Grace começou como assistente no laboratório. Jovem, inteligente, gentil e muito mais bonita do que qualquer homem concentrado em pergaminhos deveria ser obrigado a suportar diariamente sem perder o foco. Tinha mãos delicadas, mas firmes, aprendia rápido, fazia as perguntas certas  e possuía aquela rara combinação entre paciência e coragem que a pesquisa exigia.

    Grace era maga de 2º ciclo. Talentosa, sim, mas não o suficiente para romper a barreira do 3º. Muitos passavam a vida inteira sem atingir uma especialização verdadeira, e com ela não foi diferente. Orson viu o quanto aquilo a frustrou no começo. Com o tempo, ela aceitou a limitação com uma serenidade que ele jamais tivera diante das próprias dificuldades.

    Orson não percebeu quando a presença dela se tornou parte de seus dias.

    Primeiro, ele esperava ouvi-la entrando no laboratório pela manhã. Depois, começou a separar mentalmente observações que queria comentar com ela antes mesmo de registrá-las. Mais tarde, deu por si prolongando conversas inúteis só para adiar o momento em que ela iria embora.

    Grace ria pouco, mas quando ria parecia desfazer a frieza do laboratório por alguns instantes.

    Os dois acabaram se apaixonando de forma tão gradual que, quando Orson compreendeu o que sentia, aquilo já era antigo dentro dele.

    Casaram-se alguns anos depois.

    Por um tempo, Orson achou que seria possível viver assim para sempre: pesquisando sem dar o último passo, servindo ao reino sem entregar a arma definitiva, dividindo os dias com a única pessoa capaz de tornar suportável o peso do que fazia.

    Porque, sim, havia peso.

    Necromantes de almas eram, entre os necromantes, os mais cruéis. Não por gosto, necessariamente, mas por exigência do próprio campo de estudo. Ossos, carne e sangue podiam ser estudados depois da morte. A alma porém, era viva, reagia, sofria e resistia. Para compreendê-la, era preciso observá-la em seres vivos.

    Prisioneiros eram enviados para Orson.

    Condenados e criminosos. O reino entregava aquelas vidas às suas mãos com praticidade, como se um feirante entregasse uma caixa de repolhos ao seu cliente. 

    E ele aceitava.

    Podia revestir aquilo de justificativas, se quisesse. Podia dizer que era pelo reino, pelo equilíbrio, pelo medo do que aconteceria se alguém menos cauteloso herdasse seu posto. Podia dizer que alguns experimentos tinham como objetivo evitar horrores futuros. Tudo isso seria parcialmente verdade.

    Ainda assim, ele os matou, isso era inegável.

    Muitos.

    Alguns gritavam. Alguns imploravam. Alguns amaldiçoavam seu nome. Outros choravam de um jeito tão humano que, por um instante, faziam suas mãos hesitarem antes de completar um diagrama ou testar um feitiço.

    Grace sabia.

    Nunca tudo, mas o suficiente.

    Ela não aprovava em silêncio resignado, tampouco o confrontava com ingenuidade. Grace entendia o mundo real melhor do que a maioria dos estudiosos. Às vezes, ao encontrá-lo sentado sozinho depois de um experimento, lavando das mãos um sangue que a água não tirava, ela apenas segurava seu ombro e permanecia com ele. Em outras noites, perguntava se aquilo ainda tinha algum sentido.

    Orson nunca soube responder direito.

    Os anos passaram. Seu nome ganhou influência em Osteria. Portas se abriam para ele. Curandeiros o recebiam, nobres o cortejavam, oficiais da coroa o tratavam com respeito. Orson continuava entregando resultados paralelos e continuava sendo financiado sem restrições reais.

    Então Grace adoeceu.

    Foi súbito demais. No início, parecia apenas cansaço. Depois vieram as febres, a perda de peso e a dor persistente. Quando Orson finalmente conseguiu que os melhores magos de cura a examinassem, a notícia cruelmente caiu sobre ele.

