Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!
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Capítulo 23. Edvard. Deixando Sahirid
Montar um bom grupo para a jornada, mesmo um pequeno dera trabalho, nada com que Edvard não fosse capaz de lidar, é claro. O problema não eram os detalhes, detalhes eram precisamente o tipo de coisa que ele sabia manejar, o problema era o orçamento, seu senhor tinha pouco dele. O pedido de Lady Alva também não fazia parte do acordo em si, do tipo a ser paga apenas após a conclusão.
Ainda assim Hrafn era um voroir, e havia um fluxo fixo de moeda entrando. Pequeno quando comparado ao dos nobres sérios, mas real, e junto com o nome de Edvard e o prestígio da nova associação, era o bastante para reunir um grupo decente. A maior questão tinha sido a armadura cara, mas Hrafn deixaria Sahirid com uma, mesmo que Edvard tivesse de vender um pouco da própria dignidade para fazer isso acontecer.
“O que acha, meu senhor?” perguntou, de pé ao lado de Hrafn.
O jovem deslocou o peso de um pé para o outro, testando o ajuste da armadura. “Você é cheio de surpresas, Ed,” respondeu, a voz abafada pelo elmo.
Edvard assentiu satisfeito. Ele próprio vestia tecido branco sob uma túnica preta, com as sobrevestes adequadas à sua posição, tudo alinhado como deveria estar. Seu cabelo curto, agora quase inteiramente branco, estava aparado com cuidado, o monóculo de prata repousava sobre seu olho esquerdo.
“Os ajustes estão bons?” perguntou.
“Muito bons,” disse Hrafn, removendo o elmo.
A armadura era algo que Edvard possuíra por anos, um velho pertence e um remanescente de outro tempo. Precisara mandar alterar ela, o que consumira mais de uma semana inteira e atrasara sua partida além do que Hrafn teria gostado, mas o resultado final justificava a espera.
“Imagino que tenha pertencido a alguém da Hird,” disse Hrafn.
“Sim. Pertenceu,” respondeu, elaborando pouco.
O elmo havia sido moldado com o devido cuidado, simbolismo e nobreza, a criatura escolhida para aquela peça fora o Carneiro do Rio, uma besta rara e quase mítica, dita capaz de andar pelo mundo até mesmo durante a ausência da Estrela. Os antigos detalhes azuis haviam sido substituídos por verdes, para melhor combinar com a bênção do novo senhor. No ombro direito fora colocada uma ombreira maior e mais pesada que a direita, para compensar a ausência do braço perdido.
“O equilíbrio também está bom,” disse Hrafn. Então começou a mover a maça.
Edvard observou enquanto o som da arma cortando o ar crescia a cada instante, mais rápido e mais rápido, até que o próprio espaço parecia ceder diante do impulso. Quando a velocidade alcançou o ponto em que qualquer homem comum já teria perdido o controle do pulso, Hrafn começou a girá-la entre os dedos, preservando a força angular de um objeto que nenhum juízo permitiria ser manejado daquela forma.
“Bom,” disse ele. O movimento parou no instante em que a palavra lhe deixou a boca. Veio um som seco de metal contra metal nas manoplas, o eco da desaceleração abrupta.
“Impressionante, meu senhor,” disse Edvard, e de fato era. Tão pouco tempo havia passado e ainda assim Hrafn já era tão habilidoso no manejo da arma. Isso não vinha apenas da força do megin. Edvard já vira homens capazes de esmagar elmos com as mãos, que ainda assim não conseguiam girar um cajado entre os dedos sem parecer idiotas. Mas agora, uma maça? Até então, ele sequer sabia que isso podia ser feito com tal precisão.
“É mais fácil aqui fora,” respondeu Hrafn. Às vezes ele deixava essas pequenas pistas. Indícios sobre a natureza da própria bênção, sobre como ela funcionava ou falhava em funcionar, sem jamais explicar de verdade.
“E ela é pesada também,” continuou Hrafn. “Um homem comum não conseguiria correr com isto.”
