Capítulo 39: Cívis
O relógio instalado na praça central marcava pouco depois das oito quando as últimas instruções foram distribuídas.
Ao contrário do que muitos alunos pareciam esperar desde a saída da Academia, não havia fumaça no horizonte, alarmes soando ou criaturas avançando sobre os limites da cidade. Urio continuava praticamente normal, as lojas permaneciam abertas, algumas carroças ainda cruzavam as ruas carregando mercadorias, e o cheiro de pão recém-assado escapava de uma pequena padaria próxima à praça. A única diferença real era a presença incomum de uniformes militares e o número crescente de pessoas organizando malas e separando aquilo que conseguiriam levar consigo.
A horda ainda estava distante.
Os observadores posicionados além das linhas florestais calculavam pelo menos mais um dia completo antes do primeiro contato com a região. A missão dos estudantes existia justamente por causa disso. Havia tempo para evacuar a população sem pressa, evitar pânico desnecessário e permitir que os profissionais se concentrassem nas linhas defensivas mais externas.
Pelo menos, era esse o plano.
Vance caminhava ao lado de Ysolde pelas ruas do setor designado enquanto consultava um pequeno mapa com as rotas que deveriam seguir. Ela avançava com passos firmes, o capacete preso à cintura e as mãos nos bolsos do casaco.
Uma carroça carregada de móveis passou lentamente por eles. Um senhor de cabelos grisalhos conduzia o animal enquanto uma menina pequena mantinha os braços ao redor de uma caixa de madeira maior do que ela própria.
— Eles parecem tranquilos — murmurou Vance.
Ysolde acompanhou a cena por alguns segundos antes de responder.
— Acho que é normal para eles.
Vance desviou o olhar.
— Urio já foi evacuada?
— Três vezes nos últimos quinze anos. Nenhuma terminou em combate dentro da cidade.
O silêncio voltou a acompanhá-los.
Alguns metros adiante, um grupo de crianças observava os estudantes reunido diante de uma pequena oficina mecânica. Assim que perceberam a aproximação dos uniformes da Academia, começaram a cochichar entre si até que uma delas, um garoto de não mais que dez anos, reuniu coragem suficiente para dar alguns passos à frente.
Os olhos dele percorriam cada detalhe do equipamento de Vance.
As proteções metálicas.
O comunicador preso ao pescoço.
O símbolo da Academia bordado sobre o peito.
— Vocês… não tem a mesma idade que a gente?
A pergunta saiu acompanhada de uma sinceridade tão absoluta que Vance precisou olhar duas vezes para o garoto.
As outras crianças permaneciam alguns passos atrás, empurrando umas às outras em silêncio, como se tivessem escolhido um representante oficial para lidar com aquela questão extremamente importante. Nenhuma delas parecia intimidada pelos uniformes ou pela presença dos soldados espalhados pela cidade. Havia curiosidade. Apenas isso.
Vance observou o menino por alguns segundos.
O cabelo castanho estava desalinhado. Os joelhos da calça carregavam manchas de terra seca. Havia um pequeno corte cicatrizado próximo à sobrancelha esquerda, provavelmente consequência de alguma brincadeira recente.
Ele parecia… normal.
Assustadoramente normal para alguém que passaria a noite abandonando a própria casa.
— Quantos anos você tem? — perguntou Vance.
— Oito.
Vance ficou em silêncio.
Ysolde permaneceu parada ao lado dele, observando a cena sem interferir.
— Então… acho que não estamos tão longe assim.
O garoto franziu a testa imediatamente.
— Mas vocês usam armaduras… e vieram em transportes militares… e vão enfrentar monstros!
Vance demorou alguns segundos para responder.
O vento atravessou a rua, fazendo algumas folhas secas rolarem entre as rodas de uma carroça estacionada próxima à oficina.
— Bom, é verdade, menos a parte do enfrentar monstros.
— Então por que vocês vieram?
Antes que Vance encontrasse uma resposta adequada, Ysolde falou pela primeira vez desde que haviam parado.