    Era um tumor.

    Uma massa desenvolvida lentamente, agravada pela exposição prolongada às pesquisas, à mana residual, aos ambientes saturados de manipulação anímica. Em outras palavras, o trabalho ao lado dele ajudara a matar a mulher que amava.

    Quando um mago alcançava o 3º ciclo, sua mana também se transformava, tornando-se compatível com a natureza desse ciclo. Orson era um necromante de almas, portanto sua mana era do tipo alma. Por isso, a manipulação anímica nunca foi um problema para ele, ao contrário do que acontecia com sua esposa.

    Orson permaneceu em silêncio enquanto os curandeiros explicavam. Entendia cada termo técnico. Compreendia a progressão da doença, a degeneração dos tecidos, a interação da mana com o corpo dela, a impossibilidade prática de reversão naquele estágio.

    Ainda assim, parte dele recusava a conclusão.

    Cura era uma vertente da própria necromancia. O povo gostava de imaginar curandeiros como o oposto absoluto de necromantes, mas a verdade era mais incômoda. Curar também exigia compreender o corpo, a vida, a energia e os vínculos que mantinham uma existência coesa. Era uma sub-escola diferente, moralmente mais aceita, mas nascida do mesmo tronco de conhecimento. Como a necromancia era proibida em Osteria, magos realmente competentes em cura eram raros.

    E mesmo os raros que encontrou lhe disseram a mesma coisa.

    “Tarde demais.”

    Disseram que talvez magia de cura transcendente pudesse salvá-la.

    Magia de 7º ciclo ou superior.

    Não existia nenhum mago de 7º ciclo em Osteria, muito menos um mago de cura de 7º ciclo.

    Orson então recorreu às igrejas.

    Os deuses existiam. Ele sabia disso não por fé, mas por evidência suficiente do mundo. Milagres aconteciam. Alguns devotos recebiam fragmentos de poder divino, alguns sacerdotes eram capazes de operar curas que a magia arcana não alcançava. Havia até mesmo registros históricos de ocasiões em que deuses enviaram seus avatares ao mundo, semeando caos e destruição. Ele passou por templos de deuses que jamais reverenciara, ajoelhou-se diante de altares que antes observara com distância, ofereceu riquezas, influência, favores, tudo o que estava ao seu alcance.

    Nada bastou.

    Em cada igreja, uma resposta diferente com o mesmo significado.

    Não havia sacerdote poderoso o suficiente.

    Não havia bênção disponível.

    Não havia milagre para eles.

    Voltou para casa com as mãos vazias mais vezes do que Oliver conseguia contar através da memória. E, a cada retorno, Grace o recebia com um sorriso menor, porém mais sereno, como se estivesse aos poucos aceitando uma verdade que Orson continuava se recusando a tocar.

    “Você precisa descansar”, ela lhe dizia.

    Orson queria quebrar o mundo inteiro ao ouvir aquilo.

    Ele, que estudara a alma por décadas. Ele, que compreendera fragmentos do que acontecia depois da morte. Ele, que arrancara segredos de prisioneiros condenados. Ele, que conhecia a anatomia da alma como poucos homens vivos.

    Não conseguia salvar uma única pessoa.

    A única que importava.

    Nos últimos dias, permaneceu quase o tempo todo ao lado dela. O laboratório, os relatórios, os oficiais do reino, tudo se tornou irrelevante. Orson apenas ouvia a respiração cada vez mais fraca de Grace e tentava gravar cada detalhe do rosto dela como se a memória, ao menos, fosse algo que ainda pudesse impedir de se perder.

    Houve uma noite em que ela segurou sua mão com delicadeza e o olhou por muito tempo antes de falar.

    “Você está com aquela expressão de quando está prestes a fazer algo terrível.”

    O peito de Orson apertou. Grace o conhecia bem demais.

    “Se eu pudesse trocar o mundo por você, eu trocaria”, ele disse.

    Grace sorriu, cansada.

    “É justamente isso que me assusta.”

