Capítulo 172 | Presas e Sombras
Veio de cima — de algum ponto alto que Theo não havia visto. Caiu com todo o peso, as patas dianteiras nos ombros do centauro, os dentes fechados no pescoço antes que Nesso pudesse processar de onde havia vindo o impacto.
Nesso rodopiou, a criatura acabou em suas costas.
O movimento foi violento o suficiente para triturar qualquer criatura menor. As garras se aprofundaram nos ombros e os dentes no pescoço. Nesso tentou alcançar o lobo com o braço livre e não chegou ao ângulo certo. Tentou de novo. A espada bastarda desceu em arco para atingir o flanco da criatura que lhe mordia o pescoço, mas com o lobo preso nas costas o ângulo era errado para qualquer golpe com precisão.
Nesso arremessou o próprio corpo contra a parede do assentamento para esmagar o inimigo entre ele e a pedra. Licaão girou antes do impacto e a parede recebeu o ombro de Nesso ao invés do dorso do lobo. A pedra cedeu. Nesso berrou. Licaão saltou para cima do centauro de novo antes que ele se recuperasse.
Theo ficou olhando por meio segundo. Calixto tinha um olhar que misturava choque e alívio.
— Deuses… O que é aquilo?
O comandante se virou para os soldados, forçando-se a ficar ereto.
— Não há tempo para perguntas agora! Os centauros. — bradou. — Agora, enquanto o gigante está ocupado.
Os dois centauros que restavam haviam parado quando Licaão caiu sobre Nesso. Theo usou esse instante.
Ele foi pelo mais próximo com Calixto cobrindo o ângulo esquerdo. A sombra morta havia regressado à formação deles em algum momento durante o caos de Nesso e o galpão destruído, mas agora Theo a via. A luz das flores permitia isso. Ele a contornou, foi diretamente para o centauro de carne e osso, e quando a criatura reagiu e ergueu os braços para o golpe, Calixto já havia disparado duas flechas no pescoço.
O centauro vacilou. Theo entrou por baixo da guarda e enfiou a espada na altura do abdômen. Até a base.
A criatura acertou Theo no ombro com o cotovelo e o colocou de joelhos. Theo se levantou e fincou a espada outra vez. O centauro ergueu uma das patas e o coice passou a centímetros da cabeça do comandante. Calixto disparou mais três flechas. No quinto golpe de Theo, a criatura foi ao chão e não voltou.
Calixto já havia se virado para o segundo.
Este mostrou-se mais astuto. Recuou durante a investida do primeiro, ganhou distância, reposicionou o corpo. Quando Calixto aproximou-se, ele tinha o ângulo perfeito para a lança. A ponta de ferro passou a vinte centímetros do rosto da arqueira. Ela desviou com um movimento seco, rolou, levantou-se mais afastada do que planejara. O centauro avançou, a ponta da arma pronta para um novo bote.
Dois escudeiros chegaram pelos lados ao mesmo tempo. Um travou a lança do centauro com o escudo. O outro cravou a própria lança no flanco exposto. Calixto chegou enquanto a criatura ainda gritava e terminou com uma flechada no céu da boca que silenciou seus berros.
Silêncio por dois segundos. Então, outro berro furioso e animalesco.
O último centauro dos menores. Aquele que Nesso salvou há pouco da espada de Theo. Avançava, mancando com uma das patas, em direção aos escudeiros.
Os soldados, aterrorizados, ergueram seus escudos mas esqueceram de retornar à formação. A defesa estava cheia de buracos.
Theo saltou à frente e tomou o escudo de um dos homens da linha.
— SAIAM!
Eles se dispersaram a mando de seu comandante. O Centauro avançava em galopes pesados que causavam tremores ao duelo, Theo se mantinha firme.
No momento do impacto, Theo se escondeu atrás do escudo e o largou em pé sozinho no chão, então, deu um passo para o lado. O centauro, pego de surpresa, tentou corrigir a trajetória de mergulho da lança.
A criatura girou o torso com uma velocidade surpreendente. A ponta de bronze cortou o ar acima da cabeça de Theo. O comandante rolou sobre a terra batida, esquivou-se do golpe fatal e cravou a ponta da espada na perna equina ferida do inimigo. O centauro soltou um relincho rouco de dor, mas saltou e conseguiu manter a investida.
Alguns metros à frente, fez um contorno largo para não perder a velocidade e retornou para o confronto com o capitão.
Calixto disparou uma flecha. O projétil atingiu o ombro do monstro com precisão. O centauro vacilou e abriu a guarda.
Theo avançou por baixo da linha de ataque e cravou a lâmina na base do pescoço da besta. O sangue negro escorreu pela lâmina e manchou as mãos do guerreiro. A criatura ainda tentou um golpe final com os cascos dianteiros, mas caiu pesadamente sobre o solo. Uma nuvem de poeira se ergueu ao seu redor.
O silêncio reinou por instantes.
— Os centauros estão mortos — Calixto afirmou. Ela soltou a corda do arco e o peso da noite parecia curvar seus ombros.
Theo arfava, apoiando-se no chão com sua espada.
Um dos escudeiros levantou o punho fechado com um grito curto e áspero. Os outros ao redor responderam de forma parecida.
Theo ficou de pé com as mãos nos joelhos, respirando fundo. Olhou para o campo. Licaão e Nesso ainda agarrados.
A batalha entre eles havia se deslocado do ponto inicial; os dois haviam arrastado o combate pela praça, derrubando o que encontravam no caminho, e havia uma trilha de destruição que marcava cada metro daquela luta.
