O jardim mergulhou em um silêncio que pareceu durar mais do que o normal.

    As fotografias continuavam descendo lentamente entre as flores destruídas, girando ao sabor do vento enquanto pequenos pedaços da fachada ainda desabavam da casa atingida. Uma cadeira de madeira tombou para fora da varanda, rolando pelos degraus até parar ao lado da mala aberta. O cachecol que a senhora carregara durante todo o caminho foi pousando devagar sobre o canteiro de flores que ela mesma provavelmente cuidara durante anos.

    Ysolde permaneceu imóvel.

    Sua respiração tornou-se pesada, quase irregular. Os dedos apertavam a empunhadura de Calígula com tanta força que suas mãos se avermelhavam.

    Nem mesmo Calígula disse uma única palavra.

    Do outro lado do jardim, a primeira raposa retirou lentamente a pata do chão. Não olhou para o corpo caído. Não demonstrou qualquer interesse pelo resultado do próprio ataque. Apenas virou a cabeça na direção de Ysolde, enquanto a segunda criatura avançava alguns passos até posicionar-se ao seu lado.

    As duas permaneceram imóveis.

    Os longos pescoços inclinaram-se quase ao mesmo tempo.

    O som seco das vértebras estalando percorreu a rua.

    Atrás delas, outras silhuetas começavam a surgir entre as árvores, atravessando lentamente o limite da floresta. Algumas caminhavam sobre quatro patas, outras em duas. Seus olhos refletiam sob a luz de Urio.

    Vance sentiu as pernas recusarem o primeiro passo. O golpe que atingira a senhora parecia continuar ecoando dentro de sua cabeça, como se ainda pudesse ouvir o estampido da colisão entre seus ossos e as paredes. Respirou fundo, tentando afastar a sensação repugnante que apertava seu peito, e só então conseguiu romper a própria paralisia.

    Essa era a primeira vez que via uma cena com tanto sangue. Já presenciou mortes em sua cidade natal, mas não tão agressivas.

    Quando finalmente alcançou Ysolde, permaneceu ao lado dela sem desviar o olhar da casa destruída.

    O cheiro de madeira quebrada misturava-se ao perfume das flores esmagadas e ao odor metálico que começava a dominar o jardim. Seu estômago revirou. Aquela mulher ainda conversava com eles poucas horas antes. Ainda insistia em permanecer naquela casa porque acreditava que teria tempo.

    Tempo esse que na verdade nunca teve.

    O silêncio foi rompido por uma voz que atravessou a rua inteira.

    — RECUEM!

    O grito veio de um estudante parado sobre o teto de um dos carros, uma das mãos segurando o comunicador preso ao pescoço enquanto a outra fazia sinais largos na direção da praça principal. A voz falhou por um instante antes de ganhar ainda mais força.

    Sua voz veio tão alta que mesmo a mensagem sendo para o comunicador, seu grito conseguiu ser ouvido por fora.

    — Prioridade a embarcação dos civis! Recuem para o centro!

    Como se aquelas palavras despertassem uma engrenagem adormecida, dezenas de estudantes espalhados por Urio responderam quase ao mesmo tempo. Alguns abandonaram pequenos confrontos que começavam a surgir na periferia da cidade, outros interromperam o auxílio às famílias apenas pelo tempo necessário para reorganizar as filas. Em poucos segundos, grupos inteiros convergiam para a praça central, correndo pelas ruas de pedra enquanto orientavam os moradores a seguirem na mesma direção.

    — Continuem andando!

    — Não parem!

    Essa voz era conhecida por Vance, depois de ouvir mais um pouco ele a reconheceu. Era Reon Corven.

    Ysolde permaneceu imóvel por apenas um instante, os olhos ainda presos à casa destruída. Sua respiração era pesada, e a mão que segurava Calígula tremia de forma quase imperceptível antes que ela cerrasse novamente os dedos ao redor da empunhadura.

    — Temos que voltar… — Vance disse.

    Ysolde não respondeu imediatamente.