— Porque adultos gostam de garantir que ninguém precise enfrentar monstros.
As crianças olharam para ela.
Depois olharam novamente para Vance.
O garoto que havia iniciado a conversa cruzou os braços.
— Mas vocês não são adultos.
O silêncio que se seguiu durou apenas alguns segundos.
— Os outros adultos.
As crianças se entreolharam por um instante.
Então a informação pareceu finalmente ser processada.
— Então vocês estudam na Academia de verdade?
Vance piscou.
— Sim.
A reação foi imediata.
As outras crianças abandonaram qualquer tentativa de parecer discretas e avançaram alguns passos ao mesmo tempo, formando um pequeno círculo ao redor dos dois. Perguntas começaram a surgir antes mesmo que as anteriores fossem respondidas.
— Vocês aprendem a lutar?
— O uniforme é dado quando entram?
— Precisa derrotar alguma criatura para ser aceito?
— Vocês podem usar Fluxor à vontade?
Uma menina de cabelos escuros apertou as próprias mãos atrás das costas enquanto observava a roupa militar que cobria Vance.
— Como faz para ser igual a vocês?
O entusiasmo que havia substituído a curiosidade inicial pegou Vance completamente desprevenido.
Por alguns segundos, ele apenas encarou aqueles rostos.
Para ele, nada mais era que um estudante normal, na verdade, um estudante um pouco inferior. Mas aparentemente, ele era mais que isso.
O vento deslocou algumas mechas claras de seu cabelo, e por trás da habitual expressão apática surgiu algo muito próximo de divertimento.
Um garoto aproximou-se mais um passo.
— Eu quero entrar na Academia quando crescer.
Outro levantou a mão imediatamente.
— Eu também!
— Meu irmão disse que só entram gênios.
— O meu pai falou que precisa nascer forte.
— Minha mãe disse que os nobres têm vantagem.
As vozes começaram a se sobrepor.
— Eu… sinceramente não sei como responder isso.
As crianças silenciaram de imediato.
— Não?
Vance balançou a cabeça.
— Tem gente forte. Tem gente inteligente. Tem gente rica. Tem pessoas que parecem ter nascido para aquilo.
Ele desviou o olhar para as ruas de Urio, onde soldados auxiliavam famílias a carregar móveis e malas para os pontos de encontro.
— E também existem pessoas que simplesmente continuam tentando.
…
O setor seguinte os levou até uma pequena residência construída quase na extremidade da cidade, onde a vegetação começava a se aproximar das ruas. O jardim estava impecavelmente cuidado. Flores ocupavam os dois lados da entrada e pequenas esculturas de pedra marcavam o caminho até a varanda.
Uma senhora idosa organizava roupas dentro de duas malas abertas.
Ou pelo menos tentava.
A cada peça dobrada, outras três surgiam em suas mãos.
Ysolde observou a cena por alguns segundos antes de suspirar.
— Quanto tempo estamos nisso?
A mulher levantou a cabeça.
— Desde as seis da manhã.
— E quantas malas a senhora pretende levar?
— Todas.
Ysolde cruzou os braços.
— O transporte permite duas.
— Então eles precisam rever essa regra.
Vance permaneceu em silêncio enquanto assistia à discussão.
A senhora caminhou até uma estante próxima e retirou um pequeno porta-retratos.
Os dedos enrugados limparam a superfície de vidro quase por reflexo.
— Meu marido construiu esta casa quando eu tinha dezenove anos. Cada móvel aqui foi feito por ele. Cada árvore do jardim foi plantada por nós dois. Vocês crianças, chegam usando uniformes bonitos e esperam que eu escolha apenas duas malas?
O silêncio que se seguiu pareceu maior do que a própria sala.
Ysolde desviou os olhos para o jardim através da janela.
Depois voltou a encarar a mulher.
— Certo.
Vance virou imediatamente o rosto.
— Certo?
Ela caminhou até uma velha estante de madeira encostada na parede.
— O que realmente importa aqui?

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