— Ele está conseguindo. — Calixto disse, ao lado de Theo. — Olhe!
Theo olhou.
O lobo negro sangrava. O flanco esquerdo tinha um corte que havia passado pela pelagem até a carne e não havia fechado. Licaão sangrava e seguia lutando com a fúria intacta, mas cada vez com um segundo a menos de impulso, cada vez com meio metro a menos de alcance.
— Ele está perdendo. — Theo murmurou.
— Devagar. — Calixto tensionou o arco. — Mas está.
Mnemósine apareceu na borda do campo.
Ela havia ficado fora da linha de visão desde que as sombras ao redor dela a haviam engolido.
Calixto assumira que tinha fugido de vez, que o discurso de traição de Nesso havia encerrado o interesse dela na noite. Estava errada.
A deusa da memória ficou parada por um momento com os olhos no combate entre Nesso e Licaão. Depois olhou para os centauros mortos. Depois para os soldados que haviam sobrevivido. Os olhos se apertavam e o nariz se franzia mais e mais.
Ela levantou a moeda de Nix.
As sombras que restavam no campo pararam de se mover de forma autônoma. Por um instante ficaram imóveis. Depois começaram a escorrer pelo chão, como piche, e se espalhar pelo mar de corpos.
Ao mesmo tempo, dos cadáveres dos soldados arcadianos caídos ao longo da noite, novas sombras emergiam.
Um soldado recuou dois passos involuntários. Outro baixou a lança. Havia rostos naquelas sombras; distorcidos, mórbidos, mas com a sugestão suficiente para que quem havia lutado ao lado daqueles homens pudesse identificar.
— Não olhem para os rostos! — Calixto gritou. — Não são eles! São apenas sombras com a forma deles! Não olhem!

Funcionou para alguns. Para outros…
As sombras avançaram e a linha cedeu aos poucos.
Foi quando o velho Lycomedes ressurgiu como uma fênix das sombras. Empunhava um escudo que parecia pesar mais que ele próprio, no qual havia amarrado inúmeras daquelas flores que trouxera mais cedo.
Escondido atrás da proteção, ele avançou contra as linhas inimigas e bradou.
— TOMEM ISTO!!
Os outros arregalaram os olhos e assistiram afoitos. Temiam o que aconteceria quando Lycomedes fosse pego de surpresa e ultrapasse as sombras sem conseguir acertá-las. Alguns soldados avançaram para tentar ajudá-lo, mas ele já estava muito à frente.
As sombras ergueram suas armas e cercaram o velho. Tudo parecia perdido.
Foi quando tudo virou de cabeça para baixo.
Lycomedes atingiu uma das sombras com o escudo forrado de flores luminescentes e, para a surpresa de todos, a derrubou. Sua investida continuou e lançou ao chão algumas outras sombras que, pela primeira vez na noite, mostraram algum nível de reação tátil.
O velho avançou contra a linha de inimigos sem dar tempo para que o acertassem, deu a volta e retornou à linha de seus próprios soldados.
Calixto o segurou pelo ombro com força e gritou:
— Velho louco! Quer morrer? — Estava dividida entre processar o que havia visto e repreendê-lo. — Quando descobriu que a fraqueza deles eram as flores da lua?
Lycomedes olhou de volta sobre o ombro para ela com um sorriso nervoso.
— Agora mesmo.
Calixto rangeu os dentes, mas o soltou.
— Theo. — Calixto disse.
— Eu sei. — Ele já estava se movendo para o centro da linha. — Lycomedes! As flores!
O velho largou o escudo que segurava e cruzou as linhas aliadas com o que restava na bolsa. Ele priorizou as posições mais expostas da linha.
— Ponham nas armas! — Theo gritou para os soldados quando as flores chegaram nas mãos deles. — Não guardem! Ponham nas lâminas, nos escudos, onde couber!
— As flores funcionam contra elas? — Um escudeiro perguntou com a urgência de quem está a segundos de precisar da resposta.
— Funcionam. — Calixto respondeu. — Agora faça o que mandaram.
O escudeiro esfregou a flor na lâmina da espada. O brilho azul transferiu para o metal de forma tênue, mais sugestão do que luz real. Ele avançou sobre a sombra mais próxima. A lâmina entrou e desta vez a sombra não se reorganizou — ela recuou, se contraiu, perdeu a forma e não a recuperou.
— FUNCIONA! — Ele gritou.
— Eu acabei de dizer isso. — Calixto respondeu.
O efeito na linha foi imediato. Uma mudança de postura, um avanço nos ombros, uma firmeza nos pés que estave ausente a noite inteira.
Lycomedes distribuiu as flores restantes e ficou de pé na retaguarda com a sacola vazia.
— É o que temos. — disse para Calixto. — Quando acabar, não há mais.
— Então que ninguém desperdice. — Calixto já havia esfregado uma flor na ponta de cada flecha que lhe restavam. — Lycomedes. Fica atrás da linha. Não fica perto do centro.
— Estou bem onde…
— Lycomedes.
O administrador olhou para ela. Depois para o campo e assentiu.
Calixto voltou os olhos para Mnemósine, ainda na borda do campo com a moeda erguida e o foco de quem conduz uma orquestra. Depois para o combate de Licaão e Nesso, que havia se deslocado mais dez metros para a esquerda e deixado mais oito metros de destruição atrás de si.
— Theo. — Ela chamou.
— Estou vendo. — Theo havia chegado ao centro da linha e a voz vinha de lá. — Uma coisa de cada vez. As sombras primeiro.
A batalha continuou.

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