    Os olhos continuavam presos à abertura destruída da casa. A poeira ainda flutuava entre as tábuas quebradas, e pequenas pétalas arrancadas do jardim desciam lentamente sobre os escombros, misturando-se às fotografias espalhadas pelo chão. Por um instante, ela pareceu completamente distante de tudo ao redor, como se o restante da cidade tivesse deixado de existir.

    Então Ysolde fechou os olhos por um breve instante.

    Quando voltou a abri-los, toda a hesitação havia desaparecido.

    Ela girou a lâmina uma única vez e a apontou para trás, na direção da praça.

    — Vamos.

    Os dois deram apenas alguns passos quando um rugido percorreu a rua.

    As duas raposas finalmente se moveram.

    Os corpos desapareceram em dois borrões quase simultâneos, cruzando o jardim destruído e avançando pela rua principal sem sequer olhar para Ysolde ou Vance. As patas mal tocavam o chão. A cada impulso, percorriam dezenas de metros, deixando apenas explosões de poeira e pedras partidas onde haviam passado.

    — Elas não parecem estar atrás da gente. — Vance murmurou.

    Ysolde acompanhou as silhuetas com o olhar.

    — De fato não estão.

    Os Vulpus Ossa atravessaram um cruzamento e desapareceram entre as casas, seguindo exatamente na direção para onde centenas de civis estavam sendo conduzidos.

    Ysolde continuou acompanhando as duas silhuetas até que desapareceram atrás de uma fileira de construções. Seu olhar não demonstrava surpresa. Apenas concentração. A ponta de Calígula permanecia baixa, acompanhando seus passos enquanto ela ajustava a respiração pouco a pouco, recuperando o controle que perdera por um breve instante diante da morte da senhora.

    — Preste atenção. Essas raposas são espertas e rápidas, mas, no geral, é só isso. A força delas existe por causa da velocidade. Quanto mais espaço têm para acelerar, mais destrutivo fica o impacto. Se conseguirem atingir alguém em corrida… você acabou de ver o resultado.

    Vance voltou os olhos para o jardim destruído apenas por um instante antes de desviar novamente. Não precisava olhar uma segunda vez para entender.

    Os dois retomaram a corrida pelas ruas de pedra enquanto, ao redor, estudantes guiavam famílias inteiras para a praça principal. Crianças eram carregadas nos braços, idosos eram praticamente arrastados pelos próprios parentes.

    O caos começava a tomar forma, mas ainda existia ordem suficiente para impedir que tudo desmoronasse.

    Ysolde saltou sobre uma cerca baixa sem diminuir a velocidade.

    — Elas procuram corredores longos, ruas abertas, qualquer lugar onde possam ganhar impulso. Se forem obrigadas a lutar em espaços fechados ou se perderem velocidade, ficam muito menos perigosas.

    — Muito menos… ainda parece bastante perigoso.

    — Continua sendo.

    Calígula soltou uma risada baixa.

    — Ela está resumindo bastante. Essas coisinhas adoram brincar com a presa antes de matar. Atacam sempre onde existe mais gente indefesa, espalham pânico e fazem todo mundo correr na mesma direção. Quanto maior a confusão, maior o espaço para acelerar outra vez. Não são inteligentes como um humano… mas também estão longe de serem apenas animais.

    Aquelas palavras fizeram Vance erguer os olhos para a avenida principal.

    As duas raposas reapareceram ao longe.

    Corriam paralelas sobre os telhados, impulsionando-se de uma construção para outra com uma leveza impossível para criaturas daquele tamanho. Em nenhum momento diminuíam a velocidade. Não perseguiam uma pessoa específica.

    Cada salto produzia um estrondo seco quando as telhas cediam sob suas patas, espalhando fragmentos de barro sobre a rua abaixo. Os longos pescoços giravam continuamente, acompanhando o fluxo de civis que convergia para a praça central, enquanto as caudas serpenteavam atrás dos corpos como enormes chicotes vivos, corrigindo o equilíbrio durante os saltos.

    Ao chegar na área central perceberam, as duas raposas não eram nem de longe as únicas ali.

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