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Capítulo 37. Dedos Dourados 15
Ainda com a testa encostada na porta, Benk ouviu um dos guardas comentar:
— Que cheiro é esse? Flores?
A pergunta o fez saltar para trás. Sentiu algo reter seu movimento com um tranco, e depois uma súbita liberação que o fez cair com força de costas no chão. Gritou, mas não ouviu a própria voz.
Recobrou o controle sobre a mente, guardou as hastes metálicas na bolsa, e tateou até encontrar o selo que deixou cair quando se afastou da porta.
A escuridão completa, o frio noturno, obstáculos a superar.
Devo usar o selo de luz? questionou, organizando os pensamentos e constatou: não tem como seguir tateando às cegas.
Dentre suas façanhas experimentais, esse era o que lhe havia dado mais trabalho de confeccionar. Encontrou o cordão identificador certo com a ponta dos dedos, puxou um selo do maço, dobrou a ponta em sua extremidade e o ativou.
Uma fraca luz surgiu, intensa o suficiente para iluminar dois palmos à frente de seu nariz, e nada mais. Torceu para que ela não emanasse para fora do local, mas era exatamente essa a intensidade discreta que desejava. As letras douradas brilhavam.
Os guardas do lado de fora não pareciam ter notado sua invasão. Isso o acalmou profundamente.
Benk reconheceu que havia um curto lance de escadas rente à parede do cômodo. Subiu e, investigando a área, encontrou mais uma porta.
Movido pela economia tática, pressionou o selo silenciador contra a porta e bateu de leve nela. Sem som. Ótimo.
Inseriu na fechadura as hastes com precisão e calma, destrancou-a e, novamente, após atravessá-la, repetiu o movimento, trancando-a.
O prédio era vasto; não podia relaxar e precisava entender exatamente onde estava.
O melhor era seguir em linha reta, caminhando pelo salão e iluminando o chão. Um passo de cada vez, até que encontrou a escada que dava acesso ao andar superior.
Subiu os lances com agilidade. Ali, as janelas ofereciam um pouco mais de contraste, o que o auxiliou a enxergar e entender a disposição dos departamentos. Precisava ser rápido, mas ao mesmo tempo cirúrgico. Investigou as portas, as placas, as mesas, sem mexer no que não era necessário.
Deparou-se com uma sala com portas maiores e estrutura reforçada situada ao lado da parede direcionada para a rua do palácio real, indicando que ali algo importante estava guardado.
Depois de algum tempo, percebeu os sons retornando. O efeito dos selos colados ao corpo estava em seu limite. Isso o fez redobrar o cuidado, mas acreditou que pequenos ruídos não despertariam suspeita. Que o vento e a natureza façam sua parte.
A busca por compreender o prédio durou mais do que imaginou, e por mais pressa que pudesse ter, precisava encontrar a sala dos atendentes e refazer a trilha do procedimento de requisição de abertura de conta. Era melhor começar da entrada.
Desceu novamente ao térreo e investigou, com mais dificuldade, o local, principalmente devido à ausência de luz outra senão a do selo que portava. E mesmo o selo, aos poucos, desvaneceu.
Ativou outro e, finalmente, se deparou com o átrio de entrada e a recepção. Posto de trabalho do jovem Olgap.
Girou e refez os passos que um cliente percorreria. Em sua mente os vultos das pessoas que trabalhavam na Casa da Moeda emulavam sua rotina diária.
Após destrancar mais uma porta, encontrou o local de trabalho de Helga, Corfet, Tondor e Korg, cada qual responsável por uma mesa e pelos arquivos correspondentes. O livro de controle e assinaturas devia estar em algum lugar.
Benk sentou-se na cadeira, vasculhou com delicadeza a mesa, investigou as gavetas e encontrou o que procurava.
No livro estavam registradas, por data, as requisições de entrada dos clientes, com assinaturas em tinta ou gotas de sangue adequadamente carimbadas.
Na mesma gaveta do livro estava o carimbo de registro, um pequeno instrumento de madeira com uma diminuta gema negra em sua superfície de catalogação.
Bem, Corfet, quem é o seu cliente do dia? Benk folheou o livro e encontrou as páginas adequadamente preenchidas. Nenhum espaço em branco.
A cada turno eram despachadas as entradas, e agora, no quarto dia do turno, o escriba tinha que inserir a assinatura dele e de Pelk, junto com as requisições. No entanto, precisava de um dia em que um espaço vago se apresentasse.
Tondor, sua segunda escolha, foi fortuita.
O fechamento do primeiro dia do turno ofereceu a Benk a oportunidade.
Preencheu a entrada e a requisição de conta, remexeu em sua bolsa à procura da gota de sangue de Pelk, deixou a marca na folha e pressionou com o carimbo. Um arco de validação moldou o sangue, oficializando a assinatura. Prosseguiu então, com habilidade, no ato de falsificação da caligrafia do burocrata do qual emprestava a função. Ser escriba tem suas vantagens; o controle fino da escrita de Benk, desenvolvido ao longo desses árduos anos de prestação de serviços, lhe garantiu consequências secundárias.
