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    19 de julho de 2024, sexta-feira.

    — Isso está delicioso, Victor! 

    Aki exclamou, muito empolgada. Talvez fosse graças ao efeito do álcool também. 

    A garota era conhecida pelos amigos por não ser necessariamente muito tolerante ao álcool, por isso sempre bebia pouco. Porém, há pouco estavam no evento que o chefe Akashi organizou e, logo em seguida, passaram num bar com alguns amigos que quiseram comemorar ainda mais. Nos dois cenários, beberam. 

    Por fim, quando finalmente o casal chegou em casa, devido algumas circunstâncias, Victor e Aki tiveram a brilhante — ou talvez nem tanto assim — ideia de beberem um hidromel novo que finalmente havia chegado para eles. 

    Era uma edição limitada, que eles encomendaram pela internet e havia chegado naquele dia em específico. Aki, particularmente, estava muito ansiosa para experimentá-lo. 

    — Não sei se é uma boa ideia… — Victor ponderou, porém, acabou caindo na tentação também. 

    — Está delicioso mesmo. — respondeu, levantando a taça e analisando o líquido âmbar-escuro contra a luz. 

    — Vamos beber mais uma rodada? 

    — Não. Tá doida? — Victor respondeu instintivamente, com um sorriso de deboche. — Já extrapolamos a nossa cota mensal de álcool nas últimas seis horas. 

    — Por favor, Victor… só mais um pouco. Esse hidromel é muito gostoso e eu estava esperando há muito tempo. 

    Ela fez beicinho, quando agarrou o braço dele com um abraço apertado e o encarou nos olhos. Aquelas duas jóias âmbar brilhantes, implorando por um mimo. O brasileiro não resistiu ao encanto dela naquele momento e cedeu.

    — Tudo bem, tudo bem. Mas só mais um pouco. 

    Enchendo as duas taças em aproximadamente um quarto, Victor os serviu. Ela segurou o seu recipiente com um sorriso largo no rosto. 

    — É a última do dia, não é? — perguntou, quase irônica. 

    — Eu diria que é a última do mês… — Victor riu e ergueu a taça, brindando com ela. 

    O tilintar de vidro ecoou e eles finalizaram a bebedeira. 

    O casal estava encostado no sofá, assistindo a um filme. Era uma comédia romântica e os dois estavam se divertindo com a produção. Aki estava confortavelmente enroscada no corpo de Victor, com as pernas dobradas sobre o estofado. 

    Victor a envolvia com um dos braços, enquanto as costas dela estavam parcialmente sobre o peito dele. A sua cabeça encostada nele. Ela abraçava os braços dele, como se fosse um travesseiro confortável. 

    Estava um dia quente e ambos estavam com pijamas. Aki usava uma camiseta larga de alças finas, de cor branca com uma estampa de um gatinho com olhos grandes e brilhantes. O short era curto e leve, com uma estampa de pegadas de gato. O conjunto de babydoll era verdadeiramente bonito e ficava muito bem nela. 

    Victor estava sem camisa e usava um short, de cor azul escuro. Nenhum dos dois estava usando qualquer acessório, como pulseira, relógio ou brinco.  

    Em determinado momento, o filme estava sendo assistido pelas paredes — claro, metaforicamente falando, afinal, paredes não têm olhos. 

    O casal estava envolvido em um abraço enquanto se beijavam e trocavam carícias. O tempo parecia estar congelado em volta e o mundo dele era ela e o dela era ele. 

    Não havia pressa. Não havia hesitação. O contato íntimo apenas fluía naturalmente, como as águas que percorrem seu curso natural das nascentes até se tornarem um rio imponente. O rio, nesse sentido, era o ápice do contato entre um homem e uma mulher. 

    O filme acabou, mas a paixão ardente ainda queimava no coração do casal. Mais tempo se passou. Eles não tinham noção de quantos minutos haviam se passado. No entanto, estavam deitados no sofá, um do lado do outro, ela aninhada em seu abraço. 

    — Victor… posso te fazer uma pergunta? 

    Aki estava hesitante, mas havia uma questão a incomodando desde que viu uma determinada cena do filme. 

    — Claro que pode. O que é? 

    Um breve silêncio seguiu, com ela escolhendo as palavras certas. Então, buscou o contato visual com ele, olhando fundo em seus olhos escuros. 

    — Como você se sente em relação a isso tudo? 

    Ele arqueou a sobrancelha. 

    — Isso o quê?

    Ela escondeu o rosto, afundando-o no peito dele. 

    — Tudo o que aconteceu com a gente, como aconteceu e onde estamos… o caminho que trilhamos até aqui… o que você acha disso tudo? 

    Ele ainda estava surpreso com a pergunta e pensou por alguns segundos. 

    — Bom, acho que nada mudou desde a última vez que te falei algo do tipo. Eu estava perdido num mundo completamente cinza e você surgiu, insistente e curiosa, com seu jeito extremamente fofo, que foi quebrando toda minha carranca e trazendo cor novamente para minha vida. 

