do impacto. O mago não havia parado.

    Orson o ignorou.

    Caminhou diretamente até Oliver.

    Oliver não recuou. Não por coragem, mas por algo mais simples: seus pés simplesmente não responderam. Ficou parado, observando o velho se aproximar com o mesmo olhar triste de sempre, a Gaiola de Almas de volta à cintura e a alma do dragão pairando atrás dele.

    A mão de Orson se ergueu e tocou a testa de Oliver.

    “Desculpe-me, garoto.”

    [ HABILIDADE DE ASSINATURA – TRANSFERÊNCIA DE MEMÓRIA ]

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