Capítulo 43: Flores ao Sangue
Ysolde deslocou o pé esquerdo alguns centímetros para a frente enquanto a ponta de Calígula abandonava o chão. O Vulpus Ossa continuava alguns metros a frente. A mandíbula abriu-se alguns centímetros mais, revelando outra fileira de dentes escondida atrás da primeira, e seus músculos se contraíram de uma só vez.
O mundo pareceu prender a respiração por um único instante.
Então o Vulpus desapareceu.
Nem Vance nem Ysolde conseguiram acompanhar o movimento. A raposa deixou apenas uma explosão de pedras quebradas onde estivera um momento antes, seguida por um deslocamento de ar que atravessou a rua como uma rajada. Instintivamente, Ysolde girou o corpo e lançou a espada na direção em que imaginava que o ataque viria, mas a lâmina encontrou apenas o vazio.
Calígula soltou um estalo de língua.
— Muito rápida…
A criatura não havia investido contra eles.
Vance acompanhou apenas um borrão serpenteando entre as casas até que seus olhos encontraram o destino daquele avanço.
Uma casa, um pouco longe de onde eles estavam, quase nas extremidades da cidade.
Ela surgiu entre as demais como um lampejo de memória.
O pequeno jardim ainda permanecia intacto, as flores balançando sob o vento da noite, e a varanda de madeira continuava iluminada pela mesma lâmpada amarelada que os recebera horas antes. A porta estava aberta. Uma mala encontrava-se abandonada sobre os degraus, enquanto outra era arrastada lentamente pelo caminho de pedras.
A senhora finalmente havia decidido partir.
O corpo curvado pelo peso da bagagem avançava devagar, obrigando-a a interromper os passos de tempos em tempos para recuperar o fôlego. Antes de alcançar o portão, ela voltou o rosto uma última vez para a casa. Seus olhos percorreram demoradamente a fachada, as janelas, o pequeno banco sob a árvore e as flores que cercavam a entrada, como se tentasse gravar cada detalhe antes de deixá-los para trás. Seus dedos permaneceram alguns segundos sobre o ferro frio da porta antes de empurrá-lo lentamente.
Foi nesse instante que Vance e Ysolde compreenderam.
Aquela criatura jamais tivera interesse neles.
— Não… — o sussurro escapou dos lábios de Ysolde antes mesmo que percebesse.
Seu corpo já havia partido.
O chão explodiu sob seus pés quando ela avançou, deixando para trás apenas uma nuvem de poeira e fragmentos de pedra. O casaco escuro foi lançado para trás pela velocidade, enquanto Calígula descrevia um arco vermelho diante dela, deixando um rastro rubro no ar a cada impulso. Vance tentou acompanhá-la com os olhos, mas a garota atravessava a rua rápido demais, saltando sobre carroças abandonadas, deslizando entre pessoas que sequer compreendiam o que acontecia e reduzindo a distância até a casa em poucos segundos.
A senhora acabara de colocar um pé no jardim quando um estrondo o fez inteiro estremecer.
O Vulpus Ossa surgiu ao lado da cerca como se tivesse nascido da própria sombra. O impacto de suas patas contra o chão abriu pequenas rachaduras entre as pedras do caminho, espalhando terra e pétalas pelo ar. A senhora sequer teve tempo de virar completamente o rosto. Apenas seus olhos se arregalaram quando a enorme silhueta escura ocupou todo o seu campo de visão.
Ysolde ainda estava longe, mas era possível.
Ela reuniu toda a força das pernas no último impulso. O corpo praticamente voou sobre o jardim, e Calígula foi erguida acima da cabeça, pronta para descer em um golpe vertical que partiria a criatura ao meio antes que ela alcançasse a mulher.
Por um instante pareceu realmente possível.
O Vulpus ergueu a cabeça.
E, exatamente um instante antes de sua espada tocar sua carapaça, outra massa escura atravessou a cerca lateral da casa.
O impacto fez o ar explodir.
Uma segunda raposa surgiu em velocidade absurda, chocando-se contra Calígula com o próprio corpo. O som metálico ecoou pela rua como o choque entre duas enormes placas de aço. Faíscas avermelhadas saltaram para todas as direções.
Ysolde foi arrancada da própria trajetória antes mesmo de compreender o que havia acontecido. Seu corpo girou violentamente no ar, obrigado a acompanhar a força do impacto. Ela conseguiu recuperar o controle apenas nos últimos instantes, cravando os pés contra a terra vários metros adiante. O atrito abriu dois rastros profundos no solo até que finalmente conseguiu parar, mantendo a espada erguida diante do corpo.
Tudo havia acontecido em menos de um segundo.
A segunda raposa permanecia entre ela e a primeira, imóvel como uma sentinela, enquanto o Vulpus Ossa que ela tentara impedir sequer diminuía a velocidade. Continuava avançando em linha reta, atravessando o jardim como uma flecha, sem perder um único instante de seu movimento.
Ela já tinha chegado na mulher.
O Vulpus Ossa apoiou uma das patas traseiras contra o chão e impulsionou o corpo para frente.
O corpo monstruoso pareceu desaparecer no exato instante em que impulsionou as patas traseiras. A criatura escura simplesmente cruzou o espaço entre ela e a idosa em uma velocidade impossível de acompanhar, transformando o próprio deslocamento em uma rajada de vento que arrancou flores do jardim.
A senhora mal conseguiu erguer o rosto. Seus olhos encontraram a criatura por uma fração de segundo, tempo suficiente para que o espanto apagasse qualquer outro sentimento de seu rosto. A mão que ainda segurava a alça da mala afrouxou instintivamente, os dedos tremeram sobre o couro gasto e seus lábios chegaram a se entreabrir, como se tentasse dizer alguma coisa, mas nenhum som conseguiu escapar antes que o Vulpus Ossa completasse o movimento iniciado um instante antes.
A pata dianteira descreveu um arco curto e brutal. Não havia qualquer exagero em seus gestos, nenhuma intenção de prolongar o ataque. O golpe foi preciso, seco, executado com a mesma naturalidade de um predador abatendo uma presa muito menor. O impacto acertou a mulher no torso e produziu um estampido tão violento que o ar pareceu vibrar ao redor do jardim. Por um breve momento, seu corpo simplesmente deixou de obedecer às leis do próprio peso. Os pés perderam contato com o chão, a mala escapou completamente de sua mão e dezenas de objetos foram lançados para o alto junto com ela. Roupas cuidadosamente dobradas abriram-se ao vento, um velho cachecol girou lentamente sobre si mesmo, fotografias amareladas espalharam-se pelo jardim como folhas carregadas por uma tempestade.
A própria senhora foi arremessada para trás com violência suficiente para atravessar a pequena árvore que havia ao lado do jardim. O tronco fino estalou ao meio sob o impacto, espalhando lascas de madeira antes que seu corpo continuasse sendo lançado em direção à casa.
A colisão na casa foi tão brutal que parte da madeira cedeu imediatamente, envolvendo-a em uma nuvem de poeira e estilhaços. Quando ela voltou a ficar visível entre os escombros, permanecia imóvel, caída em uma postura impossível, cercada por pedaços de madeira, fotografias espalhadas e flores esmagadas cobertas por um vermelho escuro.
Ysolde assistiu à cena inteira sem conseguir fazer absolutamente nada.
Agora chegara a vez deles.

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