Capítulo 10 – Hrafn – Café é bom
Hrafn chegou à barraca do hersir sentindo o corpo inteiro latejar.
Leif, tinham lhe dito.
Um homem gentil, pensou. Gentil o bastante para mandar buscá-lo todo quebrado só para conversar. Embora, para ser justo, o próprio hersir também parecesse ter sido montado às pressas a partir do que sobrara.
Grim estava ao seu lado, quieto pela primeira vez desde que Hrafn o conhecera. O branco falava demais em condições normais, sempre com cara de quem entendia mais do que o resto e menos do que imaginava. Tinha expressão demais no rosto. Quase caricata. Daria um bom ator. Um bom bardo, até.
Agora, porém, estava calado.
Na presença de Leif, Grim parecia alguém que segurava as entranhas havia uma semana. Tenso. Meio trêmulo.
Hrafn até o entendia.
Ele próprio também sentia o peso do hersir, embora de outro jeito. Leif tinha uma presença própria. Não precisava fazer nada para preencher a barraca inteira com ela.
“Vocês dois podem sair”, disse Leif, depois de observar Grim por um momento.
Já estava sentado outra vez, de volta à cadeira improvisada atrás da mesa baixa. Metade do cabelo ruivo desaparecera do lado do rosto onde agora lhe faltava um olho útil.
“s-sim, elevado hersir”, respondeu Grim, contente demais para disfarçar.
Bom para ele.
Hrafn não fora muito com a cara de Grim desde o começo. Nunca ia muito com a cara dos religiosos, no geral. Mas o branco ao menos tinha algum senso bom de humor, e isso contava a favor dele.
O outro voroir limitou-se a assentir e saiu atrás de Grim, velho demais ou cansado demais para gastar palavras com aquilo.
Então restaram os dois.
Ficaram se medindo por um instante.
Leif era uma bagunça. A armadura, ou o que restava dela, fora emendada com peças tortas e pontos de metal refeitos às pressas, provavelmente por algum vermelho.
Aquilo não o deixava menos intimidador.
Se alguma coisa, o deixava mais.
O único olho bom do hersir — castanho, calmo, atento demais — descansou sobre Hrafn como se já o tivesse aberto e lido por dentro.
“Pergunte”, disse Leif por fim.
Sabia que Hrafn tinha dúvidas. Seria estranho se não tivesse.
“Por que me chamou?”, perguntou Hrafn.
Não via motivo para facilitar a vida do hersir. Não sabia o que o homem queria e não tinha a menor intenção de lhe dar coisa alguma além do mínimo.
“Como fez?”, perguntou Leif de volta.
Seco. Breve. Direto.
Hrafn já sabia do que se tratava.
Queria saber como ele sobrevivera. Afinal, fora o próprio hersir quem o arrancara da morte depois do golpe.
“Fiz o quê?”, mentiu Hrafn, mexendo-se na cadeira com um desconforto pequeno, mais de cautela do que de dor.
Não tinha vontade alguma de dizer ao homem que já tocara algo que, pelo que entendia, nem devia tocar ainda. Estava torcendo para que Leif estivesse só tentando, chutando no escuro.
Não estava.
A pergunta matou o clima. Leif não repetiu. Não insistiu. Só ficou olhando.
Foi pior assim.
O silêncio durou o bastante para se tornar ofensivo, e Hrafn acabou cedendo antes que a conversa apodrecesse inteira.
“As coisas ficaram mais lentas”, disse. “Aí eu consegui me defender melhor.”
“Bom”, respondeu Leif.
Fez uma pausa curta.
“Mas você não é amarelo.”
Hrafn entendeu.
Bençãos da mente — percepção, precisão, foco, esse tipo de coisa — costumavam vir aos amarelos, quase sempre. Em formas diferentes, mas vinham. Não que outros não pudessem alcançar algo parecido. Podiam. Mas havia diferença entre usar um braço seu e costurar em si o braço rígido de outra criatura, torcendo para ele obedecer.
“Eu também não sei”, mentiu outra vez.
Mentiu porque mentir era melhor do que explicar. Havia mais a temer nos homens do que em boa parte do que havia solto por ai. E, se já estava sendo arrastado por esse caminho, entregaria o mínimo.
“Isso basta”, disse Leif.
Então apontou com o queixo para a chaleira e as canecas sobre a mesa.
“Café?”
“Sim. Aceito.”
Vergonha nunca fora sentimento forte nele, e café era um luxo bom demais para ser recusado.
Leif serviu os dois.
Beberam em silêncio por um tempo. O cheiro era forte e limpo. Havia açúcar também. Pouco, mas o bastante.
Sujeito rico.
Hrafn tomou outro gole e concluiu que começava a gostar um pouco mais do hersir. Não o bastante para confiar nele. Só o bastante para ouvi-lo melhor.
“É um voroir agora”, disse Leif, pousando a caneca sobre a mesa.
Hrafn ficou quieto.
“Parece que começou no ponto errado”, continuou o hersir, indicando-o de leve. “Mas pode ser bom.”
