Capítulo 29 - O Preço Que Se Paga
Hrafn caiu de joelhos no exato momento em que os galhos cessaram. Por um instante, o mundo pareceu encolher até caber em apenas duas coisas; o som da própria respiração ecoando dentro do elmo e o choro de uma criança, agudo e perturbador, vindo de algum ponto da mata. Sua mente estava exausta e seu corpo, pior ainda. Ele acabou caindo de costas sobre a terra úmida, olhando para as copas das árvores enquanto levava as mãos ao elmo e o removia com grande dificuldade.
O ar frio da mata entrou melhor em seus pulmões e logo em seguida ele cuspiu sangue, suas costelas pareciam ter quebrado ainda mais durante o esforço de resistir por tanto tempo, com sorte não haveria um pulmão perfurado. Em seguida ele alcançou a manopla e a arrancou com a ajuda dos dentes, tentando se livrar de todo peso que pudesse. Então virou o corpo para o lado, apoiou-se no braço e começou a se arrastar para trás, até conseguir recostar as costas em uma árvore.
Só então deixou os olhos vagarem pelo campo ao redor.
Boa parte das raízes que romperam o chão e dos galhos que caíram de cima haviam morrido junto das mandrágoras. A mata parecia de repente adoecida, tudo ao redor assumira um aspecto de podridão. Um cheiro forte, úmido e pungente enchia suas narinas. Hrafn tossiu mais duas vezes, cada uma pior que a anterior, passou a mão pelos cabelos e fechou os olhos por um instante, sua cabeça latejava.
Tentou forçar a bênção de volta para dentro de si, o máximo que pôde, fechando o megin, abafando a própria percepção e buscando alguma paz. Não conseguiu muito, seus dons permaneceram ativos em seu estado mais passivo, e isso bastava para piorar tudo.
Ele ainda conseguia ouvir e ainda conseguia sentir.
“Ta… doendo.” A voz da garota chegou até ele.
“Garota estúpida,” respondeu Dagny.
Hrafn abriu os olhos, A mercenária havia se ajoelhado ao lado de Liv e estendia a mão em direção a um dos galhos que perfuravam o corpo da jovem quando ela gritou.
“Não!” A agonia naquela única palavra bastou para deter a mulher. “Por favor…”
Dagny puxou a mão de volta imediatamente, ao lado dela, um homem mais velho de longos cabelos brancos, olhou para ela com tristeza e lentamente balançou a cabeça. Não havia nada a ser feito, os dois sabiam disso, todos sabiam.
“Por que você voltou, garota?” perguntou Dagny, e havia raiva em sua voz, mas o tipo de raiva que só existe quando a dor ainda não encontrou um jeito melhor de sair. “Nós teríamos conseguido.”
Liv tentou rir e o esforço arrancou sangue de sua boca antes de qualquer outra coisa.
“Porque… é o que um herói faria.”
Dagny baixou um pouco a cabeça.
“Você realmente é uma coisinha e tanto, criança.”
Foi a primeira vez que Hrafn ouviu a voz da mulher perder a firmeza.
“Lembra…” Liv tentou dizer, mas a tosse a cortou.
“Fale, garota. Eu estou ouvindo você.” Dagny segurou sua mão com mais força. “Estou ouvindo.”
Liv respirou com dificuldade antes de conseguir continuar;
“Lembra quando eu fui até você com algumas moedas? Implorando por treino… e você…”
“Eu disse que era tolice,” completou Dagny, sem tirar os olhos dela. “Que uma garota magricela não seria uma boa guerreira.” Sua voz quebrou. “Mas eu estava errada, criança. Eu estava errada.”
Liv permaneceu em silêncio por alguns segundos, seus olhos já menos firmes, seu rosto ficando cada vez mais pálido.
“Estou com medo, Dagny,” ela disse por fim, em um sopro fraco.. “Estou com frio.”
