Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!
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Capítulo 3. Sigrid. A Estrada Adiante
Sigrid mantinha as mãos entrelaçadas com tanta força que seus dedos já doíam. Quando o Skjald abriu o corte na palma dele, ela esperou por um grito que não veio. Hrafn apenas enrijeceu; um breve espasmo subiu por seus ombros largos, então o sangue tocou a pedra, e a estela respondeu. A luz emergiu devagar, nasceu fraca e começou a escorrer pelas fendas da pedra como se despertasse de um sono muito antigo, com uma beleza verde e escura.
Aquilo a atingiu com força. Não o milagre em si. Ela já o tinha visto antes, embora apenas algumas vezes, mas o que a abalou foi quem estava sob o milagre. Era Hrafn… o Hrafn das docas e das piadas ruins contadas na hora errada, com os ombros sempre um pouco tensos.
“Um fylkirn!”, anunciou o skjald, erguendo o braço dele. “Sangue novo para a Hird!”, comemorou, conforme as palavras atingiam as altas abóbadas e voltavam maiores. Ao redor, os presentes responderam com o decoro esperado. Cabeças baixas com mãos erguidas em preces e reverências.
Sigrid observou Hrafn conforme se lembrava de outras cerimônias, onde já tinha visto pessoas chorarem, rirem e caírem de joelhos, ou até dançar ali mesmo. Mas ele não fez nada disso, apenas assentiu antes de ser conduzido escada abaixo com movimentos rígidos.
Por um instante, ela não viu o homem descendo do altar, mas dois pirralhos correndo pelas docas, tomando graveto por espada, em vassouras roubadas como montarias, com sal nos calçados e vento no rosto, gritando um para o outro que eram voroirs, ou qualquer coisa grandiosa demais para caber dentro da infância.
Naquela época, elevação era coisa de Saga, mas agora… Quando o verei de novo?
Daquele momento em diante, a vida de uma pessoa deixava de pertencer só a ela. Enquanto ele fosse Fylkirn, a Hird iria decidir seu destino, e a recusa não existia como escolha. Os membros mais velhos e perdulários da família às vezes bebiam demais, ganhando coragem para contar as histórias que circulavam pelas tavernas mais imundas e escuras, onde os ouvidos dos Skjalds estavam ausentes. Alguns falavam de servidão eterna, outros de destinos piores. Ainda assim, quase ninguém tentava fugir. Ser escolhido ainda era glória, e era o mesmo para ela.
“Próxima”, chamou o hersir.
Sigrid tomou coragem e foi para frente, subindo os degraus e tentando parecer mais firme do que se sentia, conforme seu coração obedecia e os pés nem tanto.
“Mão,” disse o Skjald.
O sangue dela caiu sobre as runas ao redor da pedra um momento depois. Por um segundo nada aconteceu, com o segundo seguinte parecendo longo demais.
Por favor.
Então as inscrições pulsaram e a luz nasceu de novo, correndo pela superfície e subindo em veias luminosas. “Uma fylkirn!”, anunciou o skjald.
* * *
Os dias que se seguiram foram cheios demais para caberem bem dentro da memória. Houve abraços, lágrimas, olhos demorando em seu rosto como se quisessem gravá-lo antes que a estrada a levasse embora. O orgulho e a apreensão caminhavam juntos pela casa. Quando sua mãe falava pouco, era orgulho. Quando alisava as mesmas dobras repetidas vezes, era apreensão.
Na manhã da partida, Sigrid a encontrou ao lado da cama, terminando de apertar as tiras de sua bolsa. “Hrafn também foi elevado,” disse sua mãe, sem olhar para ela. “Você o conhece desde pequena.”
Sigrid assentiu enquanto a menção ao nome dele aquecia algo em seu peito e apertava outra coisa.
“A filha do açougueiro, Thora, também… ela é…” As mãos de sua mãe pararam sobre o tecido. “Complicada, mas confiável,” disse. E Sigrid assentiu em resposta.
“Mantenha-se segura,” concluiu, com os olhos úmidos.
Sigrid sentiu que o peso das palavras era maior do que o da bagagem. Até então, tudo ainda parecia meio um sonho, como se a cerimônia tivesse acontecido com outra pessoa e a despedida pertencesse a outra casa. Mas era ela, sua bolsa e sua mãe tentando não lhe pedir que ficasse. “Eu vou,” disse ela, tomando as mãos dela. “E estarei de volta antes que tenha tempo de sentir minha falta.”
Sua mãe assentiu, ergueu a ponta do xale sobre os ombros da filha, alisou o tecido uma vez, então recuou, e Sigrid saiu antes que as duas pudessem piorar aquilo.
Lá fora, a rua já estava viva de despedidas. Algumas carroças rangiam sobre a pedra úmida, homens e mães abraçavam filhos com força contida, e os clérigos cruzavam o movimento, guiando os recém-elevados como pastores. Nas bordas, camponeses se apressavam com ferramentas e animais, arrancando do dia tudo o que ainda podiam antes que a Estrela se recolhesse.
Sigrid montou no cavalo que lhe fora designado e lançou um último olhar para as muralhas. Os três anéis de pedra cercavam a cidade desde antes de sua avó nascer. Cruzar aquele portão sempre despertava nela uma sensação difícil de nomear, como se estivesse deixando algo para trás. Além dele, não havia ruas estreitas, nem telhados familiares ou o conforto de saber onde o mundo acabava. Havia só a estrada de pedra de sal, os campos abertos e a linha escura das florestas. Tudo de repente pareceu amplo demais.
Ela procurou Hrafn entre as fileiras e o encontrou algumas posições à frente. Apertou os joelhos no cavalo até chegar ao lado dele, que estava em silêncio, olhando para a estrada como se tentasse ver algo muito distante, talvez o futuro, ou talvez apenas tentasse não olhar para trás. “Então é isso,” ela disse.
Ele virou um pouco a cabeça. “É.”
Então a caravana começou a se mover. O som de rodas e metal preencheu a manhã, conforme atrás deles a cidade ficava menor a cada passo. Sigrid sentiu um aperto no estômago, mas ele não veio sozinho. Havia outra coisa nela também: esperança e coragem, talvez até ignorância. Fossem o que fossem, vieram com ela como sempre vinham. Hrafn estava ali ao seu lado também, e isso, pensou Sigrid, já fazia o mundo parecer um pouco menos vasto.

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