    Ele estudou a reação dela por um momento, antes de continuar.

    — Você me ajudou muito, Aki. Eu sou eternamente grato. E eu quero retribuir isso para você, estando ao seu lado, te amando, te fazendo feliz. Coisas simples assim. 

    A japonesa focou nos olhos do namorado e perguntou: 

    — Eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo em estar com você. Mas, o que eu queria saber, era em relação ao “Victor Pacca” e sobre a Elegance Affairs… como isso afeta a gente… 

    — Está com receio de que eu vá embora? — Victor perguntou, claramente em tom de brincadeira. Apenas queria provocá-la um pouco. 

    Ela pressionou o rosto contra ele. 

    — N-não é isso… — gaguejou. — Eu só… quero saber como você se sente. Quero dizer, ouvir como você se sente. 

    Victor estava sorrindo.

    — Certo. Entendi. Deixa eu pensar em como te explicar… Eu queria fingir que era um tatu e viver num buraco; ou como um coelho e viver numa toca… estava fugindo das minhas responsabilidades, principalmente as que tenho no Brasil. 

    Aki sentiu o coração dele batendo mais forte e mais rápido. Ele estava empolgado ou nervoso? Ela estava tentando decifrar. 

    — Porém, durante o tempo em que você, senhorita Aki, roubou meu coração, eu não tive outra escolha senão abrir meus olhos e abraçar tudo… bom, o ocorrido com a Jeanne foi o estopim para eu cair na real. Toda a viagem e os contratos, inclusive a minha aparição publicamente, tudo isso foi com um único propósito: proteger nosso relacionamento. Porém, é como uma espada de dois gumes, na verdade…

    A japonesa continuou em silêncio, absorvendo as palavras. Ambos não estavam completamente sóbrios e ela estava um pouco letárgica. 

    — Por um lado, fazendo isso, eu protejo nosso relacionamento de pessoas como a Jeanne, porém, ao nos tornar pessoas públicas, também atraímos muitos olhares, sejam eles bons ou ruins. Você sabe, paparazzis e fofocas…

    Isso a garota entendeu, então assentiu. Sua voz escapou, abafada pelo contato com o corpo dele. 

    — Eu tenho um pouco de medo desse mundo tão expositivo… 

    Victor congelou por um instante, sentindo como uma pontada no peito. Na tentativa de proteger o relacionamento, ele acabou assumindo esse risco da exposição. E nem havia conversado sobre as consequências com a parceira. 

    O brasileiro se endireitou no sofá, sentando, enquanto a olhou nos olhos:

    — Acho que fui um pouco egoísta nesse ponto. Você me perdoa?

    — Claro. Mas não há motivos para isso. Eu não estou triste ou brava com você. É só que… tenho medo do que pode acontecer. 

    — Não se preocupe com isso. Eu vou te proteger. É uma promessa. Farei tudo ao meu alcance para sempre te proteger. 

    “Talvez eu esteja sendo prepotente ou petulante… mas esse é meu desejo, de verdade…” 

    Pensou, enquanto a envolveu nos braços. Ainda num aperto, ela sussurrou outra pergunta… dessa vez, Victor sentiu como se uma flecha atravessasse seu peito, espalhando uma sensação fria por todo o corpo. 

    — Victor… eu também queria te perguntar… você pensa em… ter filhos comigo? 

    Essa, na verdade, era a verdadeira pergunta que ela queria fazer. Durante uma cena do filme, o casal principal estava discutindo sobre ter filhos e isso alcançou Aki. Juntando as peças, ela ficou incomodada: “será que ele quer ter filhos comigo depois de tudo que passou?”

    A garota entendia também que isso era uma pergunta delicada de se fazer, tendo em vista tudo que estava envolvido. Por esse motivo, tentou entrar no assunto perguntando sobre como ele se sentia. E, finalmente, conseguiu perguntar. 

    Mas para Victor… de repente, foi como se tudo tivesse ruído ao redor. O rapaz sentiu como se estivesse numa cela de vidro e todas as paredes se quebrassem simultaneamente. Seu abraço ficou um pouco mais frouxo. 

    Em apenas um instante, uma enxurrada de pensamentos, emoções e lembranças passaram por sua mente. 

    “O que é um porto seguro?”; “A Aki é meu porto seguro…”; “A Fernanda e a Ayla já foram meu porto seguro”…

    Imagens em flashes passavam como um filme, enquanto esses pensamentos permeavam. 

    Uma garotinha, recém-nascida, chorando. Alguns diriam que era o som mais puro do mundo. Ao mesmo tempo, uma mulher de pele morena sorria sinceramente, puramente e carinhosamente, enquanto balançava o bebê no colo. 