“Imagino que não, meu senhor. Ela pesa tanto quanto um homem adulto.” Fora forjada para voroirs e isso significava mais do que ferro grosso, era material melhor, maior densidade e placas feitas para um tipo de corpo saturado de megin. Apenas homens como eles podiam se mover dentro dela com algo que se parecesse com graça.
“Estou muito satisfeito, Ed,” disse Hrafn, Seus olhos negros, escuros como carvão, demoraram-se no elmo por mais um instante antes de entregá-lo ao mordomo. “Hora de partir, então.”
“Sim, meu senhor.” Edvard recebeu a peça com cuidado, evitando os chifres afiados do elmo.
Os guerreiros já esperavam do lado de fora, eram um grupo pequeno, mas seria suficiente. A Estrela estaria ausente apenas uma vez na estrada até o posto da mina e quando retornasse, eles já deveriam ter chegado. Enquanto atravessavam o pátio, Edvard viu alguns dos homens lançarem olhares ao novo senhor. O que viam era juventude e um braço a menos, armadura boa demais para alguém tão recém-chegado, e um título alto demais para um homem desconhecido. Alguns viam milagre também, no choque do ferro pesado contra o chão, na presença. Outros viam risco, alguns viam ambos.
“Olá, elevado, eu sou Dagny,” disse a líder dos guerreiros.
Era uma mulher alta, larga nos ombros, com um rosto castigado pelo tempo passado além das muralhas. Faltava-lhe o refinamento da Hird, mas possuía algo mais adequado àquele trabalho.
“Vejo que você é jovem,” continuou. “E não me leve a mal, eu não duvido da sua força. Mas eu e os rapazes aqui…” Fez um gesto curto indicando o grupo. “Somos experientes’’.
‘’Alguns de nós já pararam de contar quantas vezes fomos para longe e eu peço que escute essa experiência, se a necessidade surgir.” Terminou com uma breve reverência, sem graça nem etiqueta, mais soldado do que cortes.
Hrafn levou um momento para avaliar o grupo com os olhos. A maioria carregava cicatrizes velhas, do tipo que se ganha apenas permanecendo vivo em lugares onde outros morrem, alguns já tinham fios brancos no cabelo, outros mantinham as mãos perto demais das lâminas, Hábito de quem já aprendera a confiar na morte para viver.
“Você escolheu bem, Ed,” disse Hrafn.
“Como o ofício exige, meu senhor.”
Dagny lançou um breve olhar ao mordomo, talvez medindo quanto daquilo era polidez ensaiada e quanto era real. Então voltou a olhar para Hrafn. “Os homens vão escutar,” disse ela. “Mas primeiro vão olhar.”
“Faz sentido, eu faria o mesmo,” respondeu Hrafn. “E eu vou escutar.”
Dagny cruzou os braços. “Bom,” disse. “Então nos entendemos.”
Hrafn inclinou a cabeça. “Não completamente. Se a necessidade surgir,” continuou ele, “eu vou ouvir a experiência. Mas se eu mandar você correr, você corre. Se eu disser que ninguém vai bancar o herói, ninguém banca o herói.”
Dagny o olhou como se o estivesse vendo de novo, agora com um cálculo diferente na cabeça. “Justo,” disse por fim.
“Excelente.”
Hrafn começou a andar para a frente, sem discurso ou bênção performática, ele simplesmente se moveu. A armadura respondeu bem ao movimento, o peso parecia pertencer ao seu corpo e a maça pendia ali, uma promessa silenciosa de violência. Os servos começaram a se mover para suas posições e os cavalos foram trazidos. Edvard entregou o elmo a Hrafn já perto da montaria, seu senhor o tomou com a mão esquerda, puxou o elmo sobre a cabeça e o assentou no lugar como se fechasse uma porta.
O Carneiro do Rio voltou o olhar para o mundo.
“Partimos,”.
Dagny repetiu a ordem e os homens começaram a seguir, os primeiros cascos ferrados bateram na pedra, o portão adiante esperava aberto e além dele a estrada caía para longe de Sahirid em direção à mina, à greve e ao medo. Edvard permaneceu imóvel por mais um momento antes de seguir o grupo, conforme o vento da manhã tocou seu rosto com o frio.
Sahirid permanecia atrás deles, bela e severa como sempre e adiante, o mundo.

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