Depois disso, tirou a luva da mão boa com os dentes, e levou os dedos calejados até o ferimento no rosto. A dele ainda era vermelha, mas Hrafn viu a carne melhorar um pouco sob o toque. Devagar. Pouco. O bastante.
Entendeu mais pelo gesto do que por qualquer explicação.
“Entendi”, disse.
O silêncio caiu de novo.
E Hrafn até gostou dele. Gostou o bastante para tomar mais um gole em paz e começar a achar o hersir uma companhia quase agradável.
Então Leif falou outra vez.
“Terá deveres agora.”
Merda.
“Mas ainda terá tempo. Como é devido a todo fylkirn.”
O alívio veio tão rápido que quase doeu.
Um dos primeiros medos que lhe ocorreram ao acordar fora ser jogado de um lado para o outro em batalha a partir daquele mesmo dia. Voroirs eram poucos. Um a cada cem selecionados, se tanto. Viviam mais do que a média, diziam, mas morriam mais também. Sempre faltava sangue novo para a Hird.
“Mas seu tempo será diferente.”
Ah, que merda.
Hrafn começou a gostar um pouco menos do hersir. O café já não parecia tão generoso assim.
Verdes eram raros. Pouco úteis em batalha, menos ainda que os brancos em certos contextos. Antes disso, talvez o colocassem para cuidar de ervas, ajudar em cultivo, dar megin aos campos, coisas do tipo. Comida a mais era sempre bem-vinda para a Hird. Poderia acabar vivendo como um nobre aleijado e tranquilo, o que não lhe parecia ruim. Ruim mesmo seria morrer cedo e de forma ridícula.
Mas começava a achar difícil que o destino lhe oferecesse esse tipo de gentileza.
“Eu entendo”, respondeu, sem gostar de dizer aquilo.
Não havia muito o que fazer. Era nobre agora, sim. Também era um escravo glorificado. Pelo menos até se tornar osso duro o bastante para que ninguém o tratasse assim. Se vivesse até lá.
“Bom”, disse Leif.
E então não falou mais nada por algum tempo, como se tivesse querido apenas vê-lo com os próprios olhos antes de decidir qualquer coisa.
Ao menos teve a decência de deixá-lo terminar o café.
“Por que nos levar a Sahirid?”, perguntou Hrafn, aproveitando o silêncio antes que o homem resolvesse expulsá-lo.
A questão o incomodava desde a noite anterior. Desde antes, talvez. Parecia estupidez. Por que não formar voroirs em cada cidade, em vez de arrastar gente pelas estradas de sal até o meio do reino?
“Porque sim”, respondeu Leif.
Ríspido. Curto. Fim.
Hrafn não se surpreendeu.
“Mas assim morrem mais”, insistiu. “Normalmente, não deveria morrer ninguém.”
Desta vez havia algo mais na voz do hersir além da secura habitual. Algo mais áspero. Mais perto de vergonha do que Hrafn teria imaginado ouvir ali.
E então ele entendeu.
Alguma coisa dera errado.
As estradas existiam. Logo, eram usadas. As cidades da Hird comerciavam entre si. Caravanas grandes cruzavam o reino o tempo todo, e cruzavam protegidas. Funcionava, na maior parte das vezes. Algumas vezes, não.
“Você está dispensado”, disse Leif, antes que Hrafn pudesse ir além.
Pôs a caneca sobre a mesa e saudou o hersir como se devia. Depois saiu sentindo-se uma merda.
Não exatamente por causa da conversa. Não era agradável entender que a vida dele, dali em diante, provavelmente seria feita de luta, dor e utilidade. Mas ele já suspeitava disso. Quase esperava por isso.
O que o derrubava, no momento, era o corpo.
Doía muito.
Doía o tempo todo.
Continuou andando, passando da própria barraca sem parar de imediato. Naquele dia iriam sair mais tarde. Não aproveitariam toda a luz da Estrela, porque a noite anterior exigira demais de todos. Precisavam de tempo. O bastante para não ruírem na estrada.
“Hrafn!”
Ele ouviu a voz antes de reconhecer quem era.
“Venha cá, Hrafn! Veja o que esse malandro tem!”
Era Grim.
O branco acenava para ele no trecho mais ao fim da caravana, já ao lado de alguns comuns. De alguma forma, no tempo em que Hrafn estivera sentado tomando café com o hersir, Grim conseguira se embriagar ou chegar perto disso.
Impressionante eficiência.
“Aqui, beba, Hrafn”, disse Grim, erguendo uma garrafa de cheiro forte. “Beba. Beber alivia a dor, alivia os fardos, alivia tudo.”
Isso…
“Vamos, não seja fraco. Você perdeu o braço, não a boca.”
Grim gargalhou da própria piada como se fosse a melhor coisa dita desde a criação do mundo.
“Tem de aproveitar o que tem. Vamos beber.”
Hrafn ficou olhando para ele por um instante, a testa franzida, a garrafa balançando a centímetros do rosto.
Bem. Que mal tem.
“Me dê”.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.