Capítulo 40: 36
Depois de alguns bons minutos tentando convencê-la, Ysolde desistiu.
Ela soltou o ar lentamente,massageando a testa com dois dedos.
— Que seja…
Vance esperou alguns segundos antes de acompanhá-la até a porta. Quando a fechou atrás de si, o cheiro das flores do jardim voltou a substituir o ar abafado do interior da casa. Nenhum dos dois disse nada enquanto atravessavam o pequeno caminho de pedras.
Só quando o portão ficou para trás Ysolde quebrou o silêncio.
— A gente não vai conseguir convencer todo mundo.
Vance olhou para trás por cima do ombro. Pela janela, ainda era possível ver a silhueta da senhora caminhando lentamente entre os móveis da sala, passando a mão sobre a madeira de uma estante como quem se despede de um velho amigo.
— Eu sei.
Os dois retomaram a caminhada pelas ruas de Urio. O movimento da cidade continuava constante, mas diferente do início da manhã. As carroças agora estavam mais carregadas, famílias atravessavam as ruas com mais pressa, e soldados batiam de porta em porta repetindo as mesmas orientações pela centésima vez. Aos poucos, o tempo disponível começava a ganhar peso.
O sol cruzou o céu quase sem que percebessem.
Casa após casa, conversa após conversa, a rotina tornou-se repetitiva. Algumas famílias já os esperavam com as malas prontas. Outras ainda discutiam o que levar. Havia quem insistisse em desmontar móveis, quem se recusasse a abandonar animais e quem perguntasse, pela quinta vez, se realmente era necessário partir.
Quando a tarde começou a morrer, uma luz alaranjada passou a cobrir os telhados de Urio. As sombras das casas se alongaram pelas ruas de pedra, e a movimentação, antes apressada, adquiriu um ritmo silencioso. As primeiras janelas começaram a se iluminar, não porque a cidade estivesse voltando ao normal, mas porque aquela seria, para muitos, a última noite dentro da própria casa.
O lugar que pela manhã servira como ponto de distribuição das equipes agora havia se transformado em um enorme centro de evacuação. Filas se organizavam diante dos caminhões militares. Soldados anotavam nomes, conferiam documentos e orientavam cada grupo para diferentes transportes. Crianças dormiam apoiadas nos ombros dos pais, exaustas demais para compreender o motivo de tanta movimentação. Algumas pessoas conversavam em voz baixa, outras apenas observavam a própria casa do outro lado da rua, como se tentassem gravar cada detalhe antes de partir.
O céu já havia perdido quase toda a luz do dia quando um movimento incomum começou a se espalhar entre os alunos posicionados na extremidade norte da cidade.
Vance percebeu primeiro a mudança de postura.
Até então, os estudantes da Academia caminhavam entre as famílias mantendo o mesmo ritmo calmo que haviam demonstrado desde a chegada a Urio. Alguns ajudavam idosos a carregar malas, outros orientavam moradores até os pontos de embarque, enquanto pequenos grupos conferiam listas de evacuação distribuídas pelos professores. A rotina repetia-se havia horas, criando a impressão de que ainda existia tempo de sobra.
Então uma aluna parou.
Ela levou a mão ao comunicador preso junto ao pescoço e permaneceu completamente imóvel, escutando. Sua expressão não mudou, mas os olhos abandonaram a praça e se voltaram para além das últimas casas de Urio, onde a floresta desenhava uma linha escura contra o horizonte.
Outro estudante fez exatamente o mesmo.
Em poucos segundos, pequenos chiados começaram a surgir dos comunicadores espalhados por toda a cidade, espalhando-se como uma onda invisível entre as equipes da Academia.
O ruído das falas de repente diminuiu.
Os cavalos presos aos veículos começaram a bater os cascos contra o chão de pedra, inquietos com a mudança repentina do ambiente.
Vance acompanhou o olhar dos outros alunos.
A floresta permanecia exatamente como antes, mesmo assim, a sensação era diferente.
Poucos segundos depois, uma sirene grave rompeu o silêncio.
O som atravessou Urio inteiro, ecoando entre os telhados e fazendo as janelas vibrarem. Era um ruído longo, profundo, diferente de qualquer alarme que Vance já ouvira. Não transmitia pânico imediato, mas fazia o peito apertar da mesma forma.
— Ei… o que foi? — Uma criança não tão mais nova que ele perguntou a seu pai.
Uma mulher deixou cair uma mala no meio da rua.
A madeira bateu contra o chão com força suficiente para fazer o filho pequeno se agarrar às suas pernas.
Alunos da Academia passaram rapidamente entre as filas, elevando a voz pela primeira vez desde que haviam chegado.
— Continuem o embarque!
— Não parem!
— Sigam para os transportes!
As ordens cruzavam a praça de um lado para o outro.
O ritmo tranquilo que sustentara a cidade durante todo o dia desapareceu em poucos segundos.
Ysolde já havia colocado o capacete antes mesmo que Vance percebesse.
Ela ajustava a presilha sob o queixo enquanto mantinha os olhos presos na linha escura da floresta.
Alguns metros afastados da praça, reunidos sobre a varanda de uma antiga casa abandonada que oferecia visão privilegiada de toda a cidade, os professores acompanhavam a movimentação em absoluto silêncio.
Nenhum deles parecia compartilhar da tensão que começava a tomar conta dos estudantes.
Marcus Mori permanecia com os braços cruzados, observando a linha escura da floresta através de um pequeno binóculo. Ao seu lado, uma mulher de cabelos curtos segurava uma prancheta eletrônica repleta de pequenas marcações que mudavam constantemente de posição.
Ela levantou os olhos por um instante.
— Trinta e seis… como o previsto.
Outro professor aproximou um pequeno visor dos olhos.
Na tela, dezenas de pequenos pontos luminosos avançavam lentamente em direção à cidade, espalhados em formação irregular.
— Um para cada.

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