Repetiu o procedimento para registrar-se e torceu para que nada desse errado, embora, sinceramente, o seu trabalho de falsificação estivesse orgulhosamente impecável.
— Agradeço pela tinta e pena emprestadas, amigo — sussurrou o escriba satisfeito.
Agora ele e Pelk estavam oficialmente registrados como Ben e Pel Bolphgor, filhos bastardos, ou assim autointitulados, membros da vasta prole de Bontek Bolphgor, príncipe de Norgta.
Próximo passo: inserir a ficha de requisição ativada no arquivo de despacho.
Benk deduziu, por intuição, que a grande porta do primeiro andar abrigava o orbe de ativação do selo identificador.
Subiu de volta ao primeiro andar da Casa da Moeda, já sem dificuldade em se localizar dentro do prédio. A fechadura era complexa. Com o selo iluminador em sua tênue luz, somado ao silenciador, ainda em funcionamento, Benk utilizou toda sua capacidade de manuseio das hastes metálicas, mas para sua frustração, a fechadura não cedeu.
Sentou-se no chão e meditou por um instante, observando com atenção a complexa estrutura do cilindro elaborado em labirinto.
— A chave deve ser espiralada! Com esses instrumentos não vai dar — sussurrou ele, com desânimo na voz.
Puxou um selo de abertura de trincos, observou a fechadura e comparou com as runas. Por experiência, constatou com agonia, mesmo sem testá-lo: isso não vai dar certo.
Quando elaboraram o plano de invasão, ele e Pelk discutiram as diversas possibilidades, e debateram principalmente o que poderia dar completamente errado.
Uma delas era a sugestão mais ambiciosa, à qual Benk odiaria ter de recorrer: elaborar um selo novo durante a invasão para conseguir lidar com um problema intransponível, no caso, uma maldita porta.
O problema era como ativar um selo sem um mago e um conversor de mana.
A ousada ideia de Pelk ecoou em sua mente: a proposta era complexa; o trabalho foi árduo, mas o resultado, inquestionável.
O selo de recarga fora feito especialmente para transpor a mana de um selo para outro, ou mesmo ativar um selo recém-elaborado.
Benk prostrou-se no chão diante do desafio, puxou de sua bolsa um pequeno frasco da agora escassa tinta dourada e sua pena companheira.
Em um selo em branco, precisava forjar, sem errar, uma fórmula nova, algo que conseguisse superar o obstáculo do tambor da fechadura.
— Se essa porcaria não for o salão do orbe… — sibilou ele, quebrando a cabeça. Quais palavras e runas, qual a força e intensidade do giro? Será que o interior do cilindro é como imagino?
A concentração sugou sua consciência.
Ó matéria que permanece e que o caminho impede, conduza por sua face e penetre por seu âmago o movimento que uma vez moldou a flexibilidade em impasse metálico. Seja dócil ao toque e justa no descanso que permite o giro de sua realidade. Faça do ângulo espiral que recua uma dádiva que repousa a trava em relaxamento e abertura. Sua natureza é dupla, mas a face preenchida pelo amparo que a completa lhe permite sagrar a função que lhe compete, faça-se livre em delicadeza amparada por seu lar, e repouse.
Benk contornou os símbolos numéricos para estabilizar a intensidade do comando e desenhou a runa de ativação e a runa de conexão de mana, especialmente forjada para receber o conteúdo de um selo de recarga.
Piscou fundo, sentindo a vista levemente turva, e permitiu aos dedos um descanso da firmeza a eles demandada, o que o fez quase derrubar a pena que, com um movimento súbito, retornou ao lugar. A aposta estava feita. Puxou um dos selos de recarga do maço, observou os contornos e as linhas douradas, mas, ao contrário de Pelk, não enxergava a mana que ali estava concentrada.
Uniu as runas do selo de recarga e do recém-elaborado selo de abertura. De acordo com os últimos testes, deveria contar até sete em compasso; esse era o tempo médio para que a mana fluísse de um para o outro sem desperdício. Essa era a orientação de seu melhor amigo.
O selo de recarga conseguia preencher até três selos com uma única carga.
Benk dobrou a ponta do papel, ativou a transferência e contou baixinho.
— Um e dois e três e quatro e cinco e seis e sete.
Imediatamente desdobrou a ativação e quebrou a conexão com o selo de abertura. Chegara o momento de provar seu valor como escriba e mestre das runas.
Levantou-se devagar, guardou as ferramentas e avançou em direção à porta. Posicionou e pressionou o selo de abertura e, por precaução, também o selo silenciador. Ativou primeiro o segundo e, posteriormente, o primeiro, prendendo a respiração.
Não ouviu absolutamente nada, como já esperava. Afastou os selos e analisou a fechadura, mal conseguindo enxergá-la. Inclinou o trinco da porta e puxou; ela não abriu. Respirou fundo e a empurrou. E, nesse instante, o alívio dissipou a tensão de todo o seu corpo. A porta estava aberta.

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