Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    Ele sentiu algo no peito, algo quente e reconfortante. Hrafn abriu os olhos devagar e encontrou a fonte daquele conforto; um homem não muito mais velho que ele ajoelhado ao seu lado, ambas as mãos abertas sobre seu peito. Um brilho branco e opaco vazava de seus dedos e se derramava pela carne de Hrafn em ondas suaves, correndo por dentro de suas costelas.

    Quando percebeu que Hrafn havia despertado, o homem recuou as mãos e assentiu. Ele assentiu de volta, e o homem permaneceu ali, levemente inclinado, com uma expressão que parecia pena. Hrafn não deu muita atenção, diziam que os abençoados de branco geralmente tinham corações moles. Fazia sentido, era preciso ter um para escolher sentir a dor dos outros.

    Ele ergueu a mão esquerda e passou os dedos pelo cabelo, jogando-o para trás. Então, levou a direita até a cintura, procurando o conforto do punho frio da espada, mas ela não estava ali. Nem a espada, a mão e nem braço algum. A dor subiu pela nuca e desceu por sua espinha como metal aquecido, espalhando-se pelo vazio onde o membro deveria estar. O grito rasgou sua garganta antes que pudesse contê-lo, e a lembrança voltou. O primeiro caído morto pelo Hersir, a linha firme dos voroirs, um cheiro de sangue, a ruptura.

    E o preço.

    Sim. Ele teve de escolher entre ser empalado pelo peito ou ser empalado pelo ombro. Mas, com voroirs por perto, pensou que ainda pudesse manter o membro. Que algum curandeiro abençoado o costuraria de volta à carne, ou a Hird arrancaria algum milagre das costelas do Véu e o devolveria inteiro, se ele tivesse sorte o bastante.

    Mas, desde quando eu já sou o maldito bastante de sorte?

    “Não tente mover o braço ausente, irmão,” disse o voroir ao seu lado. “Sua mente ainda não compreende a perda e, sempre que você tentar movê-lo, você sentirá agonia.’’ ele continuou. ‘’Mas, com treino e com o tempo, você será capaz de se acostumar com isso.”

    Ah, ótimo. Muito simples, não é, imbecil? Eu só preciso me acostumar com isso.

    “Vou manter isso em mente,” respondeu Hrafn.

    Aquele tipo de bondade sempre parecerá mais um consolo para quem a oferecia do que para quem a recebia. Ainda assim, ele engoliu a irritação. O homem era um voroir e, dado o que ele era, talvez um dia pudesse acabar ainda mais miserável que o próprio Hrafn. 

    Ele então se deitou de novo e respirou fundo; o ar cheirava a terra, tecido encharcado e sangue. Conforme cada impulso de sua mente em direção ao braço ausente trazia uma nova agonia, como se o corpo se recusasse a aceitar a perda. Tentou pensar em outra coisa, olhar pelo lado bom sempre fora uma de suas melhores habilidades ou, pelo menos, fingir que era. Algumas coisas logo lhe vieram à mente. Ele não precisaria mais olhar para a maldita cara do empregador das docas. Agora era um nobre, de um braço só, mas ainda assim um nobre. E havia também suas novas capacidades.

    Aquilo quase lhe arrancou um sorriso. Quase, porque até sorrir doía. “Não se sinta tão mal,” disse o jovem voroir, aparentemente entendendo algo errado. “Há muito que um voroir ainda pode alcançar com apenas um membro. A cor inclina o megin, mas não define tudo. Vi irmãos lutarem com uma mão, com um olho. Já vi—”

    O homem começou a listar tudo que alguém ainda podia fazer sem um braço. Hrafn o deixou falar sozinho e afundou de novo nas lembranças da batalha. Ter sentido tanto ainda o perturbava, mas também o fascinava, conforme ele se lembrava do estado em que estava. Coisas como o cheiro de sangue, que já não parecia que o tinha sentido apenas pelas narinas. Nem sequer parecia um cheiro, era como se o próprio sangue tivesse corrido sobre ele.

    A sensação retornou com o pensamento e, mesmo ainda dentro da tenda, ele pôde sentir o acampamento despertado ao seu redor. Coberturas improvisadas de lona escura tremiam ao vento. Alguns homens feridos gemiam baixo, e o vento não estava apenas soprando contra sua pele; vinha de muitos lados, de muitos lugares, em formas demais. Havia o sopro alto nas copas das árvores, o pequeno movimento rente ao chão, escorrendo entre raízes enterradas e pedras frias. Aquilo lhe trouxe uma lembrança de um dos contos de Saga.

    A Ruína Verde… 

    Ele olhou além do curandeiro branco e sentiu, a poucos passos, uma faixa de terra revolvida onde sangue escuro havia sido absorvido. Havia ali uma voracidade silenciosa que ele não saberia nomear, e a parte mais perturbadora era que aquilo não lhe parecia monstruoso. Apenas antigo e natural, como se a floresta, a terra e o sangue mantivessem entre si uma conversa antiga demais para que os homens a chamassem de cruel. Um arrepio percorreu sua nuca, quase como se, por um momento, ele também fizesse parte disso, mas a sensação foi embora tão rápido quanto veio.

    “Você está sentindo alguma coisa?” perguntou o voroir branco.

    “Fome,” mentiu.

    O outro soltou uma pequena risada, talvez aliviado por ouvir algo comum. “Isso é bom. Significa que o corpo quer continuar.”

    Hrafn acenou e olhou pela abertura da tenda, em direção à linha escura das árvores onde a floresta começava. Sob a luz, os troncos pareciam colunas antigas em um salão sem teto, e quem sabe fosse exatamente isso que fossem. Talvez, como um Verde, seu sentido de tempo tivesse se aproximado do deles por um breve instante. Não o tempo dos homens, que era contado em respirações, medos e pequenas urgências, mas o tempo daquilo que permanece imóvel por milênios até, enquanto tudo ao redor nasce e apodrece. O pensamento deveria tê-lo assustado mais; em vez disso, trouxe um tipo de conforto torto.

    Moveu o ombro levemente por reflexo, e a dor fantasma voltou, arrancando o ar dele. Fechou os olhos e esperou a onda passar. A mandíbula cerrada com tanta força que pensou que pudesse rachar um dente. Quando a agonia recuou, o que restou foi apenas o cansaço e aquela nova percepção, profunda e à espreita sob a pele.

    Um braço ainda era um preço alto, mas começava a parecer menos absurdo.

    Obrigado por ler, caro leitor.

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