Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    Quando alguém perde um ente querido, algumas pessoas tiram um tempo para si, deixam que ele passe devagar e permitem que a dor encontre seu lugar dentro delas. Hrafn, claro, não estava entre elas. Indiferente ao seu sofrimento, a rotina nas docas seguiu exatamente como antes. Ou talvez até pior.

    Carregar sal era um trabalho ingrato. Mesmo através do tecido grosso dos sacos, os grãos finos encontravam seu caminho. Eles descamam e ressecam a pele, abrem pequenas fissuras nela e então mordem como brasas. Como se isso não bastasse, a chuva também parecia ter fixado residência permanente na cidade, transformando o trabalho nos navios em um exercício constante de equilíbrio.

    Hrafn já tinha perdido a conta de quantos hematomas havia acumulado naquele período. Às vezes, tinha que comprar alguma pomada barata no distrito comercial. Não era exatamente um bom tratamento, mas funcionava o bastante para deixá-lo seguir em frente no dia seguinte.

    “Vamos! Movam esse sal, seus bastardos do caralho!”, o empregador das docas gritou. “Quero tudo em ordem antes que a Estrela se esconda além do Véu!”

    Esse merda.

    “Sim, senhor”, Hrafn respondeu.

    Ele não gostava do sujeito, mas ele pagava o salário em dia, e orgulho era um luxo reservado para pessoas melhores que ele. Então, trabalhou rápido para encerrar a miséria do dia antes de seguir para o distrito comercial, indo até a botica familiar de sempre.

    “Como você está hoje, Hrafn?”, o gordo lojista perguntou quando o viu entrar, abrindo um sorriso largo demais para ser confiável.

    “O de sempre”, ele respondeu, deixando algumas moedas sobre o balcão enquanto o boticário pegava um pequeno pote de pomada.

    “Taciturno como sempre, hm?”, disse o gordo, pousando o pote.

    Hrafn empurrou as moedas um pouco mais para perto dele, e o homem as apanhou com a velocidade de um mercador experiente. Então, puxou a pomada de volta antes que o cliente pudesse pôr a mão nela.

    “Você ouviu a boa notícia?”

    O jovem soltou um suspiro cansado, e o homem estalou a língua em diversão. “A Hird do Sal adiantou a seleção. Os Voroirs vão chegar em um mês.” ele concluiu, mordendo uma das moedas e, aparentemente satisfeito com o resultado, empurrou o pequeno pote para frente de novo.

    Hrafn fez um breve aceno de agradecimento antes de pegar o pote e deixar a loja.

    * * *

    Na virada do mês, o inverno deixou de parecer uma promessa e começou a trabalhar com as próprias mãos.

    O frio mordia seu rosto e escorria pelas costuras de suas roupas enquanto ele caminhava pelas ruas em direção a Salstein.  As portas da catedral estavam abertas o bastante para deixar o calor e o incenso escaparem ao chegar, e quando ele as cruzou, o frio recuou. 

    Lá dentro o salão já estava cheio, com pequenos grupos espalhados pelo lugar em sussurros reverentes, como se ninguém ali quisesse descobrir o som da própria voz sob aquele teto. Onde tudo parecia esculpido de uma única vontade, sal endurecido em aço e branco como neve. Ao longo das paredes, murais contavam glórias que ele conhecia mais por repetição do que por fé e, à frente, no fundo, uma janela monumental ocupava a parede inteira e deixava entrar a luz da Estrela em longas faixas, banhando os presentes nela.

    A cerimônia parecia exatamente igual à última e a todas as anteriores. Não que ele viesse nelas, ao menos não quando podia evitar. Nunca tinha visto muito sentido em vir em dias comuns, embora mentisse sempre que alguém perguntava. As aparências eram uma forma barata de autopreservação, e Hrafn era muito pobre para desprezar coisas baratas. Ainda assim, naquela manhã, ele teve que vir. Nanna deixou claro desde cedo que os Voroirs saberiam se não viesse.

    Comparecer ou não comparecer também era um julgamento. Hrafn então sentiu mãos em seus ombros antes de ver o dono delas “A Estrela vê”, murmurou uma voz. ele virou-se e encontrou um Skjald ao seu lado. 

    “O… Véu nos guarda”, ele respondeu, de forma desajeitada.

    “O Sal abre o caminho”, completou o clérigo, com uma das mãos permanecendo em seu ombro e o braço da outra indicando que ele deveria andar.

    Hrafn então caminhou até a área reservada aos jovens que iriam enfrentar o julgamento naquele dia, ficando na frente e entre os primeiros. Depois, ele virou a cabeça para olhar os outros, reparando muitas coisas em seus olhos, como esperança, alguma ambição e sonhos de glória.

    Os idiotas.

    Voltou a olhar para a frente, observando os degraus da plataforma cerimonial, que pareciam largos demais para serem confortáveis, como se tivessem sido feitos para diminuir quem os subisse. E, acima, o teto abobadado se erguia a uma altura absurda, conforme as colunas desciam grossas como carvalhos, cobertas de relevos que corriam pela pedra pálida até morrerem perto do altar, onde tudo parecia conduzir o olhar a um único ponto.

    Entre dois obeliscos escuros, a Satasteinn se erguia antiga. A estela de pedra sagrada era maior do que ele se lembrava, mas as inscrições espalhadas por sua superfície ainda não significavam nada para seus olhos, apesar de darem a estranha impressão de significarem coisas demais.

    Perto dela, vários voroirs esperavam, imóveis e pacientes dentro das suas armaduras. O Skjald que guiara Hrafn aproximou-se de um deles e sussurrou algo. O outro, por sua vez, deu um passo à frente, e o som das suas botas batendo na pedra matou todo o murmúrio. O Voroir olhou primeiro para os espectadores, depois para os jovens diante dele e, quando seu olhar passou sobre Hrafn, ele sentiu uma breve pressão na base do pescoço, como se uma lâmina fria tivesse sido colocada ali por um momento.

    “Comecem”, disse ele, sem discursos, ou sermões.

    Hrafn gostou disso, pensou que poderiam muito bem colocar o homem em todas as cerimônias dali em diante; no lugar dos clérigos. Ele então se adiantou, passando na frente de todos e sendo o primeiro a subir. Queria terminar logo para ir embora, mas o primeiro passo saiu pior do que ele gostaria sob aquela pressão, o segundo tinha um pouco mais de firmeza, e ele ficou ‘teimoso’ no terceiro, subindo mais rápido até finalmente alcançar a plataforma.

    “Mão”, disse o mesmo Skjald de antes.

    Hrafn estendeu a palma para o clérigo, que a cortou de forma rápida e sem piedade antes de apertá-la com força. O sangue caiu sobre o chão da plataforma e, só então, ele percebeu as linhas escritas ao redor da estela. Ele esperava ver o vermelho se reunir nos sulcos, mas a Satasteinn o bebeu. A pedra puxou o sangue para si com avidez, o sal estalou e as letras ganharam vida.

    No começo, foi apenas um brilho pálido. Depois, se espalhou da estela como tinta correndo, preenchendo inscrição após inscrição. O ar ao redor dela mudou aos poucos, com um cheiro limpo e mineral surgindo conforme murmúrios cruzaram o salão.

    Merda.

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