    Orson não respondeu.

    Ela entrelaçou os dedos nos dele.

    “Prometa que não vai se destruir por minha causa.”

    Ele não conseguiu prometer.

    Grace percebeu. Claro que percebeu.

    Ela não precisava ser um elfo da alma para entender o que seu marido sentia.

    Na manhã em que morreu, a luz entrava fraca pela janela. Orson estava ao lado da cama, exausto, sem ter dormido de verdade havia dias. Grace parecia menor do que antes, como se a doença tivesse consumido não só a carne, mas a presença dela no mundo.

    Mesmo assim, quando abriu os olhos e o viu, ainda tentou sorrir.

    “Orson…”

    A voz saiu baixa, quase um sopro.

    Ele se inclinou imediatamente, segurando a mão dela entre as suas.

    “Estou aqui.”

    Grace respirou com dificuldade. Seus dedos já estavam frios.

    “Você ficou comigo até o fim.”

    Como se houvesse qualquer outro lugar onde ele pudesse estar.

    Orson tentou falar, mas a garganta travou. Pela primeira vez em muitos anos, todo o seu vocabulário falhou.

    Ela moveu os lábios outra vez.

    “Obrigada.”

    Então a pressão dos dedos dela diminuiu.

    Foi só isso.

    Nenhum clarão. Nenhum milagre tardio. Nenhuma intervenção divina no último instante. Nenhuma resposta dos céus. Apenas uma mão ficando leve demais dentro da dele.

    Orson permaneceu imóvel por apenas um instante.

    Sua mente, treinada para perceber a alma, sentiu o instante exato em que a ligação se rompeu. Era o tipo de fenômeno que estudara a vida inteira. O desligamento do corpo. A separação final. O último afrouxar de um vínculo que nenhum mortal conseguia refazer com facilidade.

    Ele sentiu.

    E, naquele instante, agiu.

    Ao lado da cama, escondida sob um pano escuro, estava a Gaiola de Almas.

    Ele a trouxera antes do amanhecer.

    Talvez parte dele já soubesse, desde a noite em que Grace lhe pedira uma promessa que ele não pôde fazer, que não a deixaria partir. Talvez a decisão tivesse nascido ainda antes, em algum ponto entre os templos que o recusaram e o momento em que entendeu que todo o seu conhecimento não seria suficiente para salvá-la.

    A mão esquerda continuou segurando os dedos frios de Grace. A direita traçou no ar um diagrama de captura tão preciso quanto desesperado. A porta da Gaiola de Almas se abriu com um clique baixo, quase indecente na quietude do quarto.

    A alma de Grace ainda estava ali, próxima demais do corpo, naquele breve intervalo em que a morte ainda não a levara por inteiro.

    Orson a puxou para dentro da gaiola.

    A essência dela foi arrancada do fluxo natural da morte e selada dentro da Gaiola de Almas antes que pudesse seguir adiante. Orson sentiu a captura reverberar pelo item, pela mana do ambiente e pelo próprio peito. 

    Ainda assim, não afrouxou os dedos ao redor da gaiola.

    Aquela foi a pior tragédia de sua vida. Não apenas porque perdera Grace, mas porque todo o seu conhecimento fora incapaz de salvá-la e servira apenas para violar até mesmo a morte dela.

    Passara tantos anos temendo a conclusão da pesquisa do mestre por acreditar que ela traria destruição ao mundo.

    Naquele dia, sentado ao lado do corpo de Grace e com a Gaiola de Almas nas mãos, Orson compreendeu que não iria apenas completar a pesquisa do mestre.

    Iria além do que lhe havia sido pedido.

    Não se contentaria em aprisionar almas, estudá-las ou dobrá-las. Encontraria um caminho para fazê-las voltar. Forçaria o impossível a ceder. Ultrapassaria o limite que seu mestre perseguira e que o reino jamais ousaria aceitar.

    A linha que jurara jamais cruzar deixara de ser um limite.

    Agora, era o ponto de partida.

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