    Essas cenas travaram e racharam, estilhaçando-se em milhares de pedaços, revelando uma sequência aterrorizante atrás:

    Uma lápide com quatro nomes: Santana Pacca, Aparecida Pacca, Fernanda Pacca, Ayla Pacca. A chuva caia torrencialmente, como um dilúvio querendo afogar o mundo. Victor estava ajoelhado, impossível distinguir suas lágrimas no rosto. 

    Estava trajando uma roupa, todo o conjunto em preto… enquanto João Batista e Breno tentavam o consolar. Matheus também estava desolado, sendo consolado por Carla, Sineide e outras pessoas. 

    Claro, não importa o quanto as pessoas se esforçassem em transmitir suas condolências, ou quão sincero fosse esse sentimento… a dor não diminuiria. O luto era algo terrível, insidioso da pior forma e brutal em alguns casos. 

    A desolação e a reprovação sobre o que o destino reservou era irremediável, angustiante. Um sentimento amargo e indizível. 

    Toda aquela velha dor, escondida no fundo de suas memórias, explodiu como uma bomba, liberando um raio de impacto avassalador, fazendo com que lágrimas caíssem dos olhos de Victor sem nem mesmo ele perceber. Tudo isso foi muito rápido para ele pensar sobre o que estava acontecendo. 

    Não era como se ele não quisesse ter filhos com Aki, contudo, de repente, ele foi inundado por uma emoção que pensava ter superado: o medo de perder. 

    E se seu filho morresse novamente, assim como aconteceu com a pequena Ayla? E se ele perdesse a Aki, assim como perdeu a Fernanda? Aquilo foi devastador. Victor sentiu seu coração sendo triturado e moído. Uma dor silenciosa e extremamente feroz. 

    — A-Aki… — gaguejou, a voz embargada. Passou alguns instantes e nada mais foi dito. 

    — Victor… me desculpa… esqueça o que eu perguntei.

    A garota percebeu, talvez um pouco tarde demais, o quão profundo foi aquele golpe. Ela apertou seu abraço e não disse nada. Não sabia o que dizer. 

    Ele, porém, ainda processava todo aquele furacão emocional, tentando organizar uma frase. 

    — Aki… a resposta é: sim, eu quero ter filhos com você. Quero ficar o resto da minha vida com você. E quero ter uma linda família com você. 

    Aki congelou. Apesar da voz estivesse um pouco difícil de entender, não foi impossível. Ela reprimiu um gemido… talvez angustiante… e continuou ali, com o rosto escondido nele. 

    Victor finalmente conseguiu organizar suas palavras e as disse, enquanto seu queixo estava apoiado na cabeça dela. Suas mãos estavam suadas… e não era pelo calor veranil. 

    — Aki… eu realmente quero muito isso… mas… eu acabei de perceber algo… — sua fala foi entre pausas irregulares. — eu tenho medo… medo de te perder… medo de perder tudo de novo… medo… medo de reviver aqueles momentos… aqueles sentimentos…

    — Victor… — ela tentou dizer algo, mas simplesmente não conseguiu. Um silêncio seguiu, interrompido entre um suspiro longo. 

    — Não se preocupe. Eu tô bem. É só que, parece que algumas cicatrizes doem quando cutucadas, mesmo depois de anos… ou talvez ainda não possa ser chamado de cicatriz… 

    Uma nova onda de pensamentos invadiu sua mente. 

    “Se eu ainda sinto tudo isso, se o passado me atinge tanto, será que estou pronto para dar um próximo passo?”

    “Será que consigo proteger ela?”

    “Será que consigo suportar perder tudo de novo?”

    “Eu sei que consigo e que eu quero estar com ela, mas… e se eu perder de novo?”

    A miríade de sentimentos confusos e ambivalentes o fez se sentir tonto, sua visão ficou turva por um momento.

    — Droga! — praguejou, baixinho. — Aki, me desculpa… eu não sei o que estou dizendo… acho que não estamos numa situação muito boa para esse tipo de conversa… bebemos muito hoje… desculpa, eu não vou conseguir te dizer… 

    Aki ergueu os olhos e colocou o indicador sobre os lábios dele, balançando a cabeça negativamente. 

    — Está tudo bem, Victor. Obrigada por ser essa pessoa que você é. Eu te amo. Vamos dormir… 

    Como se estivesse selando aquele momento, ela o beijou. Um beijo simples, mas com um significado imensurável. 

    Depois que já estavam deitados, Victor dormiu rapidamente. Sua respiração era lenta e controlada. Aki, porém, demorou um pouco mais.

    “Acho que não era o momento certo! Droga, Aki. Você estragou tudo.”

    “Como eu deveria consertar isso? Aliás, eu deveria tentar fazer alguma coisa? Mas que droga. Isso é muito confuso e difícil!”

    Enquanto divagava sobre o ocorrido, lentamente, mas constantemente, seus pensamentos foram sendo tomados pela incompreensão, até que finalmente adormeceu. 

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