“Você vai ficar bem, garota,” mentiu a líder, aproximando-se mais e acariciando seus cabelos com uma gentileza que não parecia pertencer àquela mulher. “Você vai ficar bem…”
Liv fez um último esforço para virar a cabeça na direção dela. A luz em seus olhos já estava se apagando.
“Obrigada, Dagny.”
A lider começou a tremer, ela não fez cena nem chorou alto, apenas tremeu, segurando o corpo da garota com mais força, seu sangue manchando suas roupas. Hrafn sentiu aquele processo de várias formas ao mesmo tempo. O sangue correndo pela grama parecia correr dentro dele, ele conseguia sentir o calor deixando o corpo da jovem, esfriando, morrendo pouco a pouco.
A sensação que veio em seguida foi pior, era culpa, uma que ele nunca tivera antes, a responsabilidade de ter levado alguém à morte. Talvez se ele tivesse voltado, se tivesse ido até a Hird. A garota, pouco mais de um ano mais velha que ele, ainda estaria viva, quem sabe permanecesse viva por muito tempo, tornando-se a heroína que sempre quisera ser.
Mas então a mandrágora teria continuado crescendo. O posto da mina poderia ter sido atacado e outros morreriam. Era assim que funcionava neste mundo, quase nunca havia uma saída limpa. Quase nunca havia uma escolha que não exigisse sangue em algum lugar, sempre o preço que é pago. hoje tinha sido a vida de Liv para que não fossem muitas outras amanhã.
“Então, garoto.” A voz de Dagny o arrancou dos próprios pensamentos, ela estava diante dele agora, com Liv nos braços. “Nós vamos, hm?”
A última parte saiu como um breve silvo, torcida por raiva e dor, lembrando-o exatamente do que ele dissera quando decidira entrar na mata. A lembrança o fez se sentir ainda pior do que já se sentia, ainda assim, Hrafn não disse nada e Dagny também não insistiu. Apesar da perda, ela parecia entender a realidade dura daquele trabalho, daquele mundo. Depois de um momento olhando para ele, ela apenas disse aos seus homens;
“Levem o garoto de volta.”
Hrafn soltava gemidos de dor enquanto os guerreiros começavam a remover sua armadura. O metal era pesado demais para que o carregassem junto com ele ainda em seu corpo, e os movimentos abruptos pioraram ainda mais o estado de suas costelas.
Tentando não pensar na própria dor, ele deixou os olhos correrem pela floresta de novo, passando pela grande árvore ou pelo que restava dela. A madeira estava escurecida e o fedor de podridão que vinha dali era tão forte que alcançava até ele. La… havia algo errado, Hrafn conseguia sentir vida ali, a própria árvore estava condenada, mas havia alguma outra coisa ao pé dela, algo pequeno demais para ser percebido por olhos comuns e vivo demais para ser ignorado por ele.
“Levem-me até a árvore,” disse.
Os homens se olharam por um instante, então deram de ombros, como quem já tinha visto coisa demais naquele dia para acharem mais uma estranha e o arrastaram até lá. Quanto mais perto chegava, mais claro ficava, ao pé da árvore, em um pequeno buraco entre as raízes mortas, havia algo.
“Me abaixem.” pediu.
Hrafn afastou as raízes com a mão nua e enfiou mais de meio braço no buraco. Seus dedos apalparam a terra úmida até encontrarem algo duro e pequeno. Quando puxou a mão de volta, segurava uma semente entre os dedos. Havia mais energia vital nela do que qualquer semente tinha o direito de possuir. A coisa pulsava discretamente, como se uma vontade minúscula e teimosa vivesse ali dentro. Hrafn a observou por um instante e então a guardou no bolso sobre seu peito.
Antes que pudesse ser erguido de novo, antes que dissesse qualquer outra coisa, seus olhos ficaram pesados a megin, enfim, começava a se aquietar. A adrenalina foi embora de uma vez, e o vazio que deixou foi imediatamente ocupado pelo cansaço. Não lhe restava mais força para sustentar a consciência.
A mata escureceu ao redor dele.
E Hrafn desmaiou.

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